sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Perdoando os Pais

Quanto mais investigo-me, mais me dou conta do quanto trago em mim da criança que fui. Vivo meus dias com a maturidade possível, mas, quando surge o menino, abro os braços e acolho-o. Como compreender-me se recusar escutá-lo? Não anseio pelo amadurecimento completo. Anseio vão, adúltero. Não acredito que envelhecer signifique vencer a infância. Ninguém jamais depurou o passado. Estou com Drummond: “de tudo fica um pouco”.

Pergunto-me se podemos esgotar a infância, se é possível nos tornarmos plenamente adultos. É esse, aliás, o nosso desejo? O que é envelhecer? Qual a finalidade dessa metamorfose a que tempo nos obriga? Além da morte, confronto eterno e próximo, o que a madureza nos impõe?

Desilusões, arrisco-me a responder. Boas e más, grandes e pequenas, incontáveis desilusões. Para servir de exemplo, tomemos apenas uma, talvez a mais pueril, certamente a mais radical: a idealização dos pais. Na infância, imaginamos que são infalíveis, não temos olhos para suas imperfeições, as quais mais cedo ou mais tarde passamos a enxergar, muitas vezes de modo implacável. Reconhecer a finitude de nossa mãe, de nosso pai, eis o desencanto fundamental.

Difícil é admitir que reconhecer-lhes a humanidade não faz com que esqueçamos tudo que supostamente nos teria faltado, não alivia a memória dolorosa das falhas cometidas. O desencanto, lamentavelmente, é incapaz de apagar as cicatrizes. No entanto, ao pensá-los como realmente são, um homem e uma mulher, atingimos o patamar necessário para reavaliar fatos e fantasias. Quem sabe assim, amadurecidos, nos faremos capazes de perdoá-los, quem sabe assim nos permitiremos eximi-los da culpa que insistimos em lhes atribuir, como se ainda fôssemos crianças.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dos Mapas e Esculturas

pro Artur, Papito
Já se perdeu no passado o momento em que comecei a registrar meus dias por escrito. Lembro que, no princípio, realizava descrições factuais, como se tentasse arquivar as tarefas que fiz, as pessoas que vi, os lugares em que pisei. À medida que o tempo passou, os fatos, se é que posso chamá-los assim, gradativamente perderam importância. Tornou-se mais valoroso pôr sobre o papel sentimentos, impressões, pensamentos. As vivências interiores, sem que eu percebesse, assumiram o primeiro plano na compreensão que tento ter de mim.

Em todos esses anos, e lá se vão muitos, com raras exceções voltei aos antigos cadernos. Quando o fiz, buscava um poema esquecido ou outra ninharia qualquer, pois a curiosidade nunca foi forte o suficiente para me fazer repassar as centenas de páginas manuscritas guardadas no alto do armário. Sei que elas jamais me servirão para exaurir os detalhes das trilhas psíquicas que percorri, mas suspeito que podem me fornecer boas pistas daquilo que outrora senti e pensei, daquilo que fui e talvez não seja mais. Creio deter uma cartografia íntima.

O verdadeiro sentido da introspecção, porém, não é acumular conteúdos para biografia, assegurar dados para uma futura expedição. Ao inventariar as experiências, quero antes entender-me e fazer-me o melhor que posso. O esforço de auto-compreensão nada mais é que uma contínua composição do próprio eu. Escrevendo, busco talhar e elaborar a matéria de que sou constituído com o ímpeto de quem esculpe a si mesmo, obra sempre inacabada. A palavra é o cinzel com que trabalho a página em branco, mais dura que a rocha.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Atentada Tradução IV: Blaise Pascal

pra Raquel Rios
Pensées
(frag. 47 Lafuma)
« Nous ne nous tenons jamais au temps présent. Nous anticipons l’avenir comme trop lent à venir, comme pour hâter son cours, ou nous rappelons le passé pour l’arrêter comme trop prompt, si imprudents que nous errons dans les temps qui ne sont point nôtres et ne pensons point au seul qui nous appartient, et si vains que nous songeons à ceux qui ne sont rien, et échappons sans réflexion le seul qui subsiste. C’est que le présent d’ordinaire nous blesse. Nous le cachons à notre vue parce qu’il nous afflige, et s’il nous est agréable nous regrettons de le voir échapper. Nous tâchons de le soutenir par l’avenir et pensons à disposer les choses qui ne sont pas en notre puissance pour un temps où nous n’avons aucune assurance d’arriver. Que chacun examine ses pensées, il les trouvera toutes occupées au passé ou à l’avenir. Nous ne pensons presque point au présent, et si nous y pensons, ce n’est que pour en prendre la lumière pour disposer de l’avenir. Le présent n’est jamais notre fin. Le passé et le présent sont nos moyens, le seul avenir est notre fin. Ainsi nous ne vivons jamais, mais nous espérons de vivre, et nous disposant toujours à être heureux, il est inévitable que nous ne le soyons jamais. »
Pensamentos
(frag. 47 Lafuma)
Nós jamais nos atemos ao tempo presente. Antecipamos o futuro como se fosse demasiado lento para chegar, como para apressar seu curso, ou recordamos o passado para fixá-lo como se fosse demasiado veloz; muito imprudentes, erramos nos tempos que não são nossos e não pensamos no único que nos pertence; muito vãos, aspiramos àqueles que não são nada e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente normalmente nos fere. Nós o ocultamos de nossa vista porque nos aflige e, se ele nos é agradável, lamentamos vê-lo escapar. Buscamos mantê-lo no futuro e pensamos em preparar as coisas que não estão em nosso poder para um tempo ao qual não temos nenhuma garantia de chegar. Que cada um examine seus pensamentos: ele os encontrará todos ocupados com o passado ou o futuro. Quase não pensamos no presente e, se nele pensamos, é apenas para lançar-lhe luz para preparar o futuro. O presente jamais é o nosso fim. O passado e o presente são nossos meios, só o futuro é nosso fim. Assim nós jamais vivemos, mas esperamos viver e, preparando-nos para ser felizes, é inevitável que jamais o sejamos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Memento Mori

Já não lembro mais quando aconteceu a festa de aniversário: gente empolgada e bêbeda, salgadinhos sem novidade, músicas da moda – uma comemoração como tantas outras, não fosse por ter transformado num questionamento existencial uma dúvida comum: devo ou não devo comer do bolo?
É curioso como nosso pensamento vagueia. Às vezes, a partir de uma questão banal, somos transportados para terras longínquas. Pensando sobre o bolo e todo aquele açúcar, ocorreu-me o que um tio sarcástico dissera-me há anos a propósito de minha recusa em comer bobagens: “Você vai morrer com saúde!” ou, o que dá na mesma, “Você será o defunto mais saudável do cemitério, parabéns!” É um comentário espirituoso, reconheço, mas menos pela crítica à dieta (na verdade, nada além da exclusão de excessos) do que pelo apelo à morte. Sabemos que todos morreremos, mas será que, tendo a morte como perspectiva, estamos autorizados a fazer qualquer coisa?
São Paulo ou simplesmente Paulo, a depender da fé, possui uma frase extraordinária: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.” (1 Cor 15:32) Destaca-se aí o pressuposto de que, se a vida não possui um sentido maior, dado neste caso pela crença religiosa, resta-nos aproveitar ao máximo os dias que temos sobre a Terra realizando todo e qualquer desejo. Carpe diem! Séculos depois, a partir da leitura de Dostoievski, Sartre haveria de formular uma interrogação que toca no mesmo problema: “Se Deus não existe, tudo é permitido?”
É impressionante como a morte regula nossas ações, quer pelo medo do que virá depois, quer pelo fato de representar o fim absoluto, móbil esse muito mais persuasivo, já que ninguém sabe se de fato existe o post mortem. Mas é impressionante também como normalmente evitamos pensar na morte, valendo-nos dela apenas em momentos oportunos, em especial quando nos falta coragem para tomar uma decisão. Ponderamos: “A vida é curta e está sempre por um triz. E se eu morrer amanhã?” Assim angariamos forças para mudar de emprego, pedir perdão ou dizer ‘te amo’. Quem sabe ainda para cometer loucuras ou pequenos pecados. É inegável: a morte nos incita ao ato. Será, porém, que justifica tudo? Até comer uma fatia de bolo?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Citação I: Orides Fontela

MEIO-DIA

Ao meio-dia a vida
é impossível.

A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.

A luz é demais para os homens.
(Porém como o saberias
quando vieste à luz
de ti mesmo?)

Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.

sábado, 12 de setembro de 2009

Quase diário

Sabe, amigo, hoje escrevo para me desculpar. É que ando muito partido, sentindo-me disperso na vida. Para que? Por que? Onde? Estou amuado, como quem perdeu a graça, ficou sem assunto, meteu-se num beco sem se dar conta.

Sabe, amigo, um repente e tudo esfacela-se? A saudade retumbante no peito, a alma sem ânimo, o enfado infinito? E uma angústia sem estridência? Só a ânsia pelo retorno – ao nada? a Minas? ao mito?

Sabe, amigo, o desejo de olhar para trás e virar estátua de sal? O colo que não existe? Acontece, não é verdade? A vontade de matar o vizinho, o ruído que não cessa? O inimigo dentro de nós?

Sabe, amigo, digo a mim mesmo que preciso ter paciência, que vai passar. Digo como dizia à minha avó, sete anos de luta contra o câncer.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Maturidade

Ao despertar, vejo o sol despontar
para mais um dia de terrível calor.
É verão e a praia está distante,
embora não tanto quanto a juventude.
– Tornei-me homem!
Os amores de mar passaram,
passaram os veraneios e as horas vãs,
passaram os anos de aventura e risos.
– Ao menos trabalho sem grandes pesares.

Levanto-me para restaurar o presente.
A mesa está posta como sempre esteve.
O pão, o café que mal tomo,
a bolacha doce de chocolate ruim.
Em poucos instantes, terei de sair
e fingirei que tudo está bem,
adulto maduro que sou.

Mais tarde, quando ao meio dia o sol estiver a pino,
farei meu almoço de arroz com feijão
e ovos estalados à moda escrava.
Sentarei à mesa, porei farinha no meu prato,
e mastigarei um pouco do passado,
degustando o amargo desta prisão,
nostalgia.

De noite, chegado em casa para o sono,
acabarei enfim por me despir
antes de deitar-me em silêncio na cama de velhos sonhos.
É preciso dormir.
Estou nu frente à memória
e não posso amá-la.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Motivo para o Rubor, Razão para Sorrir

Nota.
B., permaneço espantado e contente com suas palavras. Muito obrigado por tê-las formulado e trago à luz, mesmo tendo se passado cerca de três meses desde o final do semestre. Confesso que elas me tocaram profundamente. Obrigado também por ter permitido a reprodução da postagem originalmente publicada no Insistência Insone. Como vários amigos e amigas acompanham o Armadura de Vento, aprouve-me, sem maiores intervenções de minha parte e em que pese a timidez, compartilhar essa alegria, esse motivo para o rubor, essa razão para sorrir.

QUARTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO DE 2009
"Ousadias de fim de semestre".
Querido professor, lhe trago esta maçã mais como uma oferta de Lilith que como um agrado. A maior parte das coisas que você lerá nas próximas linhas em nada lhe acrescentará, mas, ainda assim, elas esperaram o semestre inteiro para sair de mim. Digo-as apenas aqui, covardemente escondida por trás das teclas que impedem que fiquemos os dois ruborizados e fugitivos cara-a-cara (ficaremos, inevitavelmente, mas sem precisar assumir um para o outro, então). Há um tipo de brilho em seus olhos que poucas vezes vi noutros (se é que já vi), é um misto de sagacidade e meninice com mais alguma coisa indefinida que faz com que pareçam desmontar constelações inteiras num breve piscar. São olhos de alma. Não, não olhos 'da alma', olhos DE alma. Tem pessoas que quando nos olham parecem estar absolutamente ocas, como se nada do que viveram houvesse ocupado qualquer espaço em seu olhar, você não. Você tem olhos tão cheios, tão cheios, que a alma inteira parece ter se depositado naquele ponto de luz que eles emitem enquanto você divaga sobre umas boas ironias filosóficas. Há também, sem nenhum respeito, um tanto de erotismo neles. Por que? Onde? Como? Eu não sei de onde vem, mas que há, -pelos céus!- há, e é mais do que o suficiente e o saudável para nós, pobres mortais que o cercamos.
Sem falar no quê de teatralidade, que me diverte e prende, em seus movimentos. E no distanciamento ético que faz com que todos esses meus pensamentos soem meio ridículos e fora de contexto. Além disso tudo, para fazer par com os olhos, o sorriso às vezes o faz parecer um menino travesso que acaba de aprontar uma armadilha e só está esperando que alguém caia nela. Tem as mãos bonitas também, muito, muito brancas, e sandálias de couro (*-*).
Mas, apesar de todos os atributos encantadores acima citados, tem uma coisa que chama ainda mais atenção e eu juro que não vou falar do sotaque (hahaha). É a aura de paixão que o encobre quando se perde em uma linha de raciocínio sem perceber que carrega uma sala inteira junto.
Então, senhor Marcelo, perdoe-me a ousadia, mas tu, com tuas viagens, foste um dos meus poucos motivos para acordar sorrindo às quartas e sextas por um semestre inteiro.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O Palco e o Peito

pra T. Lides
Tenho uma tia melodramática. Ela sempre morou longe, afastada de meus olhos e do núcleo familiar. E sempre se entristeceu por isso. Ainda criança, lembro-me de irmos visitá-la e sermos recebidos com choro compulsivo. Tão marcante! Parecia até que chegávamos para enterro ou visita a moribundo. Nunca soube se era o enlevo do reencontro. Devia ser a dor da saudade. Também não me esqueço de sua pizza massuda feita na chácara de águas límpidas e das brincadeiras forçadas que encabulavam seus filhos. O bunda-lê-lê de calcinha, como era engraçado! Pela bundona ou pelo inusitado? Àquela época, já era senhora, mãe de meus primos, um em plena adolescência. Mesmo assim, comia escondida doces na cozinha para não ser lembrada do regime. Certa vez, ela se regalou empurrando-me a culpa por um arroto altíssimo que deixou escapar na lanchonete. Quem pode com ela, com minha tia e com a alegria?
A felicidade assume formas inusitadas: é curioso como não sabemos ser felizes. Será que é de tanto ser triste? Voltamos à meninice, revisitamos comportamentos infantis: é pulo, é pum, é lutinha, é bunda-lê-lê, é bobajada, são os risos sem razão. Desconfio que a alegria não caiba numa alma adulta. Para acolhê-la no peito, há que ser velho ou criança. Ser maduro ou ainda ingênuo. E minha tia era só adulta, aliás, bem adulta, mãe de casal, esposa, professora, dona-de-casa, devota de Santa Rita de Cássia e desamparada, como agora sou. Mulher de trabalho, sofrimento e beleza. Das que choram de dor em silêncio e se debulham em pranto na alegria.
Graças a seu exemplo, aceitei algumas contradições do humano. Hoje, peço-lhe sugestões acerca da docência e acabo recebendo conselhos sobre o amor. Quando posso, escuto suas histórias sobre a vida talhada na distância e no calor interiorano, essa sina que também se fez minha. Nos meus caminhos quotidianos, protejo-me do sol que outrora a castigava, topo com os mesmos sapos amarronzados que a enojavam. Creio padecer de dores semelhantes. Com ela, aprendi a ver lágrimas e não conter o choro. Sou simples e sentimental, intimido-me quando estou entre estranhos, emociono-me demasiado em chegadas e despedidas. Só não faço arrotar! Muito de seu espírito se encarnou em mim. Tenho uma tia que amo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Adélia Prado - Poesia e Humanização



pra Alline, irmã

Apenas muito tardiamente a literatura entrou em minha vida. Tinha 18 anos, passara há pouco no vestibular e me inquietava com minha ignorância. Pensava que um universitário e futuro administrador de empresas não podia ser tão inculto como eu era e impus-me a leitura de algumas obras, de cujo conteúdo não me restou uma gota, lidas como foram por puro constrangimento, mais como exercício da memória que do espírito.

Felizmente, porém, naquele mesmo período em que me abria à leitura, coisa até então odiada, topei com uma obra que descortinou o valor e o prazer da literatura: Cacos para um Vitral de Adélia Prado. Como nunca antes, senti que a leitura poderia iluminar minha própria vida, permitindo-me compreender melhor a mim e o mundo. Tocado pela beleza daquela prosa poética, sofri uma conversão que, só agora percebo, eu sempre desejara. Não tardou para que eu abandonasse a graduação que iniciaria e partisse para as humanidades a fim de trilhar um outro curso profissional e existencial. Inevitavelmente, caíra por terra o imperativo exterior que me constrangia à formação de uma pátina de cultura, dando lugar a um móbile íntimo e genuíno.

É impossível dimensionar o quanto a leitura modificou-me, pois, a rigor, deveria falar em renascimento, não em modificação. Contudo, na ausência de termos precisos, permito-me dizer que penetrei num novo universo a partir do qual a antiga vida mostrou-se insignificante, dado que menos bela e desafiadora. Descobri o quanto andamos cegos, olhos cheios de escaras. Não enxergamos a poesia, a beleza feliz e triste, que perpassa o dia-a-dia. À Adélia Prado devo essa e muitas outras descobertas. Devo-lhe ainda um entusiasmo que vez por outra se apossa de mim, vivo como uma flama, irrupção da verdade fundamental que a poeta encarna: a poesia está no cotidiano – porque no cotidiano está o divino.

PS: O vídeo da Adélia pode ser visto ou baixado no site do "Sempre um Papo".

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Atentada Tradução III: Michel de Montaigne

I.53: D’un mot de Cesar
[A] Si nous nous amusions [occupions] par fois à nous considerer, et le temps que nous mettons à contreroller [contrôler] autruy et à connoistre les choses qui sont hors de nous, que nous l'emploissions à nous sonder nous mesmes, nous sentirions aisément combien toute cette nostre contexture [ce composé que nous sommes] est bastie de pieces foibles et defaillantes [imparfaites]. N'est-ce pas un singulier tesmoignage d'imperfection, ne pouvoir r'assoir [asseoir, établir] nostre contentement en aucune chose, et que, par desir mesme et imagination, il soit hors de nostre puissance de choisir ce qu'il nous faut? Dequoy porte bon tesmoignage cette grande dispute [discussion] qui a tousjours esté entre les Philosophes pour trouver le souverain bien de l'homme, et qui dure encores et durera eternellement, sans resolution [solution] et sans accord:

[B] dum abest quod avemus, id exuperare videtur
Caetera; post aliud cùm contigit illud avemus,
Et sitis aequa tenet.
[Tant qu’il nous échappe, l’objet de notre désir nous paraît toujours préférable à toutes choses ; venons-nous à en jouir, un autre désir nous naît, et notre soif toujours est égale. (Lucr., III, 1095)]

[A] Quoy que ce soit qui tombe en nostre connoissance et jouïssance, nous sentons qu'il ne nous satisfaict pas, et allons beant apres les choses advenir et inconnues, d'autant que les presentes ne nous soulent [rassasient] point: non pas, à mon advis, qu'elles n'ayent assez dequoy nous souler, mais c'est que nous les saisissons d'une prise malade et desreglée,

[B] Nam, cùm vidit hic, ad usum quae flagitat usus,
Omnia jam ferme mortalibus esse parata,
Divitiis homines et honore et laude potentes
Affluere, atque bona natorum excellere fama,
Nec minus esse domi cuiquam tamen anxia corda,
Atque animum infestis cogi servire querelis:
Intellexit ibi vitium vas efficere ipsum,
Omniaque illius vitio corrumpier intus,
Quae collata foris et commoda quaeque venirent.
[Car il vit que les mortels ont à leur disposition à peu près tout ce qui est nécessaire à la vie ; il vit des hommes gorgées de richesses, d’honneurs et de réputation, fiers de la bonne renommée de leurs enfants ; et pourtant il n’en était pas un qui, dans son for intérieur, ne fût bourrelé d’angoisse, et dont le cœur ne fût oppressé de plaintes douloureuses : il comprit alors que le défaut venait du vase lui-même, et que ce défaut corrompait à l’intérieur tout ce qui du dehors on y introduisait de bon. (Lucr., VI, 9)]

[A] Nostre appetit est irresolu [indécis, indéterminé] et incertain: il ne sçait rien tenir, ny rien jouyr de bonne façon. L'homme, estimant que ce soit le vice [défaut] de ces choses, se remplit et se paist d'autres choses qu'il ne sçait point et qu'il ne cognoit point, où il applique ses desirs et ses esperances, les prend en honneur et reverence: comme dict Caesar, « communi fit vitio naturae ut invisis, latitantibus atque incognitis rebus magis confidamus, vehementiusque exterreamur. » [Il se fait, par un vice ordinaire de nature, que nous ayons et plus de fiance, et plus de crainte des choses que nous n’avons pas veu, et qui sont cachées et inconnues. (Traduction que donne Montaigne dans les éditions de 1580 et de 1588, César, De bello civili, II, iv.)]

I.53: De uma frase de César

[A] Se às vezes nos ocupássemos em nos observar e se empregássemos a sondar a nós mesmos o tempo que dispensamos a controlar os outros e a conhecer as coisas que estão fora de nós, sentiríamos facilmente como toda esta contextura [este composto de que somos formados] é construída de peças frágeis e falhas. Não é um singular testemunho de imperfeição não poder assentar nosso contentamento em coisa alguma e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora de nosso poder escolher o que nos é preciso? Disso oferece um bom testemunho a grande disputa que sempre houve entre os filósofos para encontrar o soberano bem do homem e que ainda dura e durará eternamente, sem resolução e sem acordo:

[B] dum abest quod avemus, id exuperare videtur
Caetera; post aliud cùm contigit illud avemus,
Et sitis aequa tenet.
[Enquanto nos escapa, o objeto de nosso desejo nos parece sempre preferível a todas as coisas. Quando dele fruímos, nasce em nós um outro desejo e nossa sede é sempre igual. (Lucrécio Da Natureza das Coisas III.1095)]

[A] O que quer que caia em nosso conhecimento e fruição, nós sentimos que não nos satisfaz e vamos boquiabertos atrás das coisas futuras e desconhecidas, já que as presentes não nos satisfazem: não, assim vejo, que não tenham o bastante para nos satisfazer, mas é que as pegamos com uma mão doente e desregrada,

[B] Nam, cùm vidit hic, ad usum quae flagitat usus,
Omnia jam ferme mortalibus esse parata,
Divitiis homines et honore et laude potentes
Affluere, atque bona natorum excellere fama,
Nec minus esse domi cuiquam tamen anxia corda,
Atque animum infestis cogi servire querelis:
Intellexit ibi vitium vas efficere ipsum,
Omniaque illius vitio corrumpier intus,
Quae collata foris et commoda quaeque venirent.
[Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição quase tudo que é necessário à vida; viu homens empanturrados de riquezas, de honras e de reputação, orgulhosos do bom renome de seus filhos e, contudo, não havia um que, em seu foro interior, não estivesse atormentado de angústia e cujo coração não fosse oprimido por queixas dolorosas. Ele compreendeu então que o defeito vinha do próprio vaso e que esse defeito corrompia pelo interior tudo que de fora lhe era introduzido de bom. (Lucrécio Da Natureza das Coisas VI.9)]

[A] Nosso espírito é irresoluto e incerto: ele não sabe nada reter nem nada fruir adequadamente. O homem, pensando que se tratasse de falha nas coisas, encheu-se e nutriu-se de outras coisas que ele não sabe e que não conhece, nas quais imprime seus desejos e suas esperanças, tomando-as com honra e reverência. Como diz César, “communi fit vitio naturae ut invisis, latitantibus atque incognitis rebus magis confidamus, vehementiusque exterreamur.” [Acontece, por um vício ordinário da natureza, que tenhamos mais confiança e mais medo das coisas que não vimos e que estão ocultas e desconhecidas. (César De bello civili II.iv – tradução feita por Montaigne nas edições d’Os Ensaios de 1580 e de 1588.)]

sábado, 1 de agosto de 2009

Potó

pro Angelocópi, o ateu
Tenho um amigo, um pouco chegado à entomologia, que brinca dizendo que, se Deus existe, ama insetos mais do que tudo. Pois é inegável: há tantos e tão variados que é impossível nos furtarmos à conclusão de que são eles, e não nós, os preferidos do Criador.

Grandinhos, médios, pequenos, minúsculos; nojentos, curiosos, coloridos; voadores, terrestres, aquáticos; silenciosos, sorrateiros, barulhentos, estridentes; fedidos e inodoros; lentos, rápidos, intrépidos; inofensivos, chatos, ameaçadores – longevos, adaptáveis e incrivelmente diversos, que outro grupo do reino animal foi criado com tamanho esmero?

Há alguns meses, tive a oportunidade de tomar conhecimento de um dos constituintes desse verdadeiro universo: o potó. Na ocasião, uma amiga apontou-o como causa de umas bolhas que lhe apareceram na perna. Surpreso com a magnitude do estrago, pedi que o descrevesse, dado que nunca ouvira falar daquele bicho. Achei o relato estranho porque o inseto, dito terrível, seria diminuto. Deve ser troça, pensei. Chegando em casa, recorri ao Aurélio para orientar-me e descobri que era verdade, mesmo não obtendo uma confirmação de seu tamanho.

Potó [Do tupi.] Substantivo masculino. 1. Bras. Amaz. Zool. Inseto coleóptero, estafilinídeo, gênero Paederus, cuja secreção, de propriedades cáusticas e vesicantes, produz lesões na pele, como eritema, prurido, vesiculação e ulceração, às vezes extensas e numerosas, rebeldes ao tratamento. [Sin.: potó-pimenta, pimenta, papa-pimenta, burrico, trepa-moleque.]

A descrição é técnica, mas podemos inferir o fundamental. Só faltou dizer quanto tempo as lesões levam para melhorar. Nada posso garantir, mas ouvi dizer que, dependendo da extensão e da localização, pode custar até três meses. Por experiência própria, já que acabei por não escapar de uma sorrateira investida, atesto que minha queimadura, surgida ao esmagar um na nuca enxugando-me após o banho, levou quase dois meses para desaparecer. E como ardia!

Tal qual a imagem deixa entrever, o potó mede cerca de dois centímetros, se é que chega a tanto. Seu estrago é imenso e inversamente proporcional ao tamanho. Uma verdadeira desmesura: por que tanto poder para animal tão insignificante? Arrisco-me a dizer que Deus errou feio ao criar os insetos e especialmente, ainda mais do que a barata e o barbeiro, o potó. Deus, contudo, não deve ser culpado desse erro terrível, pois tem uma boa desculpa: a de não existir.

PS: Ou, quem sabe, a de atazanar os descrentes.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

De como entender Zezé di Camargo & Luciano

Não tenho televisão e nem pretendo ter. Quando não morava só, entretanto, às vezes assistia um ou outro programa na TV de casa: nos momentos em que não queria fazer nada, punha-me a zapear na expectativa de encontrar algo que não fosse pura estupidez ou puerilidade.

Certa vez, acompanhei uma entrevista com a dupla Zezé di Camargo & Luciano. Do que disseram, ficou apenas uma mísera lembrança. Interrogado sobre o critério de qualidade de suas composições (certamente a pergunta foi feita noutros termos, mas asseguro não trair o sentido), Zezé saiu-se com uma resposta direta: o arrepio. Quando uma composição o toca a ponto de arrepiá-lo, eis então uma canção boa. (Observo, porém: não consegui detectar se “boa”, naquele contexto, significava “de sucesso de público”.)

Achei curioso o meio por ele descoberto para avaliar suas próprias composições. E isso porque nada do que eles fizeram, ou melhor, nada do que conheço que fizeram causou-me a menor comoção. Nunca achei que retratassem satisfatoriamente qualquer vivência com a qual pudesse me identificar.

Tempos depois, pensando sobre o resquício que me ficou daquela entrevista, dei-me conta de que a expressão de meus sentimentos se faz a partir de referenciais distintos. A fórmula de meus amores e dores, a manifestação de minha angústia, o lamento pelos desencontros – choro e rio por meio de outras palavras e ritmos, foi o que concluí. Minha sensibilidade pinta-se com outros tons e é por isso que minha vivência encontra melhor representação por meio de outras vozes, quando não apenas pelo silêncio.

Ouso pensar que há formas mais ou menos sofisticadas do sentir e do exprimir-se, mas não tenho cacife para elevar essa opinião a um estágio fundamentado. Em todo caso, reconheço a existência de outras expressões da sensibilidade e me parece ser essa a razão do sucesso disso que ora se chama sertanejo (totalmente desvinculado do que o sertão de fato é). Tenho como inegável que Zezé di Camargo & Luciano conseguem comunicar-se com um grande público, traduzindo e formando uma sensibilidade comum e que ocorre de não ser a minha. Sinceramente acredito que Zezé, autor de várias das canções da dupla, tenha sido verdadeiro quando disse que seu critério de composição é o arrepio. Tendo inclusive a estar de acordo. O que nos diferencia é seu significado. Num caso, emoção. Noutro, indulgência.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Critério Tristeza

Com uma freqüência variável, mas sempre sem grandes intermitências, percebo em mim uma tristeza que não sei explicar. Incapaz de detectar-lhe a causa, sinto-a, no entanto, bem presente em mim, pois que meus olhos miram o chão e minhas costas levemente se curvam sob um fardo invisível. Tristeza diáfana, sei que não tem um motivo concreto, sei que não emerge de nenhum outro acontecimento senão do fato de estar vivo.

Insinuações já ouvi de que se trata de doença, leviandade dificilmente igualável. Há quem diga que sou melancólico, classificando meu humor ao modo dos antigos, que haveriam de atribuí-lo à bile negra. De minha parte, não almejo explicá-lo de maneira definitiva, porquanto parece-me claro que a vida – mesmo quando verdadeiramente feliz – comporta um traço de dor.

Vivemos, contudo, um tempo em que é imperativo ser feliz, tempo no qual a alegria se configurou num manto ostensivo e opressor. Tornou-se obrigatório aparentar contínua felicidade e suspeito haver tolos que se julguem realmente bem-aventurados, por certo os mesmos que concebem a tristeza como patologia. Farsa, auto-engano, caráter infantil, superficialidade. Muitas palavras poderiam designar tal ilusão.

De meu temperamento, do qual colho frutos ora mais, ora menos interessantes, extraí um metro que faço questão de manter a mão: a radical desconfiança dos que nunca se entristecem. Desconfio de que tais pessoas sejam incapazes de travar conversas íntimas e aprofundadas uma vez que menosprezam a introspecção, às custas da qual tentam inscrever em seus rostos um sorriso que não lhes pertence. E como conviver com quem vive envolto na névoa da felicidade contrafeita?

Permito-me estar convicto, a despeito de qualquer rasgo melancólico, de que existem pessoas às quais não cabe partilhar minha intimidade. Metro em punho, distingo-as recorrendo à tristeza, pois sei que quem desconhece a dor não tem meios para me compreender.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Atentada Tradução II: Ángel González

El otoño se acerca
El otoño se acerca con muy poco ruido:
apagadas cigarras, unos grillos apenas,
defienden el reducto
de um verano obstinado en perpetuarse,
cuya suntuosa cola aún brilla hacia el oeste.
Se diría que aquí no pasa nada,
pero un silencio súbito ilumina el prodigio:
ha passado
un ángel
que se llamaba luz, o fuego, o vida.
Y lo perdimos para siempre.

O outono se aproxima
O outono se aproxima com muito pouco ruído:
apagadas cigarras, uns poucos grilos,
defendem o reduto
de um verão obstinado em perpetuar-se,
cuja suntuosa cauda ainda brilha no oeste.
Há quem diga que aqui não passa nada,
mas um silêncio súbito ilumina o prodígio:
passou
um anjo
que se chamava luz, ou fogo, ou vida.
E o perdemos para sempre.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Desnorteando

pra Martinha, universal
pra Bárbara, batuque e garra
Há alguns anos, um amigo foi à França passar a lua-de-mel e, tendo voltado, não hesitou em contar-me: “Conheci Paris e voltei colonizado”. É engraçado, mas acho que não estava brincando. Creio que, mesmo sem perceber, sintetizou um sentimento comum a muitos de nós, pretensamente letrados e educados em boas escolas.

Acompanho vários amigos e conhecidos partirem para a Europa ou Estados Unidos a trabalho ou estudos. Sempre com orgulho e certas vezes soberba, vejo-os organizar a mudança e freqüentemente acalentar a expectativa de fincar pé nas bandas de lá. Tudo corre como se tivessem encontrado a chance de habitar o centro do mundo – “onde tudo acontece” – e pudessem enfim tomar parte no que há de mais contemporâneo em todo o planeta. Nas festas de despedida não é incomum entrever um misto de admiração e inveja por parte dos que permanecem. Parece-me que vários dos que ficam nutrem o mesmo desejo de “conhecer o mundo”, ainda que muitas vezes esse ‘conhecer’ signifique pouco mais que deslumbrar-se e o ‘mundo’ mal se estenda além do Mediterrâneo e dos Urais.

Reconheço as possibilidades que alguns dos países do norte oferecem. Reconheço também a ambivalência dessas possibilidades, sempre crivadas pela pecha de estrangeiro, quando não pelo opróbrio xenófobo. Só não entendo o frisson causado por Roma, Nova York, Berlim e companhia limitada. Desconfio que, tal como nos centramos no sudeste do Brasil e na zona sul de duas de suas capitais, centramo-nos também no velho continente e na América (América?) como se fosse um referencial irredutível, para não dizer redentor. Crianças, é como se fosse preciso nos submeter a um rito mágico, estranho e estrangeiro, para adentrarmos a idade adulta. Queremos ser modernos, pós-modernos, bem-sucedidos, antenados (sabe-se lá mais o quê) e agimos como se apenas no exterior pudéssemos atingir tal status. Olhamos nossa terra como arcaica ou rudimentar, donde o desejo de deixá-la, nem que seja temporariamente. Mendigamos bênçãos alheias ao invés de, aqui e agora, fazer acontecer.

É fato: ainda estamos colonizados e nos comportamos como se viver em nossa pátria fosse viver em degredo. Pode parecer estranho, mas é preciso descobrir o Brasil.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Atentada Tradução I - W. Busch

Twice two equals four: ’tis true
But too empty and too trite.
What I look for is a clue
To some matters not so light.

1ª
Dois vezes dois é quatro: verdade
Mas muito vazio e insosso.
O que procuro é uma chave
Pra assuntos menos tolos.

2ª
Dois e dois são quatro: maravilha!
Mas por demais vazio e irrelevante.
O que procuro é a trilha
Pra paradas mais fascinantes.

3ª
É verdade: duas vezes dois é quatro
Mas demasiado vazio e estável.
O que procuro é ser apto
Pra matéria mais volátil.

4ª
Dois e dois somam quatro: é isso!
Porém fútil e inerme.
O que procuro é saída
Pra guerra não tão leve.

5ª
Duas vezes dois é quatro: duvida?
Mas é oco e sem graça – e muito.
O que procuro é partida
Pra onde eu não sei: pro mundo?

6ª
A matemática é certa: se vê
Pena ser fácil – que tédio!
O que procuro? Morrer
Pra tudo que é sério.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

António Alçada Baptista

Ainda trago na memória a entrevista que me permitiu conhecer António Alçada Baptista, de cuja morte apenas recentemente soube. Recordo-me de seus óculos, de seus cabelos grisalhos, da delicadeza de suas palavras. Marcou-me sobremaneira sua apologia do afeto, se é que posso assim me exprimir, de modo que logo fui buscar algum de seus livros. Encontrei O Tecido do Outono, o qual me tocou profundamente a ponto de me considerar um novo homem após a leitura. Daí, iniciei a caça a outros, difíceis de encontrar, já que não editados no Brasil ou esgotados há muito. Foi o caso d'O Riso de Deus, d'Os Nós e os Laços, Peregrinação Interior I e II, do Tempo nas Palavras e, mais recentemente, d'A Pesca à Linha.
Alçada, como intimamente o chamo, adquiriu certa proeminência em Portugal, embora aqui, no além-mar, tenha assomado pouco mais que a notoriedade de sócio da Academia Brasileira de Letras. Pai de sete filhos, o que para mim é significativo, parece sempre ter navegado os mares do amor e de Deus, elaborando os conflitos oriundos de uma educação tradicional sem descurar dos desafios e incongruências do tempo presente. Sua literatura é marcada pela suavidade e beleza com que vive e demonstra os sentimentos. Como ninguém mais, singrou o oceano da afetividade com o espírito tão forte e tão frágil como pode ser aquele de quem cruza um Atlântico para desbravar a mais incógnita de todas as terras: a sensibilidade.
António Alçada Baptista
Covilhã, 29 de janeiro de 1927
Lisboa, 07 de dezembro de 2008

domingo, 7 de junho de 2009

Liberdade

pra Oficina de Filosofia da Coopen,
saudosa escola de saudosos alunos
– Ó, Homem, tu és livre?
– Libérrimo!
– Podes fazer o que quiseres?
– Tudo!
– Voa, então, ó ser terrestre, recorta o céu como uma águia!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Eterno Sísifo

pra Lu & Mari
Envelhecer é uma injustiça. Desde já aviso, contudo: não me refiro ao inevitável fato de que nos tornaremos velhos, subentendendo-se com isso frágeis e um tanto desmemoriados, nem me refiro ao risco da decrepitude. Sequer aludo à velhice concebida como rabugice, da qual muitos, aliás, não padecem. É envelhecimento a passagem da infância à adolescência e à madureza, conquanto sobre ela não recaia o peso da vetustez. E é ela, essa passagem, que tenho em mente quando afirmo a injustiça.
Pensemos nas crianças, quando ainda bem crianças, e em todas as pessoas que lhes sorriem, acariciam e, à distância, observam-nas com olhar cândido. Pensemos em todas as graças que lhes são ofertadas como que por recompensa à graciosidade que têm. Para elas, o mundo deve ser muito doce, pois, onde quer que estejam, basta ser o que são a fim de serem acolhidas com afeto. Uma mão espalmada sempre se estende. Tudo é afago, amparo, dádiva. Até que...
...cresçam. Basta começar a adquirir relativa independência, revelar e defender (às vezes de maneira estridente) as primeiras vontades, para que da mão venha a palmada, para que o riso se converta em careta, para que o presente se transmute em barganha. Não é nada doce suportar transformação tão radical. Para onde foi toda aquela amabilidade? Por que o mundo anteriormente receptivo se faz repressor? Por que o condescendente sim evolve para retumbante não? E olha que nem é necessário demonstrar desejos absurdos (há mesmo desejos absurdos?) ou opiniões heterodoxas (ortodoxia, o que realmente é?), caso nos quais se aprofunda ferozmente a negação. Não é curioso que o período em que mais somos acolhidos coincida com aquele no qual ainda não nos estabelecemos enquanto sujeitos? Por que a constituição de nossa personalidade caminha pari passu com a recusa alheia de nossa autonomia? É instigante pensar que as oposições se iniciam justamente quando deixamos de ser uma massa amorfa e passamos a delimitar nossa forma própria. Que sentido há no esforço de nos encaixarem em fôrmas pré-determinadas mesmo quando o molde que queremos nos dar é possível e legítimo, ainda que por ventura excêntrico?
Embora todos nós experimentemos um certo nível de recusa, que é inevitável e até salutar, há casos de nãos sistemáticos em que se veda à pessoa a possibilidade de manifestar seu próprio ser. O mundo, outrora afável, torna-se contumaz algoz, terrível ditador com porrete em punho. É assustador imaginar nosso ser reiteradamente negado, situação que apenas poucos conseguem redargüir com um sim antitético e voraz, como há de ser a consciência da própria condição, a pujança dos desejos autênticos. É como se, todos os dias, tivéssemos recusado nosso passaporte de entrada no teatro humano e fôssemos obrigados a solicitá-lo ininterruptamente. Por que algumas pessoas têm seu papel insistentemente cortado? Sua postura, seus anseios, movimentos e modos – sua fala? Recusar-lhes reconhecimento significa acachapar a tentativa de se afirmarem como indivíduos e obterem a tranqüilidade para serem o que são. Haverá crime mais desumano? É dilacerante a todo tempo ter de defender-se das pauladas do mundo e ainda angariar forças para perseverar. Tenho dificuldades em dimensionar a dor dos que se defrontam com tamanha peleja. Não são poucos que a enfrentam e sucumbem. Envelhecer é mesmo uma injustiça. Mas para alguns é uma injustiça ainda mais injusta.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Soneto do Desencontro

pra Diana,
com o possível cuidado
1º Quarteto
Faltos de arte: desta, a do encontro, e de quantas mais?
2º Quarteto
Faltos da arte? Sim, mas somente em parte.
1º Terceto
A emenda? A sorte. Ou a arte virou sua consorte?
2º Terceto
Verdadeira e falsa verdade – quantas peças nos pregam suas faces?

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Circo Interior: Domador

pro George, mesmo não sendo uma ode
e, de novo, pro Daniel
Todos conhecemos Platão, nem que seja por referência ao amor platônico, que ninguém sabe ao certo o que é. De sua lavra, realmente rica e diversificada, desponta (a partir do séc. XIX) A República, para cujo título, conta-me um amigo helenista, a melhor tradução seria Forma de Governo, do grego politéia, vertido pelos latinos como res publica. À parte a ressalva erudita, convém admitir que A República trata sim das formas de governo, mas também da alma e de muitas outras coisas, como o conhecimento, a educação, a poesia, a música, a imortalidade, as virtudes e que, portanto, talvez não haja título algum que consiga sintetizá-la com perfeição. Seja lá como for, contudo, é correto dizer que ela se baseia numa analogia entre cidade e alma, as quais teriam estruturas homólogas. Tanto uma como outra seriam compostas de três partes: governantes, guardiões e auxiliares; e razão, ira e desejo, seus correspondentes psíquicos.
É claro que uma explicação que faça jus à reflexão platônica e que seja condizente com seus meandros etimológicos deveria entrar em minúcias, mas elas não convêm aqui; elas, ao menos neste instante, não convêm a nós que julgamos o academicismo somente um dos modos do pensar, talvez não o melhor, certamente não o mais criativo. Ressalte-se, pois, apenas uma curta passagem do livro IX na qual Sócrates propõe uma imagem curiosíssima para ilustrar o ponto que Glauco e Adimanto, seus interlocutores em nove dos dez livros da obra, haviam-no incitado a defender: o de que é melhor ser justo do que ser injusto. Imaginemos, diz ele, um ser compósito: monstro policéfalo, leão e homem, sendo humana seu conformação exterior. Todos, vendo-o, logo pensariam tratar-se de um homem comum e não se aperceberiam de que guarda em si um felídeo e um monstrengo insaciável. A imagem presta-se bem a seu intuito: mostrar que o comando cabe ao homem (à racionalidade) e ao leão (ira) o controle do monstro (os desejos) assim como na cidade o governo cabe aos governantes (idealmente filósofos), os quais recebem o apoio dos guardiões no que tange à aplicação das leis. Não devemos nos apressar e concluir daí que Platão propunha a extinção dos desejos, como se fossem todos bestiais. Muito pelo contrário. “Platão não é cristão”, provocaria meu amigo. Tais como os auxiliares na cidade, quer artesãos, quer agricultores, os desejos são fundamentais na alma, necessários mesmo, apenas não devem exceder a dimensão lhes cabe.
Com essa imagem, Sócrates almejava explicitar o maior valor da justiça frente à injustiça. O motivo é o seguinte: no injusto, a razão seria cativa ou dos desejos ou da ira, desarmonia que só poderia levar à infelicidade. Será que alguém imagina poder ser feliz se uma fera ou um monstro guiar-lhe os passos? Vale destacar que aí se encontra materializada a noção de auto-domínio, tão cara aos gregos e em particular a Sócrates. E o auto-domínio tem como essência o auto-conhecimento e o senhorio das paixões.
E é justamente aí que me pergunto, será que realmente convém dominar as paixões? Melhor dizendo: será que quadra manter sempre e inquestionavelmente a razão no comando? Será, interrogo-me, que, ao menos por vezes, deixar os desejos emergir com contundência não poderia revelar-nos novas facetas de nós mesmos? Será que o rigor no auto-domínio não poderia atravancar o auto-conhecimento? Não nos enxergamos mais nitidamente depois de desafiar nossos limites? A libido e outros apetites sedentos nunca teriam nada a nos ensinar, nem sob a forma de uma lição? Será possível conhecermo-nos a ponto de delimitar com exatidão os desejos que nos calham e até onde calham? Será que não nos apequenamos ao submetermo-nos à completa previsibilidade da razão? Será que realmente não cabe à desrazão ou à loucura algum papel relevante na descoberta de nós mesmos?
Gosto de pensar Sócrates como um artista circense, em especial como um domador de feras, sempre tentando imprimir ordem àquilo que, ao menos em aparência, foge à racionalidade. Sei que suas metáforas apelam preferencialmente para a escultura e a medicina, jamais ao circo; mas suponho que a arte circense tenha sido inventada num período posterior ao clássico. Azar dele, que perdeu uma ótima metáfora. Pensemos bem: não é ele como um domador de leões, tigres e outras panteras? Que sabe alimentar a fera até o ponto adequado, que se arvora a controlá-la com maestria? Refletindo nesses termos, fica claro o porquê de ele se recusar a conceder aos desejos qualquer prerrogativa política ou anímica que não fosse a manutenção da subsistência. O leão e as feras do circo equivalem ao monstro policéfalo d’A República e todos, venhamos e convenhamos, asseveraria Platão, precisam ser contidos para não colocarem em risco seja a cidade, seja a alma, seja o respeitável público.
Todavia, conservo a desconfiança: fustigando de tal modo o leão, não nos arriscamos a domesticá-lo, deformando-lhe a natureza? Não fazemos da fera um mero gato? Sob o manto de um artista da alma, não nos travestimos em domador prepotente e subjugamos o risco e o imprevisto, o tempero do espetáculo? Ao eximir o perigo, não há algo que perdemos, que amesquinhamos? Será que não nos petrificamos naquilo que outrora planejamos ou pensamos ser e esmagamos o que por ventura há em nós de impensável e impensado? Não aniquilaríamos a origem de qualquer revolução possível, de toda mudança profunda e não-calculada? De onde mais poderia emergir o ímpeto para nos demover de nossas estruturas consolidadas? Onde mais encontraríamos um meio de não sermos apenas um felino adestrado e arcaico, se aplacarmos essa força, essa fonte, essa fúria?
“Sem a loucura que é o homem / mais que a besta sadia / cadáver adiado que procria?” Meu velho amigo, nunca o vi recitar Pessoa, embora bem possa imaginá-lo desfrutando desses versos do Mensagem. Entretanto, em que pese a galhofa, julgo compreender as razões de Sócrates, cujo fim último era propor uma nova conformação social, uma inédita e justa organização política que não podia tolerar os desvarios da vontade, sempre propensas ao descomedimento, à tirania. Porém, mesmo assim, mantenho o questionamento, reitero a interrogação: será que a extravagância, será que o desatino nos podem ser profícuos? Abstraindo-se a harmonia citadina, podemos haurir algum proveito da volúpia ou agressividade? Até quando manter os impulsos submetidos ao chicote implica suprimir uma parte de nós que pode nos alçar a inexploradas regiões psíquicas? As unhas, nossas garras, vamos deixá-las crescer?

terça-feira, 12 de maio de 2009

Decantar, eu decanto

pra Rafita e pro Diogo, únicos
também pra Nana, linda
et pour Marie, rêve irréalisable

À medida que envelheço, julgo que sou posto frente a novos sentimentos, virtudes e vícios. Lembro-me, por exemplo, de quando conheci a coragem. Ainda era jovem, embora não faça assim tanto tempo, e vi-me frente a um dilema que me obrigou a fazer uma difícil escolha. Tratava-se de opção profissional, que naquele momento assumia a forma de uma alternativa entre duas graduações. Como uma ironia da vida, a perda de um amigo muito próximo, motociclista morto com uma linha de cerol que quase o decapitou, ajudou-me a decidir. Pensei que, também de modo repentino, meus dias poderiam chegar ao fim e calou fundo a dor de construir uma vida pouco genuína, mesmo que dita segura. Imaginava-me moribundo a lamentar tudo que gostaria de ter feito e, por medo, deixara de lado. Tive a clara convicção: a despeito de todos os riscos, era preciso tomar o caminho mais difícil, o caminho que se apresentava como sendo o meu, e para tanto havia que ter coragem.

Mais tarde, tive de ater-me com outros sentimentos, como ódio, inveja e agradecimento, que brotaram em mim como fruto de novas experiências e reflexões. Acontece que com o passar dos anos não apenas clarificam-se os estados de nosso ânimo, a força ou fraqueza de nosso espírito, mas cristalizam-se as vivências mais marcantes, aquelas que fulguram na memória e insistem em ressoar no peito. Com freqüência têm caráter extremo: morte, amor, separação. Entretanto, podem ser marcantes simplesmente pela beleza e gratuidade, em nada menos radicais que o luto, a entrega ou a ruptura. É o caso de pequenos atos, como uma mão estendida, um convite inesperado, um olhar silencioso. Contudo, também é o caso dos encontros fortuitos que se consolidam em amizades e perpetuam-se no tempo, sobrevivendo à distância e sobrepujando ausências. Simultaneamente leves e consistentes, trazem em si o selo do sublime.

Ressalto a beleza desses encontros, fugazes e memoráveis, inexplicáveis como o acaso, cuja espontaneidade é desconcertante. Graças a qual encantamento entrelaçam-se pessoas desconhecidas em laços fraternais? Por quais secretos motivos a afeição que de tais laços emerge consegue atravessar longas latências mantendo vivo o desejo do reencontro, inevitavelmente efêmero e talvez impossível? Onde está a raiz dessa ligação, do vínculo imune ao oblívio? Por que será que não fenece? Que singular ferida é essa, que, sem deixar cicatriz, mantém-se à flor da pele? Há nome para amizade dessa estirpe?

Tais encontros nascem como que do nada e, quando nos damos conta, já são adamantinos. Duram um átimo, voláteis que são, mas impõem-se como um monumento. Podem surgir num veraneio, numa visitação a museu ou biblioteca, sabe-se lá onde mais. Certo é terem um calor intrínseco que impede de extinguir-se a flama do afeto. É algo impremeditado, inverossímil e, no entanto, real. O anseio é de que se repitam, mas inexiste exatidão quanto ao momento em que isso acontecerá, se é que acontecerá. É incalculável o dia em que as rotas se cruzarão novamente.

Passados meses de absoluto afastamento e silêncio, às vezes mais de ano, o reencontro, quando se dá, reluz – extáticos, olhamo-nos nos olhos, medram as lembranças e o desejo de novas vivências; imersos em renitente saudade, ainda somos íntimos e estamos à vontade como se na véspera estivéssemos juntos. Magicamente, revoga-se a intermitência, unem-se passado e presente e instaura-se um tempo de exceção, que em breve será rompido por nova despedida e permanecerá tão almejado quanto nunca.

Dentre os sentimentos que os anos me proporcionaram, eis um para o qual ainda não encontrei expressão propícia, a não ser admitir que, quando a morte bater à minha porta, talvez repentinamente, não terei o direito de maldizer a vida, sabedor que sou de que esses raros encontros, insignes como são, justificam uma existência; quando se cumprir minha hora, aceitarei de bom grado e sem aventar relutância, como quem consente em descer a montanha após ter logrado alcançar o cume.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Circo Interior: Malabaris

Todos os dias, quando é chegada a noite, sento-me à mesa e ponho-me a escrever. É um hábito de anos, que remonta ao tempo de minha adolescência. Por ausência de melhor termo, chamo meu caderno de diário e, no momento em que meu desejo o solicita, falo com meus botões: “acho que vou ao papel” ou “é hora da palavra”. Daí é pegar o espiral, tomar a caneta à mão e pôr o mundo entre parênteses. Como muitos antes de mim, transformei esse costume em parte do meu próprio ser e acredito que, sem o recurso à escrita, seria incapaz de impedir que o cotidiano me atropelasse. No mundo em que vivemos, creio que o excesso de estímulos quase sempre nos faz confundir as bolas, vejo que se lançam sobre nós muito mais peloticas do que podemos manejar com nossa pequena habilidade malabarista. Ou será que é apenas ao meu redor que se avoluma a confusão das esferas?
Eis o sentido dos cadernos dispostos no alto do armário. Cheios de páginas e páginas manuscritas, alguns desenhos, papéis colados, notas, cartas, bilhetes, fragmentos de calendários e agendas, eles nada mais são que ruminações em torno do eu. Lento como sou, preciso de uma segunda digestão para eliminar falsos alimentos e assimilar os nutrientes de que sou composto. Assim, o recolhimento acabou se tornando uma espécie de casco dentro do qual me protejo e reúno condições para reganhar o exterior. Com a meditação e a palavra escrita, desbasto-me dos sobejos e acredito aproximar-me de mim: recolho os globos que não me pertencem, jogo-os fora ou destino-os a quem lhes cabe o direito, e fico com os meus, aqueles que realmente me dizem respeito e que posso suster com relativo domínio.
O papel é minha coxia e só ali, de frente ao espelho branco, posso tentar dimensionar minha forma, ora convexa, ora côncava. Tudo é labor e esmero no treino das mãos e no cuidado de si. Não há mágica nesse processo: disciplina e auto-escrutínio sem recurso a truques. Ao escrever, não maquino espetáculos. Ao contrário, é a hora em que abandono o picadeiro e recolho-me para repensar e polir movimentos, tendo de curvar-me quantas vezes for necessário. Acho que a construção de nosso próprio número, que é a constituição de nós mesmos, convém ser limpa e precisa, se não queremos ser caricatos, inautênticos como bufões. Que sejam três, que sejam quatro, que sejam cinco ou que seja apenas uma. Não importa. Interessa sempre lançar ao ar apenas as pelotas que podemos equilibrar.

sábado, 2 de maio de 2009

Paz Armada

É noite de sexta e neste instante sem mãe, já noite avançada, não encontro motivo algum para escrever. Sinto-me feliz sem qualquer razão. Acordei assim, como também ontem e antes de ontem. Já dancei sozinho na sala, fiz meus exercícios circenses e ri de mim mesmo cantando no escuro. Imagino que, fosse eu uma pena, não estaria tão leve.
Na medida do possível, tudo está bem no trabalho, que, nesta semana, não me trouxe novas (grandes) torturas. Na república, continuamos sem qualquer rusga, embora ainda aprendendo a arranjar os espaços. Todos os problemas estão em seus lugares (indevidos, como o de todos os problemas), mas seus olhos de gato não me interrogam. Aceito o que têm de irresolução e me sinto em paz.
É impossível medir quanto tempo esse enlevo vai durar. Entendo que a angústia é uma esfinge de mil faces, cujo silêncio é um enigma aterrador, mas não sou eu quem vai romper o armistício.