terça-feira, 25 de maio de 2010

Resposta

Surpreende-me a demanda que freqüentemente chega até mim por parte de meus alunos. “Mas qual é a resposta, professor?” “Não gosto de assuntos que não têm uma resposta exata.” Em classe, contenho-me, mas, entre amigos, confesso sem pestanejar: escuto com tristeza esse tipo de comentário. E a razão é simples: soa-me uma exigência absurda, uma demanda indigna – o que, na vida, possui uma resposta definitiva? Enfrentando a morte, procurando o sentido para a existência, perguntando-se o que é o amor, quem jamais encontrou a resposta final?

Reconheço que um anseio dessa natureza, o anseio pela resolução, seja recorrente, mas não consigo julgá-lo doutro modo exceto como tolo. Mais do que isso, julgo-o reflexo de uma incompreensão da vida. Quem, com sinceridade, poderia dizer que, ao observar o mundo, alcançou algo seguro, exato, permanente? É preciso lembrar que tudo está em movimento, que a mudança é a única realidade? E, se assim é, donde esse ímpeto pela fixidez?

Como professor, nada me resta senão acolher os estudantes e buscar introduzi-los, tanto quanto possível, no universo da incerteza, nossa única morada. Filósofo, repilo a brutal ignorância que é relutar contra a dúvida fundamental de todas as coisas, que é querer uma solução para as grandes questões da vida. Temos de aprender a navegar sobre as águas da perplexidade e do paradoxo, pois o essencial permanece sempre irrespondido. Para as grandes perguntas, a única resposta honesta é que resposta não há.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Onírico

Quando o sol está para nascer
e o orvalho ainda cobre a grama,
a criança desfruta do sonho
de que não se lembrará.

Ela brinca de bola
com amigos desconhecidos
num campo amplo, aberto como a infância.
Seus risos e gritos somam-se aos de seus companheiros
na dança incessante dos corpos de éter.
Nela, como nos outros,
o suor banha o rosto,
o movimento é ágil e leve,
fruto espontâneo dos passos sem cálculo.
Todos os meninos estão absortos
– ninguém olha o longe,
ninguém pensa em ser feliz –
e os pés não cansam de buscar o drible
no jogo – perfeito – em que é desnecessário vencer.

Neste instante, no qual toda a sede
é sede de brincar,
a criança nem desconfia
do que a vigília lhe ensinará:
o sonho é expressão da vida
e sua mais nítida contradição.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Clausura

…e somos de repente uns falsos acordados.
Cecília Meireles
Platão e Aristóteles diziam que a filosofia se inicia com o espanto, que o pensamento se instaura a partir de uma admiração ou surpresa que desarranja nossa visão de mundo e nos impele a reelaborá-la. Posto em xeque o universo dentro do qual sempre vivemos, somos conduzidos, segundo eles, ao caminho da reflexão, como quem busca reavaliar os marcos que balizam as fronteiras do próprio espírito.

É uma empreitada árdua, ninguém há de negar. Muito mais fácil é lançar sob o tapete, tentando abafar com o esquecimento, uma experiência que aponta para o novo, para algo que nunca antes havíamos considerado, para a necessidade de abandonar a zona de conforto que tradicionalmente nos protegeu e, exatamente por isso, nos impediu de crescer. Muito mais fácil é não correr riscos, abrigar-se no discurso do medo e do cuidado, quando precisa-se de coragem para a ruptura.

A verdade é que estamos conformados e, pior, perdemos a abertura para buscar novas formas. Andamos muito comodistas, satisfeitos com as vidinhas que temos e com as fabulações que tomamos por idéias. Se o espanto é realmente a origem da filosofia, como dizem os antigos, não é à toa que vivemos numa época em que se pensa tão pouco. Nada nos comove. Nada nos espanta mais. É de estarrecer.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Atentada Tradução VI: Baudelaire

Petits Poèmes en Prose
XXXIII – Enivrez-vous
Il faut être toujours ivre. Tout est là : c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi ? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront : « Il est l’heure de s’enivrer ! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. »
Pequenos Poemas em Prosa
XXXIII – Inebriai-vos
É preciso estar sempre ébrio. Tudo se resume a isso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que abate vossos ombros e vos verga em direção à terra, é preciso inebriar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas inebriai-vos.
E se às vezes, sobre os caminhos do palácio, sobre a erva verde de um canal, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a ebriedade já diminuída ou extinta, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que gemi, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de se inebriar! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, inebriai-vos; inebriai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De Riso e Giz

Nunca amar / o que não / vibra
Nunca crer / no que não / canta
Orides Fontela

Durante toda minha carreira estudantil, sempre me chamou a atenção o fato de os professores não rirem. Com raras exceções, na maior parte dos casos presas a momentos realmente cômicos, eles sempre mantinham uma feição exígua ou taciturna, como se silenciosamente dissessem que o saber é algo duro, exigente e, portanto, incompatível com o riso e a alegria.

Acho que a academia resiste à alegria tal qual fosse superficial, talvez leviana, indigna de se pôr ao lado de um conhecimento tido como profundo e rigoroso. A felicidade, esta é a impressão que se tem, não passa de uma ilusão dos tolos. E o riso, ora, só é pertinente sob a forma da ironia ou da sátira.

Com a postura de nossos professores, aprendemos, sem que ninguém nos dissesse, que a alegria e também a leveza não calham bem para os que se pretendem intelectuais e eruditos. A intelligentsia deve ser séria. É preciso sempre manter o olhar cinzento sobre o mundo e a vida, a crítica mordaz às “massas”, a rigidez própria dos que são incapazes de valorizar o simples e o imprevisto. Até quando, contudo, esqueceremos que por trás de todo esforço reflexivo reside o impulso para superar a dor de existir e dar-lhe um sentido que nos satisfaça?

Convém evocar Clarice: “a subida mais escarpada e mais à mercê dos ventos é sorrir de alegria.”

terça-feira, 23 de março de 2010

Tempus Fugit


Recentemente, fui acometido por um forte sentimento de efemeridade da vida. Consigo imaginar algumas razões para que tenha despontado com tanta força nos últimos dias, sentimento esse que vez por outra me acompanha, mas sinto-o agora como nunca antes, sinto-o como um desejo candente de viver e desfrutar bons momentos.

Ando cada vez mais descrente de grandes sentidos, epopéias e outros absolutos. Volto-me à vida miúda, às pequenezas do dia-a-dia, e tenho-as em alta estima: um café com a mulher amada, uma caminhada com um velho amigo, uma brincadeira com o primo criança. Já que estamos sob a sombra da morte, o que mais nos resta senão aproveitar os bons instantes?

Todos sabemos, como é comum dizer, que a vida passa, que tudo passa, que todos morreremos, que a vida é breve. Isso se tornou proverbial. Entretanto, de tão batido, perdeu o significado. Falando como papagaios, inconscientes do sentido do que pronunciamos, escapa-nos a tarefa mais importante: integrar o discurso à vida, transpor a louvação do presente da palavra à carne.

Assumir a mortalidade, a finitude de nossa existência, é mesmo algo difícil. Não é à toa que inúmeras tradições valeram-se de artifícios mnemônicos para manter à luz a incômoda verdade: o tempo é fugaz. Um preceito, uma caveira, uma ampulheta, a imagem de nuvens, uma bolha de sabão, mandalas de areia – tudo o que nos indica a impermanência nos remete ao essencial. Só há sabedoria na morte.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Citação IV: Carlos Drummond de Andrade

A Palavra Minas
“Minas é uma palavra montanhosa.” (Madu)
Minas não é palavra montanhosa.
É palavra abissal. Minas é dentro e
fundo.

As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.

Ninguém sabe Minas. A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira, sepultada
em eras geológicas de sonho.

Só mineiros sabem. E não dizem
nem a si mesmos o irrevelável segredo
chamado Minas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Quando o retorno é uma nova partida

Dizem que o bom filho à casa torna. Não sei de onde vem tal ditado, incerto como outros da tradição popular, nem bem o que significa. Penso nos maus filhos: eles não retornam... O que isso quer dizer? Será que abandonam os pais na velhice? Ou perdem suas raízes a ponto de não mais se identificarem com o passado que os formou? Já os bons, esses voltam, mas qual o sentido do retorno? – Quem sabe? Quem saberá?

De certo, apenas o seguinte: só retorna quem partiu, quem ousou ou teve de se separar, quem enfrentou o medo de pôr os pés em terra incógnita, rompendo vínculos antigos, sem saber o que lhe adviria; só retorna quem não deixou a distância corroer os laços pretéritos, quem cativou a boa memória, mantendo acesa a chama do afeto e da falta.

Com o regresso, entretanto, como ficam as novas amizades? As descobertas? Os colegas interessantes? A paisagem até então desconhecida? Tudo que ficou por explorar? E o novo amor? Como fica o futuro que se previa ter, desfeito pela volta à origem? E a coragem para mais uma vez recomeçar, donde há de vir?

É inegável: permanência e volta são, ambas, desafiadoras e dolorosas. Para quem manteve o peito aberto, para quem realmente calcou os pés na nova terra, o retorno implica deixar uma nova casa, a custo constituída, a fim de remontar à velha morada, que não se sabe mais como está. Ficar ou regressar são alternativas imponderáveis e por isso não há, como pressupunha o ditado, filhos maus ou bons. Quando o retorno é uma nova partida, enfrenta-se uma escolha radical: difícil como conviver com a saudade, difícil como dizer adeus.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Reino dos Reis

Ando cansado de ser súdito. Há demasiados reis e rainhas no Brasil. É estafante e infantil: rei Pelé, rainha Xuxa, rei Roberto Carlos, Reiginaldo Rossi, fora os reis Momo, as rainhas da bateria, as rainhas do carnaval, o rei do gado, a rainha do acarajé e os Orleans e Bragança!
(Pergunto-me se entre os indígenas de Pindorama havia soberanos dessa natureza. Desconfio que não. É muita tolice: deve ser herança européia ou invenção jornalística.)
O que há conosco para aceitar tantos reinados? Que estranho ímpeto é esse de acolher soberanos como pais ou deuses? É o anseio sebastianista pelo salvador da pátria? Ou só necessidade de mais ídolos? Por que tanto desejo de ser vassalo? Por que a resistência em assumir a própria história? Por que a recusa da independência? Por que a eterna infância? Ou será o sonho de ter o rei na barriga ou ser a rainha da cocada preta?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Do Barulho

Aprecio o silêncio. Considero-o, por uma série de razões, essencial para viver bem. Não sou o único, mas componho um grupo cada vez menor, infelizmente.

Olhemos nossas cidades: (i) as lojas têm estéreos voltados para a rua, ora anunciando pseudo-promoções, ora estrondando músicas populares, (ii) carros passam tendo o som no máximo, alguns com enormes parafernálias a roubar o espaço do porta-malas, (iii) ônibus e caminhões, de velhos ou mal-feitos, parecem máquinas de ensurdecer, (iv) as pessoas falam cada vez mais alto, sobretudo ao telefone; (v) bares disputam a freguesia aos decibéis; (vi) igrejas evangélicas fazem o mesmo com fiéis; (vii) até alguns postes, outrora mudos, possuem caixas de som a alardear estações desconhecidas. E isso para não falar em vizinhos sem educação, torcida de futebol, foguetes e buzinas fora de hora, sonorizadores de portão, alarmes anti-furto, ano eleitoral, camelôs...

Conta-me uma amiga que, durante um tempo, andou intrigada com um grilo dentro do seu quarto sempre que ia dormir. Coisa estranha, dizia ela, estranha mesmo, pois, por mais que o procurasse, jamais achava o bicho, apenas o ouvia. Daí foi aconselhada a procurar um médico e descobriu que não havia grilo algum. O cricrido era um dano causado pela poluição sonora a que estava submetida, obrigada que era a trabalhar no hiper-centro urbano.

Olhemos para nós: com ou sem cricrido, todos perdemos o sossego. Freqüentemente, nem mesmo em casa temos paz, já que a tecnologia permite às pessoas assistir TV ou escutar música numa altura lastimável. E o terrível é que quanto pior a escolha, mais alto o volume!

Urge reinventarmos a lei do silêncio. Avanço, portanto, uma primeira proposta: acima do tolerável, nada mais que gargalhadas, gritos de desespero, bagunça infantil, som de ambulância, ronco de avião e, para os carnívoros, marteladas no bife. Nos demais casos, multa; repetindo-se o erro, prisão; havendo reincidência, exílio. Custe o que custar, há que se dar fim à zueira! É questão de saúde, como minha amiga comprova.

Olhemos para o futuro: a continuar como está, ou ficaremos todos moucos ou ficaremos todos loucos! E o silêncio, mais do que nunca, será do barulho.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Diabrura

pro Joca

É um alívio descobrir que o diabo existe. Sabendo que está aí, podemos nos absolver dos males que comentemos e nos eximir daqueles que não chegamos a concretizar. O raciocínio é simples: não temos culpa por nossas faltas, pois a responsabilidade é sempre dele, demônio, que nos insufla, sem que percebamos, toda sorte de maus instintos nos quais radica o impulso para o pecado. Não somos nós que temos ira, inveja, afã destrutivo e tudo o mais que nomear não convém. Temos boa índole, sendo imagem e semelhança de Deus, mas o ser de mil faces adentra e contamina nossas vidas, ele que também é ubíquo.

Se cometemos um crime, vemos que nossas mãos o perpetram, movidas, porém, por força externa a nós. Quando nosso desejo é perverso, podemos estar certos: é o diabo que divide a nossa vontade. O demo é terrível e cheio de ardis: esperto e oportunista como salteadores, solícito e promitente como candidatos políticos. Imaginá-lo um monstro é dar-lhe azo para atuar. O demônio é a fonte de água límpida quando precisamos seguir em frente, é a realização de um sonho que não nos pertence. Sorrateiro como só ele, a um só tempo testa-nos e atenta-nos a fim de vencer, incinerando a criança que habita em nós e à qual pertence o reino dos céus.

Ninguém, contudo, deseja o pecado. Pecamos a contragosto. Eis aí nosso grande refrigério, o motivo pelo qual, quando caímos, havemos de ser desculpados. Se erramos sem dolo, por que devemos ter sobre as costas o peso das faltas? Somos falíveis, mas bons. O mal não passa de um acidente, não existe como atributo humano. O que há é o diabo, que nos espreita. E tudo o mais é ilusão.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Visar a Pobreza

Uma pergunta incômoda: quem realmente conhece a pobreza? Não me refiro aos pobres e miseráveis, evidentemente, que hoje compõem quase 50% da população mundial. Esses a conhecem – e bem. Refiro-me aos outros 50%, àqueles cuja sobrevivência não está sob direta ameaça. Quantos desses – quantos de nós – conhecem a pobreza? É desnecessário responder, pois a resposta é óbvia. Há que se perguntar o porquê. Por que apenas poucos? A falta de interesse e a desconsideração com o bem alheio não explicam tudo.

Poucos conhecem-na porque é ocultada. A pobreza sopeia a escória. Não é notícia nem atração turística: vale mais encoberta que exposta. E é por isso que se torna uma questão, tanto moral quanto política, ainda mais relevante. Nossa época é extremamente cruel. Gastamos com guerras e resgate de bancos muito mais do que seria necessário para assegurar alimentação, água tratada, saneamento básico, moradia, educação básica e atendimento médico a todos os habitantes do planeta, como apontam os dados da ONU. Mas o que importa a vida dos pobres e miseráveis, dessas dezenas de milhões? Há melhor ocultação que a morte precoce?

Sob essa perspectiva, o mero fato de manterem-se vivos tornou-se um ato político de primeira grandeza. Espécie de manifestação silenciosa, como negar que o simples existir será sempre uma denúncia da injustiça que não se pode dissimular? Imaginar que vivam e que apareçam, embora raramente, é imaginar que a estrutura que os exclui permanecerá exposta a quem tiver olhos para ver. Quem de nós, porém, se dispõe a conhecê-la?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Citação III: Almuhassin Attanúkhi

pro Geórgias de Betinera
VIZIR AUSTERO E JUIZ LIGEIRO
O vizir Ali bin ‘Iça era austero e rigoroso, e gostava de demonstrar sua superioridade nesses quesitos sobre todos os demais. Certo dia, foi entrevistar-se com ele o juiz Abu Umar, que trajava uma túnica opulenta. Pretendendo constrangê-lo, o vizir perguntou:
– Ó Abu Umar! Quanto pagou por essa túnica?
O juiz respondeu:
– Duzentas moedas de ouro.
O vizir disse:
– Mas eu comprei esta capa e esta túnica que está por baixo dela por vinte moedas de ouro.
O juiz Abu Umar respondeu rapidamente, como se já tivesse planejado a resposta:
– O vizir – que Deus o fortaleça! – embeleza as roupas que usa, não necessitando de excessos no vestir. Todos sabem que ele tem condições de desprezar essas coisas. Nós, porém, nos embelezamos com as roupas e necessitamos de excesso, uma vez que nos envolvemos com o populacho e com pessoas a quem devemos muito respeito, e diante das quais devemos manter a compostura.
Foi como se ele tivesse enfiado pedras na boca do vizir, que o deixou em paz.

[Excerto de Almuhassin Attanúkhi (séc. X) Palestras agradáveis e notícias memoráveis Trad. Mamede Mustafá Jarouche]

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Atentada Tradução V: La Rochefoucauld

Réflexions Diverses – VII. Des Exemples
Quelque différence qu’il y ait entre les bons et les mauvais exemples, on trouvera que les uns et les autres ont presque également produit de méchants effets. Je ne sais même si les crimes de Tibère et de Néron ne nous éloignent pas plus du vice que les exemples estimables des plus grands hommes ne nous approchent de la vertu. Combien la valeur d’Alexandre a-t-elle fait de fanfarons ! Combien la gloire de César a-t-elle autorisé d’entreprises contre la patrie ! Combien Rome et Sparte ont-elles loué de vertus farouches ! Combien Diogène a-t-il fait de philosophes importuns, Cicéron de babillards, Pomponius Atticus de gens neutres et paresseux, Marius et Sylla de vindicatifs, Lucullus de voluptueux, Alcibiade et Antoine de débauchés, Caton d’opiniâtres ! Tous ces grands originaux ont produit un nombre infini de mauvaises copies. Les vertus sont frontières des vices ; les exemples sont des guides qui nos égarent souvent, et nous sommes si remplis de fausseté que nous ne nous en servons pas moins pour nous éloigner du chemin de la vertu que pour le suivre.
Reflexões Diversas – VII. Dos Exemplos

Por mais diferenças que haja entre os bons e maus exemplos, ocorre que uns e outros produzem, quase igualmente, efeitos ruins. Eu não sei mesmo se os crimes de Tibério e Nero não nos afastam mais do vício que os exemplos estimáveis dos maiores homens nos aproximam da virtude. O valor de Alexandre, quantos fanfarrões fez! A glória de César, quantas investidas contra a pátria não autorizou! Roma e Esparta, quantas virtudes selvagens louvaram! Diógenes, quantos filósofos inoportunos fez; Cícero, tagarelas; Pompônio Ático, pessoas neutras e preguiçosas; Mário e Sila, vingativas; Luculo, voluptuosas; Alcibíades e Antônio, devassas; Catão, opiniáticas! Todos esses grandes originais produziram um número infinito de cópias más. As virtudes são fronteiriças aos vícios; os exemplos são guias que nos desviam freqüentemente e nós estamos tão cheios de falsidade que não nos servimos menos deles para nos afastar do caminho da virtude que para segui-lo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Do Desejo por Homero

Hoje, tanto quanto ontem, muitas pessoas desejam ser famosas. É uma aspiração humana e perene, indestrutível como a de vencer a morte. A fama, contudo, tradicionalmente entendida como coroação de um grande feito, tem assumido novos contornos, os quais não se devem aos cantos de novos poetas. O mérito – artístico, científico, esportivo, político, moral, quem sabe até o mérito militar – anda em baixa, anda muito em baixa. Pouco valem as razões para a fama, que se pode ganhar por qualquer motivação, ainda que vil, abjeta, mesquinha. Queremos ser lembrados, queremos ser notados, não importa o porquê.

Hoje, muito mais que ontem, vivemos como se o anonimato fosse desprezível e tentamos a todo o tempo e a qualquer custo angariar a atenção de quem nos cerca. A vida simples e comum, que é a vida da maior parte de nós, foi taxada de ingênua e entediante, de comezinha. Por causa disso, nos aventuramos pelo dia-a-dia com ares de desbravador ou príncipe, quando na verdade apenas fantasiamos a vida ordinária em conformidade com a ilusão com que pretendemos nos enaltecer. Relutamos em ser pessoas comuns.

Vivemos como se fosse preciso ser grande e célebre, como se tivéssemos de redimir o cotidiano, donde o ímpeto para transfigurarmos a nós mesmos em personagens que não somos, inflarmos nossas ações em feitos que jamais faremos. Queremos que nossa história seja memorável, que nossa vida seja uma epopéia, mesmo se não passa de uma presepada.

Vivemos sem saber que extraordinário é ser simples.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Perdoando os Pais

Quanto mais investigo-me, mais me dou conta do quanto trago em mim da criança que fui. Vivo meus dias com a maturidade possível, mas, quando surge o menino, abro os braços e acolho-o. Como compreender-me se recusar escutá-lo? Não anseio pelo amadurecimento completo. Anseio vão, adúltero. Não acredito que envelhecer signifique vencer a infância. Ninguém jamais depurou o passado. Estou com Drummond: “de tudo fica um pouco”.

Pergunto-me se podemos esgotar a infância, se é possível nos tornarmos plenamente adultos. É esse, aliás, o nosso desejo? O que é envelhecer? Qual a finalidade dessa metamorfose a que tempo nos obriga? Além da morte, confronto eterno e próximo, o que a madureza nos impõe?

Desilusões, arrisco-me a responder. Boas e más, grandes e pequenas, incontáveis desilusões. Para servir de exemplo, tomemos apenas uma, talvez a mais pueril, certamente a mais radical: a idealização dos pais. Na infância, imaginamos que são infalíveis, não temos olhos para suas imperfeições, as quais mais cedo ou mais tarde passamos a enxergar, muitas vezes de modo implacável. Reconhecer a finitude de nossa mãe, de nosso pai, eis o desencanto fundamental.

Difícil é admitir que reconhecer-lhes a humanidade não faz com que esqueçamos tudo que supostamente nos teria faltado, não alivia a memória dolorosa das falhas cometidas. O desencanto, lamentavelmente, é incapaz de apagar as cicatrizes. No entanto, ao pensá-los como realmente são, um homem e uma mulher, atingimos o patamar necessário para reavaliar fatos e fantasias. Quem sabe assim, amadurecidos, nos faremos capazes de perdoá-los, quem sabe assim nos permitiremos eximi-los da culpa que insistimos em lhes atribuir, como se ainda fôssemos crianças.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dos Mapas e Esculturas

pro Artur, Papito
Já se perdeu no passado o momento em que comecei a registrar meus dias por escrito. Lembro que, no princípio, realizava descrições factuais, como se tentasse arquivar as tarefas que fiz, as pessoas que vi, os lugares em que pisei. À medida que o tempo passou, os fatos, se é que posso chamá-los assim, gradativamente perderam importância. Tornou-se mais valoroso pôr sobre o papel sentimentos, impressões, pensamentos. As vivências interiores, sem que eu percebesse, assumiram o primeiro plano na compreensão que tento ter de mim.

Em todos esses anos, e lá se vão muitos, com raras exceções voltei aos antigos cadernos. Quando o fiz, buscava um poema esquecido ou outra ninharia qualquer, pois a curiosidade nunca foi forte o suficiente para me fazer repassar as centenas de páginas manuscritas guardadas no alto do armário. Sei que elas jamais me servirão para exaurir os detalhes das trilhas psíquicas que percorri, mas suspeito que podem me fornecer boas pistas daquilo que outrora senti e pensei, daquilo que fui e talvez não seja mais. Creio deter uma cartografia íntima.

O verdadeiro sentido da introspecção, porém, não é acumular conteúdos para biografia, assegurar dados para uma futura expedição. Ao inventariar as experiências, quero antes entender-me e fazer-me o melhor que posso. O esforço de auto-compreensão nada mais é que uma contínua composição do próprio eu. Escrevendo, busco talhar e elaborar a matéria de que sou constituído com o ímpeto de quem esculpe a si mesmo, obra sempre inacabada. A palavra é o cinzel com que trabalho a página em branco, mais dura que a rocha.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Atentada Tradução IV: Blaise Pascal

pra Raquel Rios
Pensées
(frag. 47 Lafuma)
« Nous ne nous tenons jamais au temps présent. Nous anticipons l’avenir comme trop lent à venir, comme pour hâter son cours, ou nous rappelons le passé pour l’arrêter comme trop prompt, si imprudents que nous errons dans les temps qui ne sont point nôtres et ne pensons point au seul qui nous appartient, et si vains que nous songeons à ceux qui ne sont rien, et échappons sans réflexion le seul qui subsiste. C’est que le présent d’ordinaire nous blesse. Nous le cachons à notre vue parce qu’il nous afflige, et s’il nous est agréable nous regrettons de le voir échapper. Nous tâchons de le soutenir par l’avenir et pensons à disposer les choses qui ne sont pas en notre puissance pour un temps où nous n’avons aucune assurance d’arriver. Que chacun examine ses pensées, il les trouvera toutes occupées au passé ou à l’avenir. Nous ne pensons presque point au présent, et si nous y pensons, ce n’est que pour en prendre la lumière pour disposer de l’avenir. Le présent n’est jamais notre fin. Le passé et le présent sont nos moyens, le seul avenir est notre fin. Ainsi nous ne vivons jamais, mais nous espérons de vivre, et nous disposant toujours à être heureux, il est inévitable que nous ne le soyons jamais. »
Pensamentos
(frag. 47 Lafuma)
Nós jamais nos atemos ao tempo presente. Antecipamos o futuro como se fosse demasiado lento para chegar, como para apressar seu curso, ou recordamos o passado para fixá-lo como se fosse demasiado veloz; muito imprudentes, erramos nos tempos que não são nossos e não pensamos no único que nos pertence; muito vãos, aspiramos àqueles que não são nada e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente normalmente nos fere. Nós o ocultamos de nossa vista porque nos aflige e, se ele nos é agradável, lamentamos vê-lo escapar. Buscamos mantê-lo no futuro e pensamos em preparar as coisas que não estão em nosso poder para um tempo ao qual não temos nenhuma garantia de chegar. Que cada um examine seus pensamentos: ele os encontrará todos ocupados com o passado ou o futuro. Quase não pensamos no presente e, se nele pensamos, é apenas para lançar-lhe luz para preparar o futuro. O presente jamais é o nosso fim. O passado e o presente são nossos meios, só o futuro é nosso fim. Assim nós jamais vivemos, mas esperamos viver e, preparando-nos para ser felizes, é inevitável que jamais o sejamos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Memento Mori

Já não lembro mais quando aconteceu a festa de aniversário: gente empolgada e bêbeda, salgadinhos sem novidade, músicas da moda – uma comemoração como tantas outras, não fosse por ter transformado num questionamento existencial uma dúvida comum: devo ou não devo comer do bolo?
É curioso como nosso pensamento vagueia. Às vezes, a partir de uma questão banal, somos transportados para terras longínquas. Pensando sobre o bolo e todo aquele açúcar, ocorreu-me o que um tio sarcástico dissera-me há anos a propósito de minha recusa em comer bobagens: “Você vai morrer com saúde!” ou, o que dá na mesma, “Você será o defunto mais saudável do cemitério, parabéns!” É um comentário espirituoso, reconheço, mas menos pela crítica à dieta (na verdade, nada além da exclusão de excessos) do que pelo apelo à morte. Sabemos que todos morreremos, mas será que, tendo a morte como perspectiva, estamos autorizados a fazer qualquer coisa?
São Paulo ou simplesmente Paulo, a depender da fé, possui uma frase extraordinária: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.” (1 Cor 15:32) Destaca-se aí o pressuposto de que, se a vida não possui um sentido maior, dado neste caso pela crença religiosa, resta-nos aproveitar ao máximo os dias que temos sobre a Terra realizando todo e qualquer desejo. Carpe diem! Séculos depois, a partir da leitura de Dostoievski, Sartre haveria de formular uma interrogação que toca no mesmo problema: “Se Deus não existe, tudo é permitido?”
É impressionante como a morte regula nossas ações, quer pelo medo do que virá depois, quer pelo fato de representar o fim absoluto, móbil esse muito mais persuasivo, já que ninguém sabe se de fato existe o post mortem. Mas é impressionante também como normalmente evitamos pensar na morte, valendo-nos dela apenas em momentos oportunos, em especial quando nos falta coragem para tomar uma decisão. Ponderamos: “A vida é curta e está sempre por um triz. E se eu morrer amanhã?” Assim angariamos forças para mudar de emprego, pedir perdão ou dizer ‘te amo’. Quem sabe ainda para cometer loucuras ou pequenos pecados. É inegável: a morte nos incita ao ato. Será, porém, que justifica tudo? Até comer uma fatia de bolo?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Citação I: Orides Fontela

MEIO-DIA

Ao meio-dia a vida
é impossível.

A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.

A luz é demais para os homens.
(Porém como o saberias
quando vieste à luz
de ti mesmo?)

Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.

sábado, 12 de setembro de 2009

Quase diário

Sabe, amigo, hoje escrevo para me desculpar. É que ando muito partido, sentindo-me disperso na vida. Para que? Por que? Onde? Estou amuado, como quem perdeu a graça, ficou sem assunto, meteu-se num beco sem se dar conta.

Sabe, amigo, um repente e tudo esfacela-se? A saudade retumbante no peito, a alma sem ânimo, o enfado infinito? E uma angústia sem estridência? Só a ânsia pelo retorno – ao nada? a Minas? ao mito?

Sabe, amigo, o desejo de olhar para trás e virar estátua de sal? O colo que não existe? Acontece, não é verdade? A vontade de matar o vizinho, o ruído que não cessa? O inimigo dentro de nós?

Sabe, amigo, digo a mim mesmo que preciso ter paciência, que vai passar. Digo como dizia à minha avó, sete anos de luta contra o câncer.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Maturidade

Ao despertar, vejo o sol despontar
para mais um dia de terrível calor.
É verão e a praia está distante,
embora não tanto quanto a juventude.
– Tornei-me homem!
Os amores de mar passaram,
passaram os veraneios e as horas vãs,
passaram os anos de aventura e risos.
– Ao menos trabalho sem grandes pesares.

Levanto-me para restaurar o presente.
A mesa está posta como sempre esteve.
O pão, o café que mal tomo,
a bolacha doce de chocolate ruim.
Em poucos instantes, terei de sair
e fingirei que tudo está bem,
adulto maduro que sou.

Mais tarde, quando ao meio dia o sol estiver a pino,
farei meu almoço de arroz com feijão
e ovos estalados à moda escrava.
Sentarei à mesa, porei farinha no meu prato,
e mastigarei um pouco do passado,
degustando o amargo desta prisão,
nostalgia.

De noite, chegado em casa para o sono,
acabarei enfim por me despir
antes de deitar-me em silêncio na cama de velhos sonhos.
É preciso dormir.
Estou nu frente à memória
e não posso amá-la.