
terça-feira, 30 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
Tempus Fugit

Ando cada vez mais descrente de grandes sentidos, epopéias e outros absolutos. Volto-me à vida miúda, às pequenezas do dia-a-dia, e tenho-as em alta estima: um café com a mulher amada, uma caminhada com um velho amigo, uma brincadeira com o primo criança. Já que estamos sob a sombra da morte, o que mais nos resta senão aproveitar os bons instantes?
Todos sabemos, como é comum dizer, que a vida passa, que tudo passa, que todos morreremos, que a vida é breve. Isso se tornou proverbial. Entretanto, de tão batido, perdeu o significado. Falando como papagaios, inconscientes do sentido do que pronunciamos, escapa-nos a tarefa mais importante: integrar o discurso à vida, transpor a louvação do presente da palavra à carne.
Assumir a mortalidade, a finitude de nossa existência, é mesmo algo difícil. Não é à toa que inúmeras tradições valeram-se de artifícios mnemônicos para manter à luz a incômoda verdade: o tempo é fugaz. Um preceito, uma caveira, uma ampulheta, a imagem de nuvens, uma bolha de sabão, mandalas de areia – tudo o que nos indica a impermanência nos remete ao essencial. Só há sabedoria na morte.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Citação IV: Carlos Drummond de Andrade
É palavra abissal. Minas é dentro e
fundo.
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas. A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira, sepultada
em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem. E não dizem
nem a si mesmos o irrevelável segredo
chamado Minas.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Quando o retorno é uma nova partida
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Reino dos Reis
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Do Barulho
Olhemos nossas cidades: (i) as lojas têm estéreos voltados para a rua, ora anunciando pseudo-promoções, ora estrondando músicas populares, (ii) carros passam tendo o som no máximo, alguns com enormes parafernálias a roubar o espaço do porta-malas, (iii) ônibus e caminhões, de velhos ou mal-feitos, parecem máquinas de ensurdecer, (iv) as pessoas falam cada vez mais alto, sobretudo ao telefone; (v) bares disputam a freguesia aos decibéis; (vi) igrejas evangélicas fazem o mesmo com fiéis; (vii) até alguns postes, outrora mudos, possuem caixas de som a alardear estações desconhecidas. E isso para não falar em vizinhos sem educação, torcida de futebol, foguetes e buzinas fora de hora, sonorizadores de portão, alarmes anti-furto, ano eleitoral, camelôs...
Conta-me uma amiga que, durante um tempo, andou intrigada com um grilo dentro do seu quarto sempre que ia dormir. Coisa estranha, dizia ela, estranha mesmo, pois, por mais que o procurasse, jamais achava o bicho, apenas o ouvia. Daí foi aconselhada a procurar um médico e descobriu que não havia grilo algum. O cricrido era um dano causado pela poluição sonora a que estava submetida, obrigada que era a trabalhar no hiper-centro urbano.
Olhemos para nós: com ou sem cricrido, todos perdemos o sossego. Freqüentemente, nem mesmo em casa temos paz, já que a tecnologia permite às pessoas assistir TV ou escutar música numa altura lastimável. E o terrível é que quanto pior a escolha, mais alto o volume!
Urge reinventarmos a lei do silêncio. Avanço, portanto, uma primeira proposta: acima do tolerável, nada mais que gargalhadas, gritos de desespero, bagunça infantil, som de ambulância, ronco de avião e, para os carnívoros, marteladas no bife. Nos demais casos, multa; repetindo-se o erro, prisão; havendo reincidência, exílio. Custe o que custar, há que se dar fim à zueira! É questão de saúde, como minha amiga comprova.
Olhemos para o futuro: a continuar como está, ou ficaremos todos moucos ou ficaremos todos loucos! E o silêncio, mais do que nunca, será do barulho.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Diabrura
Se cometemos um crime, vemos que nossas mãos o perpetram, movidas, porém, por força externa a nós. Quando nosso desejo é perverso, podemos estar certos: é o diabo que divide a nossa vontade. O demo é terrível e cheio de ardis: esperto e oportunista como salteadores, solícito e promitente como candidatos políticos. Imaginá-lo um monstro é dar-lhe azo para atuar. O demônio é a fonte de água límpida quando precisamos seguir em frente, é a realização de um sonho que não nos pertence. Sorrateiro como só ele, a um só tempo testa-nos e atenta-nos a fim de vencer, incinerando a criança que habita em nós e à qual pertence o reino dos céus.
Ninguém, contudo, deseja o pecado. Pecamos a contragosto. Eis aí nosso grande refrigério, o motivo pelo qual, quando caímos, havemos de ser desculpados. Se erramos sem dolo, por que devemos ter sobre as costas o peso das faltas? Somos falíveis, mas bons. O mal não passa de um acidente, não existe como atributo humano. O que há é o diabo, que nos espreita. E tudo o mais é ilusão.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Visar a Pobreza
Poucos conhecem-na porque é ocultada. A pobreza sopeia a escória. Não é notícia nem atração turística: vale mais encoberta que exposta. E é por isso que se torna uma questão, tanto moral quanto política, ainda mais relevante. Nossa época é extremamente cruel. Gastamos com guerras e resgate de bancos muito mais do que seria necessário para assegurar alimentação, água tratada, saneamento básico, moradia, educação básica e atendimento médico a todos os habitantes do planeta, como apontam os dados da ONU. Mas o que importa a vida dos pobres e miseráveis, dessas dezenas de milhões? Há melhor ocultação que a morte precoce?
Sob essa perspectiva, o mero fato de manterem-se vivos tornou-se um ato político de primeira grandeza. Espécie de manifestação silenciosa, como negar que o simples existir será sempre uma denúncia da injustiça que não se pode dissimular? Imaginar que vivam e que apareçam, embora raramente, é imaginar que a estrutura que os exclui permanecerá exposta a quem tiver olhos para ver. Quem de nós, porém, se dispõe a conhecê-la?
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Citação III: Almuhassin Attanúkhi
– Ó Abu Umar! Quanto pagou por essa túnica?
O juiz respondeu:
– Duzentas moedas de ouro.
O vizir disse:
– Mas eu comprei esta capa e esta túnica que está por baixo dela por vinte moedas de ouro.
O juiz Abu Umar respondeu rapidamente, como se já tivesse planejado a resposta:
– O vizir – que Deus o fortaleça! – embeleza as roupas que usa, não necessitando de excessos no vestir. Todos sabem que ele tem condições de desprezar essas coisas. Nós, porém, nos embelezamos com as roupas e necessitamos de excesso, uma vez que nos envolvemos com o populacho e com pessoas a quem devemos muito respeito, e diante das quais devemos manter a compostura.
Foi como se ele tivesse enfiado pedras na boca do vizir, que o deixou em paz.
[Excerto de Almuhassin Attanúkhi (séc. X) Palestras agradáveis e notícias memoráveis Trad. Mamede Mustafá Jarouche]
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Atentada Tradução V: La Rochefoucauld
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Do Desejo por Homero
Hoje, muito mais que ontem, vivemos como se o anonimato fosse desprezível e tentamos a todo o tempo e a qualquer custo angariar a atenção de quem nos cerca. A vida simples e comum, que é a vida da maior parte de nós, foi taxada de ingênua e entediante, de comezinha. Por causa disso, nos aventuramos pelo dia-a-dia com ares de desbravador ou príncipe, quando na verdade apenas fantasiamos a vida ordinária em conformidade com a ilusão com que pretendemos nos enaltecer. Relutamos em ser pessoas comuns.
Vivemos como se fosse preciso ser grande e célebre, como se tivéssemos de redimir o cotidiano, donde o ímpeto para transfigurarmos a nós mesmos em personagens que não somos, inflarmos nossas ações em feitos que jamais faremos. Queremos que nossa história seja memorável, que nossa vida seja uma epopéia, mesmo se não passa de uma presepada.
Vivemos sem saber que extraordinário é ser simples.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Perdoando os Pais
Pergunto-me se podemos esgotar a infância, se é possível nos tornarmos plenamente adultos. É esse, aliás, o nosso desejo? O que é envelhecer? Qual a finalidade dessa metamorfose a que tempo nos obriga? Além da morte, confronto eterno e próximo, o que a madureza nos impõe?
Desilusões, arrisco-me a responder. Boas e más, grandes e pequenas, incontáveis desilusões. Para servir de exemplo, tomemos apenas uma, talvez a mais pueril, certamente a mais radical: a idealização dos pais. Na infância, imaginamos que são infalíveis, não temos olhos para suas imperfeições, as quais mais cedo ou mais tarde passamos a enxergar, muitas vezes de modo implacável. Reconhecer a finitude de nossa mãe, de nosso pai, eis o desencanto fundamental.
Difícil é admitir que reconhecer-lhes a humanidade não faz com que esqueçamos tudo que supostamente nos teria faltado, não alivia a memória dolorosa das falhas cometidas. O desencanto, lamentavelmente, é incapaz de apagar as cicatrizes. No entanto, ao pensá-los como realmente são, um homem e uma mulher, atingimos o patamar necessário para reavaliar fatos e fantasias. Quem sabe assim, amadurecidos, nos faremos capazes de perdoá-los, quem sabe assim nos permitiremos eximi-los da culpa que insistimos em lhes atribuir, como se ainda fôssemos crianças.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Dos Mapas e Esculturas
Em todos esses anos, e lá se vão muitos, com raras exceções voltei aos antigos cadernos. Quando o fiz, buscava um poema esquecido ou outra ninharia qualquer, pois a curiosidade nunca foi forte o suficiente para me fazer repassar as centenas de páginas manuscritas guardadas no alto do armário. Sei que elas jamais me servirão para exaurir os detalhes das trilhas psíquicas que percorri, mas suspeito que podem me fornecer boas pistas daquilo que outrora senti e pensei, daquilo que fui e talvez não seja mais. Creio deter uma cartografia íntima.
O verdadeiro sentido da introspecção, porém, não é acumular conteúdos para biografia, assegurar dados para uma futura expedição. Ao inventariar as experiências, quero antes entender-me e fazer-me o melhor que posso. O esforço de auto-compreensão nada mais é que uma contínua composição do próprio eu. Escrevendo, busco talhar e elaborar a matéria de que sou constituído com o ímpeto de quem esculpe a si mesmo, obra sempre inacabada. A palavra é o cinzel com que trabalho a página em branco, mais dura que a rocha.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Atentada Tradução IV: Blaise Pascal
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Memento Mori
É curioso como nosso pensamento vagueia. Às vezes, a partir de uma questão banal, somos transportados para terras longínquas. Pensando sobre o bolo e todo aquele açúcar, ocorreu-me o que um tio sarcástico dissera-me há anos a propósito de minha recusa em comer bobagens: “Você vai morrer com saúde!” ou, o que dá na mesma, “Você será o defunto mais saudável do cemitério, parabéns!” É um comentário espirituoso, reconheço, mas menos pela crítica à dieta (na verdade, nada além da exclusão de excessos) do que pelo apelo à morte. Sabemos que todos morreremos, mas será que, tendo a morte como perspectiva, estamos autorizados a fazer qualquer coisa?
São Paulo ou simplesmente Paulo, a depender da fé, possui uma frase extraordinária: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.” (1 Cor 15:32) Destaca-se aí o pressuposto de que, se a vida não possui um sentido maior, dado neste caso pela crença religiosa, resta-nos aproveitar ao máximo os dias que temos sobre a Terra realizando todo e qualquer desejo. Carpe diem! Séculos depois, a partir da leitura de Dostoievski, Sartre haveria de formular uma interrogação que toca no mesmo problema: “Se Deus não existe, tudo é permitido?”
É impressionante como a morte regula nossas ações, quer pelo medo do que virá depois, quer pelo fato de representar o fim absoluto, móbil esse muito mais persuasivo, já que ninguém sabe se de fato existe o post mortem. Mas é impressionante também como normalmente evitamos pensar na morte, valendo-nos dela apenas em momentos oportunos, em especial quando nos falta coragem para tomar uma decisão. Ponderamos: “A vida é curta e está sempre por um triz. E se eu morrer amanhã?” Assim angariamos forças para mudar de emprego, pedir perdão ou dizer ‘te amo’. Quem sabe ainda para cometer loucuras ou pequenos pecados. É inegável: a morte nos incita ao ato. Será, porém, que justifica tudo? Até comer uma fatia de bolo?
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Citação I: Orides Fontela
Ao meio-dia a vida
é impossível.
A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.
A luz é demais para os homens.
(Porém como o saberias
quando vieste à luz
de ti mesmo?)
Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.
sábado, 12 de setembro de 2009
Quase diário
Sabe, amigo, um repente e tudo esfacela-se? A saudade retumbante no peito, a alma sem ânimo, o enfado infinito? E uma angústia sem estridência? Só a ânsia pelo retorno – ao nada? a Minas? ao mito?
Sabe, amigo, o desejo de olhar para trás e virar estátua de sal? O colo que não existe? Acontece, não é verdade? A vontade de matar o vizinho, o ruído que não cessa? O inimigo dentro de nós?
Sabe, amigo, digo a mim mesmo que preciso ter paciência, que vai passar. Digo como dizia à minha avó, sete anos de luta contra o câncer.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Maturidade
para mais um dia de terrível calor.
É verão e a praia está distante,
embora não tanto quanto a juventude.
– Tornei-me homem!
Os amores de mar passaram,
passaram os veraneios e as horas vãs,
passaram os anos de aventura e risos.
– Ao menos trabalho sem grandes pesares.
Levanto-me para restaurar o presente.
A mesa está posta como sempre esteve.
O pão, o café que mal tomo,
a bolacha doce de chocolate ruim.
Em poucos instantes, terei de sair
e fingirei que tudo está bem,
adulto maduro que sou.
Mais tarde, quando ao meio dia o sol estiver a pino,
farei meu almoço de arroz com feijão
e ovos estalados à moda escrava.
Sentarei à mesa, porei farinha no meu prato,
e mastigarei um pouco do passado,
degustando o amargo desta prisão,
nostalgia.
De noite, chegado em casa para o sono,
acabarei enfim por me despir
antes de deitar-me em silêncio na cama de velhos sonhos.
É preciso dormir.
Estou nu frente à memória
e não posso amá-la.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Motivo para o Rubor, Razão para Sorrir
B., permaneço espantado e contente com suas palavras. Muito obrigado por tê-las formulado e trago à luz, mesmo tendo se passado cerca de três meses desde o final do semestre. Confesso que elas me tocaram profundamente. Obrigado também por ter permitido a reprodução da postagem originalmente publicada no Insistência Insone. Como vários amigos e amigas acompanham o Armadura de Vento, aprouve-me, sem maiores intervenções de minha parte e em que pese a timidez, compartilhar essa alegria, esse motivo para o rubor, essa razão para sorrir.
QUARTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO DE 2009
"Ousadias de fim de semestre".
Querido professor, lhe trago esta maçã mais como uma oferta de Lilith que como um agrado. A maior parte das coisas que você lerá nas próximas linhas em nada lhe acrescentará, mas, ainda assim, elas esperaram o semestre inteiro para sair de mim. Digo-as apenas aqui, covardemente escondida por trás das teclas que impedem que fiquemos os dois ruborizados e fugitivos cara-a-cara (ficaremos, inevitavelmente, mas sem precisar assumir um para o outro, então). Há um tipo de brilho em seus olhos que poucas vezes vi noutros (se é que já vi), é um misto de sagacidade e meninice com mais alguma coisa indefinida que faz com que pareçam desmontar constelações inteiras num breve piscar. São olhos de alma. Não, não olhos 'da alma', olhos DE alma. Tem pessoas que quando nos olham parecem estar absolutamente ocas, como se nada do que viveram houvesse ocupado qualquer espaço em seu olhar, você não. Você tem olhos tão cheios, tão cheios, que a alma inteira parece ter se depositado naquele ponto de luz que eles emitem enquanto você divaga sobre umas boas ironias filosóficas. Há também, sem nenhum respeito, um tanto de erotismo neles. Por que? Onde? Como? Eu não sei de onde vem, mas que há, -pelos céus!- há, e é mais do que o suficiente e o saudável para nós, pobres mortais que o cercamos.
Sem falar no quê de teatralidade, que me diverte e prende, em seus movimentos. E no distanciamento ético que faz com que todos esses meus pensamentos soem meio ridículos e fora de contexto. Além disso tudo, para fazer par com os olhos, o sorriso às vezes o faz parecer um menino travesso que acaba de aprontar uma armadilha e só está esperando que alguém caia nela. Tem as mãos bonitas também, muito, muito brancas, e sandálias de couro (*-*).
Mas, apesar de todos os atributos encantadores acima citados, tem uma coisa que chama ainda mais atenção e eu juro que não vou falar do sotaque (hahaha). É a aura de paixão que o encobre quando se perde em uma linha de raciocínio sem perceber que carrega uma sala inteira junto.
Então, senhor Marcelo, perdoe-me a ousadia, mas tu, com tuas viagens, foste um dos meus poucos motivos para acordar sorrindo às quartas e sextas por um semestre inteiro.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O Palco e o Peito
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Adélia Prado - Poesia e Humanização
pra Alline, irmã
Apenas muito tardiamente a literatura entrou em minha vida. Tinha 18 anos, passara há pouco no vestibular e me inquietava com minha ignorância. Pensava que um universitário e futuro administrador de empresas não podia ser tão inculto como eu era e impus-me a leitura de algumas obras, de cujo conteúdo não me restou uma gota, lidas como foram por puro constrangimento, mais como exercício da memória que do espírito.
Felizmente, porém, naquele mesmo período em que me abria à leitura, coisa até então odiada, topei com uma obra que descortinou o valor e o prazer da literatura: Cacos para um Vitral de Adélia Prado. Como nunca antes, senti que a leitura poderia iluminar minha própria vida, permitindo-me compreender melhor a mim e o mundo. Tocado pela beleza daquela prosa poética, sofri uma conversão que, só agora percebo, eu sempre desejara. Não tardou para que eu abandonasse a graduação que iniciaria e partisse para as humanidades a fim de trilhar um outro curso profissional e existencial. Inevitavelmente, caíra por terra o imperativo exterior que me constrangia à formação de uma pátina de cultura, dando lugar a um móbile íntimo e genuíno.
É impossível dimensionar o quanto a leitura modificou-me, pois, a rigor, deveria falar em renascimento, não em modificação. Contudo, na ausência de termos precisos, permito-me dizer que penetrei num novo universo a partir do qual a antiga vida mostrou-se insignificante, dado que menos bela e desafiadora. Descobri o quanto andamos cegos, olhos cheios de escaras. Não enxergamos a poesia, a beleza feliz e triste, que perpassa o dia-a-dia. À Adélia Prado devo essa e muitas outras descobertas. Devo-lhe ainda um entusiasmo que vez por outra se apossa de mim, vivo como uma flama, irrupção da verdade fundamental que a poeta encarna: a poesia está no cotidiano – porque no cotidiano está o divino.
PS: O vídeo da Adélia pode ser visto ou baixado no site do "Sempre um Papo".
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Atentada Tradução III: Michel de Montaigne
[B] dum abest quod avemus, id exuperare videtur
Caetera; post aliud cùm contigit illud avemus,
Et sitis aequa tenet.
[Tant qu’il nous échappe, l’objet de notre désir nous paraît toujours préférable à toutes choses ; venons-nous à en jouir, un autre désir nous naît, et notre soif toujours est égale. (Lucr., III, 1095)]
[A] Quoy que ce soit qui tombe en nostre connoissance et jouïssance, nous sentons qu'il ne nous satisfaict pas, et allons beant apres les choses advenir et inconnues, d'autant que les presentes ne nous soulent [rassasient] point: non pas, à mon advis, qu'elles n'ayent assez dequoy nous souler, mais c'est que nous les saisissons d'une prise malade et desreglée,
[B] Nam, cùm vidit hic, ad usum quae flagitat usus,
Omnia jam ferme mortalibus esse parata,
Divitiis homines et honore et laude potentes
Affluere, atque bona natorum excellere fama,
Nec minus esse domi cuiquam tamen anxia corda,
Atque animum infestis cogi servire querelis:
Intellexit ibi vitium vas efficere ipsum,
Omniaque illius vitio corrumpier intus,
Quae collata foris et commoda quaeque venirent.
[Car il vit que les mortels ont à leur disposition à peu près tout ce qui est nécessaire à la vie ; il vit des hommes gorgées de richesses, d’honneurs et de réputation, fiers de la bonne renommée de leurs enfants ; et pourtant il n’en était pas un qui, dans son for intérieur, ne fût bourrelé d’angoisse, et dont le cœur ne fût oppressé de plaintes douloureuses : il comprit alors que le défaut venait du vase lui-même, et que ce défaut corrompait à l’intérieur tout ce qui du dehors on y introduisait de bon. (Lucr., VI, 9)]
[A] Nostre appetit est irresolu [indécis, indéterminé] et incertain: il ne sçait rien tenir, ny rien jouyr de bonne façon. L'homme, estimant que ce soit le vice [défaut] de ces choses, se remplit et se paist d'autres choses qu'il ne sçait point et qu'il ne cognoit point, où il applique ses desirs et ses esperances, les prend en honneur et reverence: comme dict Caesar, « communi fit vitio naturae ut invisis, latitantibus atque incognitis rebus magis confidamus, vehementiusque exterreamur. » [Il se fait, par un vice ordinaire de nature, que nous ayons et plus de fiance, et plus de crainte des choses que nous n’avons pas veu, et qui sont cachées et inconnues. (Traduction que donne Montaigne dans les éditions de 1580 et de 1588, César, De bello civili, II, iv.)]
[A] Se às vezes nos ocupássemos em nos observar e se empregássemos a sondar a nós mesmos o tempo que dispensamos a controlar os outros e a conhecer as coisas que estão fora de nós, sentiríamos facilmente como toda esta contextura [este composto de que somos formados] é construída de peças frágeis e falhas. Não é um singular testemunho de imperfeição não poder assentar nosso contentamento em coisa alguma e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora de nosso poder escolher o que nos é preciso? Disso oferece um bom testemunho a grande disputa que sempre houve entre os filósofos para encontrar o soberano bem do homem e que ainda dura e durará eternamente, sem resolução e sem acordo:
[B] dum abest quod avemus, id exuperare videtur
Caetera; post aliud cùm contigit illud avemus,
Et sitis aequa tenet.
[Enquanto nos escapa, o objeto de nosso desejo nos parece sempre preferível a todas as coisas. Quando dele fruímos, nasce em nós um outro desejo e nossa sede é sempre igual. (Lucrécio Da Natureza das Coisas III.1095)]
[A] O que quer que caia em nosso conhecimento e fruição, nós sentimos que não nos satisfaz e vamos boquiabertos atrás das coisas futuras e desconhecidas, já que as presentes não nos satisfazem: não, assim vejo, que não tenham o bastante para nos satisfazer, mas é que as pegamos com uma mão doente e desregrada,
[B] Nam, cùm vidit hic, ad usum quae flagitat usus,
Omnia jam ferme mortalibus esse parata,
Divitiis homines et honore et laude potentes
Affluere, atque bona natorum excellere fama,
Nec minus esse domi cuiquam tamen anxia corda,
Atque animum infestis cogi servire querelis:
Intellexit ibi vitium vas efficere ipsum,
Omniaque illius vitio corrumpier intus,
Quae collata foris et commoda quaeque venirent.
[Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição quase tudo que é necessário à vida; viu homens empanturrados de riquezas, de honras e de reputação, orgulhosos do bom renome de seus filhos e, contudo, não havia um que, em seu foro interior, não estivesse atormentado de angústia e cujo coração não fosse oprimido por queixas dolorosas. Ele compreendeu então que o defeito vinha do próprio vaso e que esse defeito corrompia pelo interior tudo que de fora lhe era introduzido de bom. (Lucrécio Da Natureza das Coisas VI.9)]
[A] Nosso espírito é irresoluto e incerto: ele não sabe nada reter nem nada fruir adequadamente. O homem, pensando que se tratasse de falha nas coisas, encheu-se e nutriu-se de outras coisas que ele não sabe e que não conhece, nas quais imprime seus desejos e suas esperanças, tomando-as com honra e reverência. Como diz César, “communi fit vitio naturae ut invisis, latitantibus atque incognitis rebus magis confidamus, vehementiusque exterreamur.” [Acontece, por um vício ordinário da natureza, que tenhamos mais confiança e mais medo das coisas que não vimos e que estão ocultas e desconhecidas. (César De bello civili II.iv – tradução feita por Montaigne nas edições d’Os Ensaios de 1580 e de 1588.)]
sábado, 1 de agosto de 2009
Potó
Grandinhos, médios, pequenos, minúsculos; nojentos, curiosos, coloridos; voadores, terrestres, aquáticos; silenciosos, sorrateiros, barulhentos, estridentes; fedidos e inodoros; lentos, rápidos, intrépidos; inofensivos, chatos, ameaçadores – longevos, adaptáveis e incrivelmente diversos, que outro grupo do reino animal foi criado com tamanho esmero?
Há alguns meses, tive a oportunidade de tomar conhecimento de um dos constituintes desse verdadeiro universo: o potó. Na ocasião, uma amiga apontou-o como causa de umas bolhas que lhe apareceram na perna. Surpreso com a magnitude do estrago, pedi que o descrevesse, dado que nunca ouvira falar daquele bicho. Achei o relato estranho porque o inseto, dito terrível, seria diminuto. Deve ser troça, pensei. Chegando em casa, recorri ao Aurélio para orientar-me e descobri que era verdade, mesmo não obtendo uma confirmação de seu tamanho.
Potó [Do tupi.] Substantivo masculino. 1. Bras. Amaz. Zool. Inseto coleóptero, estafilinídeo, gênero Paederus, cuja secreção, de propriedades cáusticas e vesicantes, produz lesões na pele, como eritema, prurido, vesiculação e ulceração, às vezes extensas e numerosas, rebeldes ao tratamento. [Sin.: potó-pimenta, pimenta, papa-pimenta, burrico, trepa-moleque.]
A descrição é técnica, mas podemos inferir o fundamental. Só faltou dizer quanto tempo as lesões levam para melhorar. Nada posso garantir, mas ouvi dizer que, dependendo da extensão e da localização, pode custar até três meses. Por experiência própria, já que acabei por não escapar de uma sorrateira investida, atesto que minha queimadura, surgida ao esmagar um na nuca enxugando-me após o banho, levou quase dois meses para desaparecer. E como ardia!
Tal qual a imagem deixa entrever, o potó mede cerca de dois centímetros, se é que chega a tanto. Seu estrago é imenso e inversamente proporcional ao tamanho. Uma verdadeira desmesura: por que tanto poder para animal tão insignificante? Arrisco-me a dizer que Deus errou feio ao criar os insetos e especialmente, ainda mais do que a barata e o barbeiro, o potó. Deus, contudo, não deve ser culpado desse erro terrível, pois tem uma boa desculpa: a de não existir.
PS: Ou, quem sabe, a de atazanar os descrentes.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
De como entender Zezé di Camargo & Luciano
Certa vez, acompanhei uma entrevista com a dupla Zezé di Camargo & Luciano. Do que disseram, ficou apenas uma mísera lembrança. Interrogado sobre o critério de qualidade de suas composições (certamente a pergunta foi feita noutros termos, mas asseguro não trair o sentido), Zezé saiu-se com uma resposta direta: o arrepio. Quando uma composição o toca a ponto de arrepiá-lo, eis então uma canção boa. (Observo, porém: não consegui detectar se “boa”, naquele contexto, significava “de sucesso de público”.)
Achei curioso o meio por ele descoberto para avaliar suas próprias composições. E isso porque nada do que eles fizeram, ou melhor, nada do que conheço que fizeram causou-me a menor comoção. Nunca achei que retratassem satisfatoriamente qualquer vivência com a qual pudesse me identificar.
Tempos depois, pensando sobre o resquício que me ficou daquela entrevista, dei-me conta de que a expressão de meus sentimentos se faz a partir de referenciais distintos. A fórmula de meus amores e dores, a manifestação de minha angústia, o lamento pelos desencontros – choro e rio por meio de outras palavras e ritmos, foi o que concluí. Minha sensibilidade pinta-se com outros tons e é por isso que minha vivência encontra melhor representação por meio de outras vozes, quando não apenas pelo silêncio.
Ouso pensar que há formas mais ou menos sofisticadas do sentir e do exprimir-se, mas não tenho cacife para elevar essa opinião a um estágio fundamentado. Em todo caso, reconheço a existência de outras expressões da sensibilidade e me parece ser essa a razão do sucesso disso que ora se chama sertanejo (totalmente desvinculado do que o sertão de fato é). Tenho como inegável que Zezé di Camargo & Luciano conseguem comunicar-se com um grande público, traduzindo e formando uma sensibilidade comum e que ocorre de não ser a minha. Sinceramente acredito que Zezé, autor de várias das canções da dupla, tenha sido verdadeiro quando disse que seu critério de composição é o arrepio. Tendo inclusive a estar de acordo. O que nos diferencia é seu significado. Num caso, emoção. Noutro, indulgência.



