O Sertão perdeu seus cantadores. A vida transformou-se. As rodovias levam facilmente as charangas dum para outro povoado. As vitrolas clangoram os foxes de Donalson e de Youmans. As meninas, que conheci espiando os “home” por detrás das frixas das portas, reclusas nas camarinhas, dançando a meia légua de distância do par, hoje usam o cabelinho cortado, a boca em bico-de-lacre, o mesmo palavreado tango-girls do Aero Blub e Natal Club. Numa viagem, em janeiro de 1928, eu mostrava a Mário de Andrade, nos arroados do Baixo-Açu, crianças com a bochechinha pintada de papel encarnado, fingindo rouge. Encontrei jornais do Rio e São Paulo em toda parte. O Sertão descaracteriza-se. É natural que o cantador vá morrendo também.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Atentada Tradução X: Cioran
Précis de la Décomposition
Annulation par la Délivrance
Une doctrine du salut n’a de sens que si nous partons de l’équation existence-souffrance. Ce n’est ni une constatation subite, ni une série de raisonnements qui nous conduisent à cette équation, mais l’élaboration inconsciente de tous nos instants, la contribution de toutes nos expériences, infimes ou capitales. Quand nous portons des germes de déceptions et comme une soif de les voir éclore, le désir que le monde infirme à chaque pas nos espoirs multiplie les vérifications voluptueuses du mal. Les arguments viennent ensuite ; la doctrine se construit : il ne reste encore que le danger de la « sagesse ». Mais, si l’on ne veut pas s’affranchir de la souffrance ni vaincre les contradictions et les conflits, si on préfère les nuances de l’inachevé et les dialectiques affectives à l’uni d’une impasse sublime ? Le salut finit tout ; et il nous finit. Qui, une fois sauvé, ose se dire encore vivant ? On ne vit réellement que par le refus de se délivrer de la souffrance et comme par une tentation religieuse de l’irréligiosité. Le salut ne hante que les assassins et les saints, ceux qui ont tué ou dépassé la créature ; les autres se vautrent – ivres morts – dans l’imperfection…Annulation par la Délivrance
Breviário da Decomposição
Anulação pela Libertação
Uma doutrina da salvação só tem sentido se partimos da equação existência-sofrimento. Não é nem uma constatação súbita, nem uma série de raciocínios que nos conduzem a essa equação, mas a elaboração inconsciente de todos os nossos instantes, a contribuição de todas as nossas experiências, ínfimas ou capitais. Quando possuímos os germens de decepções e como uma sede de vê-los eclodir, o desejo de que o mundo diminua a cada passo nossas esperanças multiplica as verificações voluptuosas do mal. Os argumentos vêm em seguida; a doutrina se constrói: resta ainda apenas o perigo da “sabedoria”. Mas e se não queremos libertar-nos do sofrimento nem vencer as contradições e os conflitos, se preferimos as nuances do inacabado e as dialéticas afetivas à união de um impasse sublime? A salvação acaba com tudo; ela acaba conosco. Quem, uma vez salvo, ousa ainda se dizer vivo? Só se vive realmente pela recusa de se libertar do sofrimento e como que por uma tentação religiosa da irreligiosidade. A salvação não persegue senão os assassinos e os santos, aqueles que mataram ou ultrapassaram a criatura; os outros tombam – mortos ébrios – na imperfeição...Anulação pela Libertação
sábado, 11 de junho de 2011
A velha bate à porta
A velha bate à porta
para abrir-nos a via estreita,
escorreita ela se desforra
do riso, do beijo, da não-maleita.
Sua força, ás franzino,
vem do toque eterno da morte,
dela mesma, anciã menina,
velha-jovem que se renova
na súbita e esperada batida
não do peito, mas à porta
que a alguns alucina
e muito não demora.
A porta em que ela bate
sempre esteve no trinco.
Trancá-la à chave só cabe
à sede seca – chumbinho.
Mas isso nada não é
senão abri-la sozinho,
abri-la por dentro e de chofre
no desespero menino
que não joga o jogo da sorte
que cospe o sublime acepipe:
a vida, os inúteis caminhos.
(Maior iguaria não há,
nem menor não existe,
mas desfrutá-la só faz
quem ao tempo resiste
andando por vias errantes
antes da sabida visita.)
E não há vingança envolvida
em todo o macabro processo.
E nem há processo macabro
na mão a bater à porta
na vida a que se dá cabo.
Quando a velha vai à forra,
não se vinga, se completa
o tempo que já não sobra,
ninguém mais anda, nem erra:
é o segundo em que se acorda
ou o que em paz se dorme,
é o tempo sem vagueza
que não brinca, não faz hora
marca o passo, acaba o ciclo,
acerta a hora das horas.
para abrir-nos a via estreita,
escorreita ela se desforra
do riso, do beijo, da não-maleita.
Sua força, ás franzino,
vem do toque eterno da morte,
dela mesma, anciã menina,
velha-jovem que se renova
na súbita e esperada batida
não do peito, mas à porta
que a alguns alucina
e muito não demora.
A porta em que ela bate
sempre esteve no trinco.
Trancá-la à chave só cabe
à sede seca – chumbinho.
Mas isso nada não é
senão abri-la sozinho,
abri-la por dentro e de chofre
no desespero menino
que não joga o jogo da sorte
que cospe o sublime acepipe:
a vida, os inúteis caminhos.
(Maior iguaria não há,
nem menor não existe,
mas desfrutá-la só faz
quem ao tempo resiste
andando por vias errantes
antes da sabida visita.)
E não há vingança envolvida
em todo o macabro processo.
E nem há processo macabro
na mão a bater à porta
na vida a que se dá cabo.
Quando a velha vai à forra,
não se vinga, se completa
o tempo que já não sobra,
ninguém mais anda, nem erra:
é o segundo em que se acorda
ou o que em paz se dorme,
é o tempo sem vagueza
que não brinca, não faz hora
marca o passo, acaba o ciclo,
acerta a hora das horas.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Contra a revolução
Para o Carlão,
na medida do possível
na medida do possível
Talvez não haja algo mais démodé do que a idéia de revolução. Imaginar que ocorra alguma, como a Russa ou a Cubana, é atualmente algo muito difícil, embora continuemos a viver num mundo injusto. A razão parece-me bem simples: a maior parte de nós está interessada apenas em garantir “o seu” e, no máximo, “o nosso”, quando este nos reserva um bom quinhão.
Confesso, contudo, que a inviabilidade de uma revolução, capitaneada por um líder ou pequeno grupo, sequer me comove. Não acredito nela e, na verdade, mesmo que ocorra, penso que está fadada ao insucesso. Temos de mudar a nós mesmos antes de mudarmos as estruturas, porque, se for para permanecermos como somos, com os mesmos insaciáveis desejos, os mesmos impulsos tolos, as opiniões de sempre, de que adianta estabelecer o novo se continuaremos velhos? Aliás, a sociabilidade com que sonhamos não poderá jamais se manter a menos que nós – e não um poder, um estado, um governo – sejamos seu esteio. Enquanto acalentarmos os valores e práticas que conformam o modus vivendi atual, nenhuma esperança é possível.
Por causa disso, e me perdoem os utópicos de 1917 e 1959, creio que devemos dar cabo das abstrações e lançarmos nossos olhos para o concreto. Que tal, em lugar de falarmos em “pobres”, falarmos nos mendigos que saltamos nas ruas de nossas cidades, nos famintos que batem à nossa porta? Que tal, ao invés de acusarmos a “elite”, acusarmos a nós mesmos, que faríamos o mesmo se invertêssemos as posições? Que tal, pois, sermos como as mulheres, que não parem a “humanidade”, mas dão luz a “marias e josés”?
A revolução é, antes de tudo, uma auto-transformação e o melhor modo de iniciá-la é começar a sermos o que ainda não somos. Muito, muito antes da guerra ou da manifestação, do slogan ou do grito, penso que é o caso de nos voltarmos para o cotidiano e suas miudezas, materializando silenciosamente os ideais que nunca pisaram o chão e de que nunca, a rigor, fomos dignos. Só há uma política de fato revolucionária: a política dos pequenos gestos.
Confesso, contudo, que a inviabilidade de uma revolução, capitaneada por um líder ou pequeno grupo, sequer me comove. Não acredito nela e, na verdade, mesmo que ocorra, penso que está fadada ao insucesso. Temos de mudar a nós mesmos antes de mudarmos as estruturas, porque, se for para permanecermos como somos, com os mesmos insaciáveis desejos, os mesmos impulsos tolos, as opiniões de sempre, de que adianta estabelecer o novo se continuaremos velhos? Aliás, a sociabilidade com que sonhamos não poderá jamais se manter a menos que nós – e não um poder, um estado, um governo – sejamos seu esteio. Enquanto acalentarmos os valores e práticas que conformam o modus vivendi atual, nenhuma esperança é possível.
Por causa disso, e me perdoem os utópicos de 1917 e 1959, creio que devemos dar cabo das abstrações e lançarmos nossos olhos para o concreto. Que tal, em lugar de falarmos em “pobres”, falarmos nos mendigos que saltamos nas ruas de nossas cidades, nos famintos que batem à nossa porta? Que tal, ao invés de acusarmos a “elite”, acusarmos a nós mesmos, que faríamos o mesmo se invertêssemos as posições? Que tal, pois, sermos como as mulheres, que não parem a “humanidade”, mas dão luz a “marias e josés”?
A revolução é, antes de tudo, uma auto-transformação e o melhor modo de iniciá-la é começar a sermos o que ainda não somos. Muito, muito antes da guerra ou da manifestação, do slogan ou do grito, penso que é o caso de nos voltarmos para o cotidiano e suas miudezas, materializando silenciosamente os ideais que nunca pisaram o chão e de que nunca, a rigor, fomos dignos. Só há uma política de fato revolucionária: a política dos pequenos gestos.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Do doce vinagre
A recente beatificação do Papa João Paulo II fez com que eu me atentasse para algo que nunca havia notado. Não, não me refiro à incompreensível distinção entre santo e beato, mas a algo mais prosaico: às sessões de milagres de algumas igrejas evangélicas (milagre com dia e hora marcados?) e a profusão de milagres nessas mesmas sessões (milagres contados às dezenas?). ‘Milagre’ se tornou um termo corriqueiro, repetido à exaustão. De tão falado, aliás, parece até natural, fenômeno cotidiano. Será que não é o caso de reabilitarmos o advogado do diabo?
Seja como for, acredito que, para além do campo religioso, estamos eivados de algo que poderíamos chamar de “lógica do milagre” e que somos muito simpáticos a ela. É que, várias vezes, aspiramos a soluções fáceis e súbitas de nossos problemas, como se fosse possível nos livrarmos das pedras de nossos sapatos por um passe de mágica. Acho que essa é uma boa perspectiva para pensar a loteria, as cirurgias plásticas e muitas outras coisas: de repente, como que por um milagre profano, mudamos de vida, de corpo... E sem nenhum esforço, sem ter de trabalhar, sem ter de fazer dieta, sem ter de comer o pão que o diabo amassou!
O lamentável dessa lógica é que nos colocamos numa posição completamente passiva. Resignados ou desesperados, ficamos postados à espera de um redentor (um mestre, um deus, um curandeiro, a sorte) e sonhamos com a resolução repentina de nossos males, antevendo o gosto do vinho sem notar que a água avinagre-se.
Seja como for, acredito que, para além do campo religioso, estamos eivados de algo que poderíamos chamar de “lógica do milagre” e que somos muito simpáticos a ela. É que, várias vezes, aspiramos a soluções fáceis e súbitas de nossos problemas, como se fosse possível nos livrarmos das pedras de nossos sapatos por um passe de mágica. Acho que essa é uma boa perspectiva para pensar a loteria, as cirurgias plásticas e muitas outras coisas: de repente, como que por um milagre profano, mudamos de vida, de corpo... E sem nenhum esforço, sem ter de trabalhar, sem ter de fazer dieta, sem ter de comer o pão que o diabo amassou!
O lamentável dessa lógica é que nos colocamos numa posição completamente passiva. Resignados ou desesperados, ficamos postados à espera de um redentor (um mestre, um deus, um curandeiro, a sorte) e sonhamos com a resolução repentina de nossos males, antevendo o gosto do vinho sem notar que a água avinagre-se.
domingo, 8 de maio de 2011
Última Liberdade
É difícil defender, / só com palavras, a vida
ainda mais quando ela é / esta que vê, severina.
JCMN – Morte e Vida Severina
ainda mais quando ela é / esta que vê, severina.
JCMN – Morte e Vida Severina
Seria falso dizer que não imaginava que pudesse acontecer. No entanto, isso não significa que não tenha ficado surpreso com a notícia do suicídio de uma colega com quem convivi alguns anos durante minha graduação. Fomos bolsistas de um mesmo programa de pesquisa e, sabendo agora que ela se enforcou, constato que aquilo que sempre se lhe apresentara como uma alternativa acabou tornando-se objeto de escolha.
Confesso que fiquei abalado a tal ponto que optei por não ir ao velório e enterro. Mais do que nunca, talvez por ter acometido uma pessoa relativamente próxima, talvez por ter sido realizado de modo brutal e premeditado, o suicídio calou fundo em mim. Sabemos agora que um enorme sofrimento a remoía interiormente, sofrimento que encontrou expressão na morte voluntária. Agora, porém, é tarde demais.
Não há como explicar o pensamento suicida quando ele se constrói no mais absoluto silêncio e em contraste com condições objetivas que parecem alicerçar uma vida em tranqüilo progresso: formatura, emprego, casa própria, carro novo, casamento. No entanto, pergunto-me se há meios de evitar o suicídio, se há algum argumento capaz de demover quem se encontra na fronteira final.
Avento, inicialmente, o sofrimento que se causará a outros, mas isso me parece insuficiente: o cálculo é óbvio quando a dor que carregamos no peito se torna insuportável. Cogito, em segundo lugar, o argumento do futuro: se sofremos no presente, se temos sofrido há muito, nada impede que nossa vida se torne melhor e que, a partir de um futuro mais ou menos breve, tenhamos dias agradáveis e felizes. Contudo, quando a dor é lancinante, é possível nos apoiarmos num olhar prospectivo? Por fim, interrogo-me sobre o desejo de perfeição tão caro a muitos de nós: frustração, fracasso, impotência, limitação, perda – até que ponto a dor, em suas mais variadas formas, não é potencializada por uma expectativa irreal acerca de nós e do mundo?
É certamente uma grande ironia o fato de que o ato de radical afirmação da liberdade corresponda à máxima negação de si mesmo, mas, frente a uma paixão incandescente, a razão tem pouco a fazer. Se um comentário me é permitido, acho que, se não atuamos dia a dia sobre nossas mazelas e domamos os monstros que nos assombram; se não aprendemos a rir das imperfeições e desfrutar de nossas migalhas; se, em suma, não cuidamos cotidianamente da tênue chama que alumia nossas vidas, corremos o risco de que ela se apague e que nada mais nos reste senão o mergulho na noite eterna.
Confesso que fiquei abalado a tal ponto que optei por não ir ao velório e enterro. Mais do que nunca, talvez por ter acometido uma pessoa relativamente próxima, talvez por ter sido realizado de modo brutal e premeditado, o suicídio calou fundo em mim. Sabemos agora que um enorme sofrimento a remoía interiormente, sofrimento que encontrou expressão na morte voluntária. Agora, porém, é tarde demais.
Não há como explicar o pensamento suicida quando ele se constrói no mais absoluto silêncio e em contraste com condições objetivas que parecem alicerçar uma vida em tranqüilo progresso: formatura, emprego, casa própria, carro novo, casamento. No entanto, pergunto-me se há meios de evitar o suicídio, se há algum argumento capaz de demover quem se encontra na fronteira final.
Avento, inicialmente, o sofrimento que se causará a outros, mas isso me parece insuficiente: o cálculo é óbvio quando a dor que carregamos no peito se torna insuportável. Cogito, em segundo lugar, o argumento do futuro: se sofremos no presente, se temos sofrido há muito, nada impede que nossa vida se torne melhor e que, a partir de um futuro mais ou menos breve, tenhamos dias agradáveis e felizes. Contudo, quando a dor é lancinante, é possível nos apoiarmos num olhar prospectivo? Por fim, interrogo-me sobre o desejo de perfeição tão caro a muitos de nós: frustração, fracasso, impotência, limitação, perda – até que ponto a dor, em suas mais variadas formas, não é potencializada por uma expectativa irreal acerca de nós e do mundo?
É certamente uma grande ironia o fato de que o ato de radical afirmação da liberdade corresponda à máxima negação de si mesmo, mas, frente a uma paixão incandescente, a razão tem pouco a fazer. Se um comentário me é permitido, acho que, se não atuamos dia a dia sobre nossas mazelas e domamos os monstros que nos assombram; se não aprendemos a rir das imperfeições e desfrutar de nossas migalhas; se, em suma, não cuidamos cotidianamente da tênue chama que alumia nossas vidas, corremos o risco de que ela se apague e que nada mais nos reste senão o mergulho na noite eterna.
sábado, 30 de abril de 2011
Ainda o vinho
[Do Lutgarda n.2, de meados de 2000]
Era uma vez um homem que amou desmedidamente uma mulher.Era a mesma vez uma mulher que amou desmedidamente um homem.
Outra era a vez em que conheceram o tempo.
Outra era a mesma vez em que conheceram o medo do tempo.
Outra era ainda a mesma vez em que mediram o amor pelo tempo.
Era-se a vez em que se amaram desmedidamente.
domingo, 24 de abril de 2011
Atentada Tradução IX: Anacreonte
gerōn d’hotan khoreuē
trikhas gerōn men estin
tas de phrenas neazeiUm velho, quando dança,
permanece com cabelo envelhecido,
mas seu espírito rejuvenesce.
trikhas gerōn men estin
tas de phrenas neazeiUm velho, quando dança,
permanece com cabelo envelhecido,
mas seu espírito rejuvenesce.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Duas historietas e um canto de Tagore
para os amigos que perdi
Numa rua próxima à da minha casa, morava uma benzedeira, que muitas vezes visitei na infância, quando minha mãe julgava que eu estava muito encapetado ou me machucando demais. Era uma senhora negra, que, vendo-nos cruzar o quintal, logo abria um sorriso luminoso, puxava uma cadeira de madeira para um canto sombreado e, colocando-me no colo, fazia umas rezas ao mesmo tempo em que batia na minha cabeça folhas de sei-lá-o-quê.Anos depois, já crescido, resolvi revê-la. A casa ainda existia, embora sufocada por prédios enormes feitos ao seu redor. Toquei o interfone e veio uma mulher, talvez nos seus quarenta anos, possivelmente sua filha ou nora. “Aqui ainda mora uma senhora que benze?” “Sim, mas ela não benze mais.” “O que houve? Ela não está bem de saúde?” “Não, virou evangélica.”
* * *
Não fosse um grande acaso, acho que não teria sido convidado para o casamento de um amigo. Certamente ele ainda se lembrava de mim e das várias coisas que fizemos juntos, mas o envolvimento com a yoga, que começara a praticar alguns anos antes, havia a tal ponto crescido que qualquer coisa não pertencente a esse universo estava sendo deixada de lado. No dia do casório, essa impressão se confirmou: afora a família e uns raros velhos amigos, todos os presentes na cerimônia sentavam-se em lótus e portavam um turbante branco.Confesso que fiquei deveras surpreso com isso, porque tinha dificuldade em imaginar que meu amigo e sua esposa, sempre tão abertos ao mundo, à variedade de experiências que a vida oferece, pudessem ter mergulhado no sadhana em detrimento de tudo o mais. Com certo tom de lamento, saí da celebração meditando algumas questões que permanecem comigo, pois não nos encontramos novamente: por que as trilhas espirituais são tão exclusivistas? Até o amor e a amizade precisam ser submetidos ao crivo da crença?
* * *
Rabindranath Tagore – Gitanjali – 8º Canto
“A criança que está coberta com um robe de príncipe e tem colares de jóias ao redor do pescoço perde todo prazer em sua brincadeira; seu traje refreia-a a cada passo.Com medo de que se desfie ou se desgaste com poeira, ela se afasta do mundo e tem medo até de mover-se.
Mãe, não há ganho algum nesta sujeição ao luxo, se ela lhe veda o contato com a saudável poeira da terra, se lhe retira o direito de entrada na grande festa da vida humana comum.”
quarta-feira, 30 de março de 2011
Francotônica II: Dos Mundos
O Pequeno Príncipe não é só um livro de misse. É cartão-postal, ímã de geladeira, estampa de camisa e, agora também, DVD. Foi o que descobri outro dia, sentando-me junto a duas crianças na casa de uma amiga. Eram seus filhos, de três e seis anos, que estavam quietos no quarto de brinquedos, onde se isolavam do convívio dos adultos reunidos para um jantar. O filme a que assistiam, uma adaptação livre de Saint-Exupéry, era feito de animações e parecia bem legal, a julgar pelos olhos vidrados.Mais tarde, soube que os meninos já o haviam assistido várias vezes. É curioso como as crianças não se entediam, mesmo fazendo reiteradamente a mesma coisa. Terminado o filme, a dupla resolveu brincar: um seria o pequeno príncipe; o outro, a raposa; e o colchão em que um casal de visitas dormiria ficou como cenário, enriquecido que foi com bonecos e caixas.É claro que toda a ornamentação era muito precária, mas os objetos eram apenas ensejo para a imaginação, balizas para definir o campo das aventuras a vivenciar. O fundamental os meninos traziam em si: a capacidade de inventar, de se entregar ao jogo e, terminada a brincadeira, de dele sair. Qualquer criança sabe separar muito bem os dois mundos, a despeito do mergulho profundo no da imaginação.Já nós, adultos, estamos sempre a misturar as estações. Durante a maior parte do tempo, assumimos personagens mais ou menos fictícios e, levando-nos demasiadamente a sério, esquecemos que “coerência”, “prioridades”, “reconhecimento” (e outras tantas fantasias capciosas) são nada mais que peças da brincadeira chamada maturidade. Que desatino! Precisamos urgentemente readquirir o espírito da infância e a argúcia para reencontrarmo-nos a nós mesmos, pois talvez ainda nos seja possível rever as coisas sem o manto com que as cobrimos, nos desvencilhar de nossas projeções e voltar ao mundo real, o B-612.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Com choro e com vela
Lembro-me como se fosse hoje do dia em que uma amiga me falou das carpideiras. Nunca ouvira falar na palavra e sequer imaginava que pudesse haver pessoas que fossem pagas para chorar por outras. Enterro, velório, mas também casamento e despedida, qualquer ocasião é ocasião para elas, desde que lágrimas sejam precisas. Interessante que o substantivo só exista no feminino: carpideiras são mulheres, mulheres que choram.
Num primeiro momento, fiquei muito surpreso e achei um absurdo. “Pagar alguém para chorar no seu lugar? Ou para impressionar terceiros?” Cheguei a supor que era invencionice contemporânea, mas a prática é antiga. Hoje, lendo uma biografia de Marco Polo, me dei conta de que existia numa cidade portuária do golfo pérsico no século XIII, quando se deram as andanças do veneziano: viúvas muçulmanas, que tinham de chorar a morte do falecido durante quatro anos consecutivos, todos os dias do ano, podiam, quando cansadas, recorrer a esse auxílio profissional.
Confesso que gostaria de entender a profissão, conversar com uma dessas senhoras, saber das histórias de lágrimas de crocodilo. Que significado dão à sua tarefa? Quem as contrata? Quanto custa a hora de choro? E, além disso, quando surgiu a prática de carpir? Onde? Como? Por que? Convenhamos: as carpideiras são intrigantes e uma alternativa curiosa para quem se cansou de chorar, já que não dá para delegar a tristeza, felizmente.
Num primeiro momento, fiquei muito surpreso e achei um absurdo. “Pagar alguém para chorar no seu lugar? Ou para impressionar terceiros?” Cheguei a supor que era invencionice contemporânea, mas a prática é antiga. Hoje, lendo uma biografia de Marco Polo, me dei conta de que existia numa cidade portuária do golfo pérsico no século XIII, quando se deram as andanças do veneziano: viúvas muçulmanas, que tinham de chorar a morte do falecido durante quatro anos consecutivos, todos os dias do ano, podiam, quando cansadas, recorrer a esse auxílio profissional.
Confesso que gostaria de entender a profissão, conversar com uma dessas senhoras, saber das histórias de lágrimas de crocodilo. Que significado dão à sua tarefa? Quem as contrata? Quanto custa a hora de choro? E, além disso, quando surgiu a prática de carpir? Onde? Como? Por que? Convenhamos: as carpideiras são intrigantes e uma alternativa curiosa para quem se cansou de chorar, já que não dá para delegar a tristeza, felizmente.
domingo, 13 de março de 2011
Francotônica I: E somos todos tibetanos
Nas andanças da vida, por um golpe de sorte acabei fazendo duas novas amizades. Estava numa conferência, sentado ao fundo de uma velha capela do século XVII, quando um chinês e uma senhora francesa sentaram-se ao meu lado. Por terem chegado um pouco atrasados, acabaram por me consultar acerca do que se passava e essa pequena consulta deu ensejo, na recepção que se seguiu à palestra, a uma conversa calorosa e gentil. Como resultado, fui convidado para um jantar na casa da Madame Villard algumas semanas depois, para o qual Qinghua e eu fomos juntos, já que tomaríamos o mesmo metrô.
A noite foi muito agradável e a conversa, como sempre nos jantares franceses, foi tão longa e variada como a refeição. Um casal de vizinhos da Mme Villard também estava presente e levou consigo seus dois filhos, um ainda adolescente. Marcou-me o quanto todos foram simpáticos e, mais do isso, a gratuidade da gentileza. Que bom que eu, num primeiro momento hesitante, finalmente aceitei o convite.
Daquela noite, porém, destaco um registro especial. É que em determinado momento a conversa passou a tratar da China, migrou para Macau e depois chegou ao Tibet. Qinghua nos contou, da perspectiva que lhe é própria, que os tibetanos aceitam a presença chinesa, pois é ela que assegura o desenvolvimento e “as pessoas querem ter coisas, querem o progresso”. A seus olhos, tudo se passa como se a resistência do Dalai Lama fosse uma exceção, já que o povo habituou-se ao domínio chinês (truculento que seja, acrescento eu) e está mais interessado no avanço material do que na liberdade.
Não emiti comentário algum quando estávamos à mesa, mas confesso que fiquei um tanto triste. Não me refiro à opressão política e ao dirigismo estatal, que me interessam menos do que a uniformização do sentido que damos às nossas vidas: também os tibetanos desejam o progresso, o conforto material... Considero que, mais que a tirania, mais que a violência ou a imposição do silêncio, o pior massacre que vemos na contemporaneidade (e que assola todos os povos) é o massacre do desejo, tolhido pela ilusão do consumo e planificado basicamente nos mesmos objetos. Acho impossível que sejamos felizes centrando-nos apenas nisso e, dada a perda de nossas identidades e diferenças, lamento que caminhemos para um nivelamento amorfo e global, lamento que caminhemos para nos tornar todos tibetanos, isto é, franceses, isto é, turcos, isto é, bolivianos, isto é, senegaleses, isto é, sauditas, isto é, filipinos, isto é, estadunidenses, isto é, zés-ninguéns.
A noite foi muito agradável e a conversa, como sempre nos jantares franceses, foi tão longa e variada como a refeição. Um casal de vizinhos da Mme Villard também estava presente e levou consigo seus dois filhos, um ainda adolescente. Marcou-me o quanto todos foram simpáticos e, mais do isso, a gratuidade da gentileza. Que bom que eu, num primeiro momento hesitante, finalmente aceitei o convite.
Daquela noite, porém, destaco um registro especial. É que em determinado momento a conversa passou a tratar da China, migrou para Macau e depois chegou ao Tibet. Qinghua nos contou, da perspectiva que lhe é própria, que os tibetanos aceitam a presença chinesa, pois é ela que assegura o desenvolvimento e “as pessoas querem ter coisas, querem o progresso”. A seus olhos, tudo se passa como se a resistência do Dalai Lama fosse uma exceção, já que o povo habituou-se ao domínio chinês (truculento que seja, acrescento eu) e está mais interessado no avanço material do que na liberdade.
Não emiti comentário algum quando estávamos à mesa, mas confesso que fiquei um tanto triste. Não me refiro à opressão política e ao dirigismo estatal, que me interessam menos do que a uniformização do sentido que damos às nossas vidas: também os tibetanos desejam o progresso, o conforto material... Considero que, mais que a tirania, mais que a violência ou a imposição do silêncio, o pior massacre que vemos na contemporaneidade (e que assola todos os povos) é o massacre do desejo, tolhido pela ilusão do consumo e planificado basicamente nos mesmos objetos. Acho impossível que sejamos felizes centrando-nos apenas nisso e, dada a perda de nossas identidades e diferenças, lamento que caminhemos para um nivelamento amorfo e global, lamento que caminhemos para nos tornar todos tibetanos, isto é, franceses, isto é, turcos, isto é, bolivianos, isto é, senegaleses, isto é, sauditas, isto é, filipinos, isto é, estadunidenses, isto é, zés-ninguéns.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
- Nota -
Caros amigos e amigas que acompanham o Armadura de Vento,
escrevo para lhes dizer que devo passar um período sem fazer postagens. Não pretendo abandonar o blog, apenas fazer uma pausa, constrangido que estou por um momento de trabalho intenso, que se estenderá até meados de março. Mais do que nos últimos meses, sinto-me inapto para desatrelar-me da opressão dos afazeres e, assim, não consigo obter o ar necessário para alentar o espírito e a escrita.
Sei que alguns de vocês, pessoas conhecidas e desconhecidas, sentirão falta de vir até aqui para ler as postagens e, vez ou outra, comentá-las. No entanto, saibam que falta maior sentirei eu, donde meu sincero desejo de poder voltar à palavra assim que possível.
Com um forte e já saudoso abraço,
M.C.
escrevo para lhes dizer que devo passar um período sem fazer postagens. Não pretendo abandonar o blog, apenas fazer uma pausa, constrangido que estou por um momento de trabalho intenso, que se estenderá até meados de março. Mais do que nos últimos meses, sinto-me inapto para desatrelar-me da opressão dos afazeres e, assim, não consigo obter o ar necessário para alentar o espírito e a escrita.
Sei que alguns de vocês, pessoas conhecidas e desconhecidas, sentirão falta de vir até aqui para ler as postagens e, vez ou outra, comentá-las. No entanto, saibam que falta maior sentirei eu, donde meu sincero desejo de poder voltar à palavra assim que possível.
Com um forte e já saudoso abraço,
M.C.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Pedido de Natal
Senhor,escrevo para fazer um pedido, mas, antes de tudo, sinto que devo me desculpar. Como as pessoas estão especialmente voltadas para o Papai Noel, imagino que esta noite te seja tranqüila e que um pedido de última hora só pode perturbar. Sei que causo incômodo por não me comportar como os outros, por não substituir tua imagem pela do velho barbudo de vermelho e renas, por não comprar nenhum presente, por não admirar as árvores com bolinhas. Peço desculpas, pois, por tantos nãos e pela minha estranheza.Acredito que saiba que nunca fui de religião, embora busque encontrar na escuridão do dia-a-dia um sentido que aplaque o sentimento de absurdo que, com tanta freqüência, o senhor deixa espocar no meu peito. Confesso que, vez ou outra, penso-te como deus absconditus na tentativa de te salvar da descrença, mas a verdade é que minha busca por ti tem vacilado. Tua face ainda me é desconhecida e tua presença só se manifesta como falta e ferida.As orações tradicionais, já não consigo rezá-las. Compreendo as palavras, mas elas me dizem pouco, não tocam minha alma, são só palavras. Por causa disso, senhor, rogo a ti um pedido, eu que, como tantos outros, ando tão enfeitiçado pelas urgências do cotidiano, tão acomodado com uma vida morna; eu que, como tantos outros, mal alço os olhos para ver o horizonte. Por favor, tenho pouco a dizer, mas acata-o, reconhece o grito neste sussurro:Senhor, se tu és o sentido da dor, a chave do mistério que nos assola, dá-me a fome, Senhor, dá-me a sede e o ardor, mergulha-me no gelo e no fogo, traze a faca e o espinho, abrasa meu corpo, mas abre meus olhos para beleza.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Zoológico XXI
Quando ainda adolescente, fiz uma viagem para o norte de Minas. Visitei uma pequena comunidade chamada Tanque, que mal totalizava duas dezenas de famílias. Era, se me lembro bem, um distrito de Porteirinha e, na ausência de hotel ou pousada, um casal com três filhos hospedou-me em sua casa.
Dentre muitas coisas que me marcaram, cito um episódio. O caçula da família que me recebeu, chamado Lázaro, ficava sempre a meu lado, como que tomando conta de mim, a ponto tal que resolvi lhe pedir um favor: indicar-me tudo que achava que eu não conhecia, sobretudo plantas, frutas e animais. Tive, como conseqüência, dias maravilhosos incrustados com pequenas descobertas. Numa determinada tarde, ele me pediu silêncio e indicou uma trilha. Segui-o calado até que apontou: um gato! Caí na gargalhada: “Uai, ocê tá achando qu’eu não conheço gato?! Gat’eu conheço! Eu sou da cidade, mas alguns bichos eu já vi.”
Pois outro dia soube de uma notícia ótima. Um zoológico da Alemanha resolveu colocar vaca em exposição. Tomei um grande susto, mas depois me recompus, tendo recordado minha viagem a Tanque. Não há que surpreender a decisão dos administradores daquele zôo. Cada vez mais distanciados de experiências diretas com a natureza, estamos perdendo o contato mesmo com animais relativamente comuns, para não falar em outras perdas, talvez mais relevantes, causadas pela nossa vida urbana, demasiado urbana.
Comentando a notícia entre colegas, escutei histórias de amigos professores e descobri que há crianças que nunca viram galinha, que pensam que frango nasce no freezer, que não imaginam como é um porco e que sentem nojo de leite ao saber que saiu de uma teta. Todas crianças brasileiras, para as quais documentários à la Discovery ou viagens a praias bem administradas esgota o contato com o mundo, por assim dizer, selvagem. Crianças brasileiras, como alemãs, inglesas, francesas – como qualquer criança citadina?
A continuar assim, os netos do Lázaro terão muito mais trabalho do que aquele que lhe dei, se é que nós ainda cogitaremos nadar em rios (e não em piscinas cloradas), sujar os pés com terra (e não o sapato com pó asfáltico), colher frutas no pé (e não em prateleiras), olhar montanhas (e não fachadas de prédio), sentir o vento (e não o ar-condicionado), se é que nós, afinal de contas, ainda seremos humanos (e não apenas bichos urbanos).
Dentre muitas coisas que me marcaram, cito um episódio. O caçula da família que me recebeu, chamado Lázaro, ficava sempre a meu lado, como que tomando conta de mim, a ponto tal que resolvi lhe pedir um favor: indicar-me tudo que achava que eu não conhecia, sobretudo plantas, frutas e animais. Tive, como conseqüência, dias maravilhosos incrustados com pequenas descobertas. Numa determinada tarde, ele me pediu silêncio e indicou uma trilha. Segui-o calado até que apontou: um gato! Caí na gargalhada: “Uai, ocê tá achando qu’eu não conheço gato?! Gat’eu conheço! Eu sou da cidade, mas alguns bichos eu já vi.”
Pois outro dia soube de uma notícia ótima. Um zoológico da Alemanha resolveu colocar vaca em exposição. Tomei um grande susto, mas depois me recompus, tendo recordado minha viagem a Tanque. Não há que surpreender a decisão dos administradores daquele zôo. Cada vez mais distanciados de experiências diretas com a natureza, estamos perdendo o contato mesmo com animais relativamente comuns, para não falar em outras perdas, talvez mais relevantes, causadas pela nossa vida urbana, demasiado urbana.
Comentando a notícia entre colegas, escutei histórias de amigos professores e descobri que há crianças que nunca viram galinha, que pensam que frango nasce no freezer, que não imaginam como é um porco e que sentem nojo de leite ao saber que saiu de uma teta. Todas crianças brasileiras, para as quais documentários à la Discovery ou viagens a praias bem administradas esgota o contato com o mundo, por assim dizer, selvagem. Crianças brasileiras, como alemãs, inglesas, francesas – como qualquer criança citadina?
A continuar assim, os netos do Lázaro terão muito mais trabalho do que aquele que lhe dei, se é que nós ainda cogitaremos nadar em rios (e não em piscinas cloradas), sujar os pés com terra (e não o sapato com pó asfáltico), colher frutas no pé (e não em prateleiras), olhar montanhas (e não fachadas de prédio), sentir o vento (e não o ar-condicionado), se é que nós, afinal de contas, ainda seremos humanos (e não apenas bichos urbanos).
sábado, 4 de dezembro de 2010
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Em busca do grito
Recentemente, duas notícias me incomodaram profundamente. Refiro-me à agressão sofrida por uma mãe-de-santo no sul da Bahia, humilhada por policiais fardados (ela foi esbofeteada, algemada e obrigada a sentar-se num formigueiro) e ao ataque de jovens de classe média a transeuntes na avenida paulista, subjugados a socos e cacetadas por supostamente serem homossexuais.
São dois crimes de ódio, não resta dúvida, ou crimes de bestialidade, como talvez devêssemos chamá-los, se por meio dessa palavra exprime-se com mais clareza o horror de sua brutalidade. Trata-se de algo abjeto e inaceitável, injustificável sob qualquer perspectiva. Contudo, surpreende a pouca repercussão que obtiveram: será que nos tem escapado a magnitude dos crimes dessa natureza – de ira gratuita e covarde – cada vez mais recorrentes?
Não penso aqui nos parentes dos criminosos ou seus correligionários, que tentam mitigar esse tipo de violência, caçando atenuações onde atenuações não existem. Penso nos outros, nos muitos mais, que ouvem e se calam: calar-se frente ao absurdo não é uma forma de aceitá-lo? A indignação, emudecida no peito, é ainda indignação?
Façamos, pois, um ligeiro exame de consciência: fosse dada a nós a tarefa de ir à rua sempre que algo nos revoltasse, quantas manifestações faríamos? Em outras palavras: quantas idéias, atos, sentimentos nos geram repulsa e verdadeira objeção? Se a cólera e a covardia não nos movem, o que mais nos moveria?
Arrisco um palpite na tentativa de entender a apatia: não é que não compreendamos o mal ou tenhamos perdido o poder de reconhecê-lo. Ao contrário do que muitas vezes escuto, discordo da tese que a violência, de tão banal e corriqueira, tenha se integrado à vida como algo normal. Nós ainda (ao menos ainda) a identificamos e repelimos. O problema me parece ser outro: termos perdido a capacidade de ser afetados pela violência, isto é, de nos emocionar e demover, já que, cada vez mais individualistas e imediatistas, só cuidamos do que nos atinge diretamente.
Se andamos emudecidos (e, portanto, coniventes) com o ódio e a covardia, se nos falta o impulso para o grito, se não nos interessa reivindicar o bem alheio quando o nosso não está diretamente em jogo, é porque nos embrutecemos e isolamos. Tornamo-nos incapazes de nos compadecer e, sem compaixão, despreocupamo-nos dos outros a ponto de não sentirmos a crueldade de nossa indiferença.
São dois crimes de ódio, não resta dúvida, ou crimes de bestialidade, como talvez devêssemos chamá-los, se por meio dessa palavra exprime-se com mais clareza o horror de sua brutalidade. Trata-se de algo abjeto e inaceitável, injustificável sob qualquer perspectiva. Contudo, surpreende a pouca repercussão que obtiveram: será que nos tem escapado a magnitude dos crimes dessa natureza – de ira gratuita e covarde – cada vez mais recorrentes?
Não penso aqui nos parentes dos criminosos ou seus correligionários, que tentam mitigar esse tipo de violência, caçando atenuações onde atenuações não existem. Penso nos outros, nos muitos mais, que ouvem e se calam: calar-se frente ao absurdo não é uma forma de aceitá-lo? A indignação, emudecida no peito, é ainda indignação?
Façamos, pois, um ligeiro exame de consciência: fosse dada a nós a tarefa de ir à rua sempre que algo nos revoltasse, quantas manifestações faríamos? Em outras palavras: quantas idéias, atos, sentimentos nos geram repulsa e verdadeira objeção? Se a cólera e a covardia não nos movem, o que mais nos moveria?
Arrisco um palpite na tentativa de entender a apatia: não é que não compreendamos o mal ou tenhamos perdido o poder de reconhecê-lo. Ao contrário do que muitas vezes escuto, discordo da tese que a violência, de tão banal e corriqueira, tenha se integrado à vida como algo normal. Nós ainda (ao menos ainda) a identificamos e repelimos. O problema me parece ser outro: termos perdido a capacidade de ser afetados pela violência, isto é, de nos emocionar e demover, já que, cada vez mais individualistas e imediatistas, só cuidamos do que nos atinge diretamente.
Se andamos emudecidos (e, portanto, coniventes) com o ódio e a covardia, se nos falta o impulso para o grito, se não nos interessa reivindicar o bem alheio quando o nosso não está diretamente em jogo, é porque nos embrutecemos e isolamos. Tornamo-nos incapazes de nos compadecer e, sem compaixão, despreocupamo-nos dos outros a ponto de não sentirmos a crueldade de nossa indiferença.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Pathos
pra Lídia,
pela oportunidade
pela oportunidade
Recentemente, recebi um convite muito honroso para participar de uma disciplina sobre diáspora africana e pós-colonialismo. Como não tinha nada a palestrar a esse respeito, propus-me a falar sobre etnocentrismo, tomando como ponto de partida o célebre Dos Canibais de Montaigne. Essa tarefa, para a qual não tinha nada pronto, levou-me a fazer uma série de leituras e percorrer campos que, até então, somente namorava. Foi ótimo visitar expoentes do evolucionismo cultural e topar com A Conquista da América do T. Todorov.
Passo a passo, à medida que progredia na preparação e nas descobertas, a urdidura de argumentos e idéias foi se fazendo. Quando me dei conta, já tinha em mãos alguns problemas bem costurados e uma formulação aceitável dos desafios a que conduziam. Obviamente, não erigi nenhum grande constructo, mas, em filosofia, penso que é interessante darmo-nos o direito de buscar não apenas a sustentação de teses, mas a explicitação de irresoluções. Por instinto e princípio, aliás, desacredito em sistemas e, entre uma demonstração e um desafio, pendo inelutavelmente para esse último, ainda mais quando é o caso de conciliar diferença e hierarquização, identidade e igualdade.
Acontece, contudo, que o velho Drummond bateu à porta... Desta vez, menos para perturbar e mais para esclarecer. Lendo e pensando sobre a questão da alteridade, veio-me à memória o Destruição (do Lição das Coisas), que começa assim: “Os amantes se amam cruelmente / e com se amarem tanto não se vêem. / Um se beija no outro, refletido. / Dois amantes que são? Dois inimigos.” Em quatro versos, o paradoxo: a máxima proximidade é também o maior ocultamento.
– Como, então, conhecer o outro?
(Silêncio)
No encontro com os alunos, partilhei o poema e o espanto, mas não falei do trágico.
Passo a passo, à medida que progredia na preparação e nas descobertas, a urdidura de argumentos e idéias foi se fazendo. Quando me dei conta, já tinha em mãos alguns problemas bem costurados e uma formulação aceitável dos desafios a que conduziam. Obviamente, não erigi nenhum grande constructo, mas, em filosofia, penso que é interessante darmo-nos o direito de buscar não apenas a sustentação de teses, mas a explicitação de irresoluções. Por instinto e princípio, aliás, desacredito em sistemas e, entre uma demonstração e um desafio, pendo inelutavelmente para esse último, ainda mais quando é o caso de conciliar diferença e hierarquização, identidade e igualdade.
Acontece, contudo, que o velho Drummond bateu à porta... Desta vez, menos para perturbar e mais para esclarecer. Lendo e pensando sobre a questão da alteridade, veio-me à memória o Destruição (do Lição das Coisas), que começa assim: “Os amantes se amam cruelmente / e com se amarem tanto não se vêem. / Um se beija no outro, refletido. / Dois amantes que são? Dois inimigos.” Em quatro versos, o paradoxo: a máxima proximidade é também o maior ocultamento.
– Como, então, conhecer o outro?
(Silêncio)
No encontro com os alunos, partilhei o poema e o espanto, mas não falei do trágico.
domingo, 24 de outubro de 2010
Atentada Tradução VIII: Cioran
Précis de Décomposition
Théorie de la Bonté
Théorie de la Bonté
« Puisque pour vous il n’y a point d’ultime critère ni d’irrévocable principe, et aucun dieu, qu’est-ce qui vous empêche de perpétuer tous les forfaits ? »
« Je découvre en moi autant de mal que chez quiconque, mais, exécrant l’action, – mère de tous les vices – je ne suis cause de souffrance pour personne. Inoffensif, sans avidité, et sans assez d’énergie ni d’indécence pour affronter les autres, je laisse le monde tel que je l’ai trouvé. Se venger présuppose une vigilance de chaque instant et un esprit de système, une continuité coûteuse, alors que l’indifférence du pardon et du mépris rend les heures agréablement vides. Toutes les morales représentent un danger pour la bonté ; seule l’incurie la sauve. Ayant choisi le flegme de l’imbécile et l’apathie de l’ange, je me suis exclu des actes et, comme la bonté est incompatible avec la vie, je me suis décomposé pour être bon. »
« Je découvre en moi autant de mal que chez quiconque, mais, exécrant l’action, – mère de tous les vices – je ne suis cause de souffrance pour personne. Inoffensif, sans avidité, et sans assez d’énergie ni d’indécence pour affronter les autres, je laisse le monde tel que je l’ai trouvé. Se venger présuppose une vigilance de chaque instant et un esprit de système, une continuité coûteuse, alors que l’indifférence du pardon et du mépris rend les heures agréablement vides. Toutes les morales représentent un danger pour la bonté ; seule l’incurie la sauve. Ayant choisi le flegme de l’imbécile et l’apathie de l’ange, je me suis exclu des actes et, comme la bonté est incompatible avec la vie, je me suis décomposé pour être bon. »
Breviário da Decomposição
Teoria da Bondade
Teoria da Bondade
“Dado que para você não há critério último nem princípio irrevogável, e nenhum deus, o que te impede de perpetrar todos os crimes?”
“Descubro em mim tanto mal quanto em qualquer outro, mas, execrando a ação – mãe de todos os vícios – não sou causa de sofrimento para ninguém. Inofensivo, sem avidez, e sem energia suficiente nem indecência para afrontar os outros, deixo o mundo tal qual o encontrei. Vingar-se pressupõe uma vigilância de todos os instantes e um espírito de sistema, uma continuidade custosa, ao passo que a indiferença do perdão e do desprezo torna as horas agradavelmente vazias. Todas as morais representam um perigo para a bondade; somente a incúria a salva. Tendo escolhido o fleuma do imbecil e a apatia do anjo, privei-me das ações e, como a bondade é incompatível com a vida, eu me decompus para ser bom.”
“Descubro em mim tanto mal quanto em qualquer outro, mas, execrando a ação – mãe de todos os vícios – não sou causa de sofrimento para ninguém. Inofensivo, sem avidez, e sem energia suficiente nem indecência para afrontar os outros, deixo o mundo tal qual o encontrei. Vingar-se pressupõe uma vigilância de todos os instantes e um espírito de sistema, uma continuidade custosa, ao passo que a indiferença do perdão e do desprezo torna as horas agradavelmente vazias. Todas as morais representam um perigo para a bondade; somente a incúria a salva. Tendo escolhido o fleuma do imbecil e a apatia do anjo, privei-me das ações e, como a bondade é incompatível com a vida, eu me decompus para ser bom.”
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Uma nota eleitoral
É com imensa tristeza que acompanho os rumos da política no Brasil. Ainda criança, lembro-me de assistir à posse de Collor ao lado de meu pai, que, sempre impaciente, foi incapaz de me explicar a importância daquele evento. Àquela altura, não sabia dimensionar o que acontecia, mas, desde então, a política passou a me interessar, em especial pelo fato de residir ao lado de uma grande favela. O incômodo pela pobreza, pela desigualdade e violência, é uma marca indelével que carrego comigo, donde meu anseio em conhecer um mundo justo.
Admito com franqueza, portanto, uma especial atenção para o problema da distribuição de renda. Considero inadmissível que tenhamos um único cidadão na miséria e não consigo conceber como aceitamos que milhões (ou mais de um bilhão, se pensarmos no globo) sobrevivam abaixo do limiar da dignidade. Dessa perspectiva, parece-me relevante, em cada processo eleitoral, rastrear onde se encontram as forças sociais que pendem para a concentração de riqueza, poder e influência.
Além disso, sinto-me seguro em dizer que a separação entre estado e religião é salutar, que se trata de uma verdadeira conquista da modernidade, embora nunca tenha sido levada a cabo plenamente. Julgo-a salutar, dentre outras razões, porque a religião – se observarmos a história – sempre esteve à mercê de líderes radicais ou de convicções que conduzem à intolerância e à guerra. Lembremos apenas as disputas entre católicos e protestantes e quanto sangue ela fez correr, quanto sangue inútil derramou. Se desejamos estar protegidos dos excessos que os fanáticos não cansam de reavivar, é preciso que o poder político se mantenha isento quanto às questões de fé.
Isso significa que o estado de direito não pode legitimamente penetrar o reduto sagrado das crenças íntimas: é tirania coagir cidadãos a crer ou descrer de seu Deus e seus dogmas. Todavia, o estado também não pode voltar suas costas para a realidade e omitir-se perante o que de fato acontece. Quando se fala em aborto, em direitos civis, em pesquisas com células-tronco, fala-se em questões que afligem a sociedade e que devem ser solucionadas política e não religiosamente. Ninguém pretende tornar o aborto obrigatório, exigir que todos se casem com pessoas do mesmo sexo ou deixar que os cientistas usem células-tronco para se divertir em laboratórios. Muito pelo contrário. A verdadeira questão, agora mais do que nunca, é a liberdade e a responsabilidade.
Sendo assim, penso que o debate político e a discussão de programas de governo, sobretudo no tocante à desigualdade econômico-social, não devem ser obscurecidos por meio de referências sensacionalistas a artigos de fé. É preciso que as análises se façam com a racionalidade possível e com o mínimo apelo às paixões. É do diálogo aberto que precisamos, não de subterfúgios retóricos e estratagemas eleitoreiros. No entanto, se cumpre fazer apelo à religião, penso que devemos recordar a profecia de Isaías: não haverá paz enquanto não houver justiça (Is. 32:17), profecia que manteve e manterá sempre acesa a chama da esperança e da luta daqueles que almejam um Brasil para todos.
Admito com franqueza, portanto, uma especial atenção para o problema da distribuição de renda. Considero inadmissível que tenhamos um único cidadão na miséria e não consigo conceber como aceitamos que milhões (ou mais de um bilhão, se pensarmos no globo) sobrevivam abaixo do limiar da dignidade. Dessa perspectiva, parece-me relevante, em cada processo eleitoral, rastrear onde se encontram as forças sociais que pendem para a concentração de riqueza, poder e influência.
Além disso, sinto-me seguro em dizer que a separação entre estado e religião é salutar, que se trata de uma verdadeira conquista da modernidade, embora nunca tenha sido levada a cabo plenamente. Julgo-a salutar, dentre outras razões, porque a religião – se observarmos a história – sempre esteve à mercê de líderes radicais ou de convicções que conduzem à intolerância e à guerra. Lembremos apenas as disputas entre católicos e protestantes e quanto sangue ela fez correr, quanto sangue inútil derramou. Se desejamos estar protegidos dos excessos que os fanáticos não cansam de reavivar, é preciso que o poder político se mantenha isento quanto às questões de fé.
Isso significa que o estado de direito não pode legitimamente penetrar o reduto sagrado das crenças íntimas: é tirania coagir cidadãos a crer ou descrer de seu Deus e seus dogmas. Todavia, o estado também não pode voltar suas costas para a realidade e omitir-se perante o que de fato acontece. Quando se fala em aborto, em direitos civis, em pesquisas com células-tronco, fala-se em questões que afligem a sociedade e que devem ser solucionadas política e não religiosamente. Ninguém pretende tornar o aborto obrigatório, exigir que todos se casem com pessoas do mesmo sexo ou deixar que os cientistas usem células-tronco para se divertir em laboratórios. Muito pelo contrário. A verdadeira questão, agora mais do que nunca, é a liberdade e a responsabilidade.
Sendo assim, penso que o debate político e a discussão de programas de governo, sobretudo no tocante à desigualdade econômico-social, não devem ser obscurecidos por meio de referências sensacionalistas a artigos de fé. É preciso que as análises se façam com a racionalidade possível e com o mínimo apelo às paixões. É do diálogo aberto que precisamos, não de subterfúgios retóricos e estratagemas eleitoreiros. No entanto, se cumpre fazer apelo à religião, penso que devemos recordar a profecia de Isaías: não haverá paz enquanto não houver justiça (Is. 32:17), profecia que manteve e manterá sempre acesa a chama da esperança e da luta daqueles que almejam um Brasil para todos.
sábado, 9 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Útil - Uma Palavra
Por uma série de razões, ando pensando sobre a noção de utilidade. Ela é uma velha conhecida da filosofia, que sempre teve de se posicionar frente à acusação de inutilidade. Há mais de dois milênios, não falta quem diga que só importa o que podemos empregar na vida cotidiana, instrumentalizar de modo a conseguir alguma coisa de prático e vantajoso. Filosofia não mata a fome, não erige casas, não conserta a torneira, não extrai edemas, não aquece o corpo... A filosofia – não!
Acontece, contudo, que temos fome para além da comida, buscamos proteção para além das paredes, sentimos dores que não são do corpo, tememos um desamparo que penetra o lar. Basta nos permitirmos uma pausa e rapidamente nos apercebemos que a vida ultrapassa em muito as necessidades imediatas. Para viver bem, é insuficiente ater-se à satisfação dos anseios diretos e urgentes. Que o digam os abonados, senhores do tédio e fastio!
Se o pão, se o tijolo, se o martelo e mesmo o ouro têm valor, seu valor é o de instrumento. Eles nos permitem tocar os dias: são muitos úteis, portanto, mas apenas para pôr ordem na coxia do cotidiano e dar ensejo ao que se passa no palco. O fundamental não são as ferramentas, nem a preparação que antecede a abertura das cortinas. É a peça: a peça sem roteiro, sem marcas e sem direção em que dia a dia se desvela a história de nossos cacos.
Acontece, contudo, que temos fome para além da comida, buscamos proteção para além das paredes, sentimos dores que não são do corpo, tememos um desamparo que penetra o lar. Basta nos permitirmos uma pausa e rapidamente nos apercebemos que a vida ultrapassa em muito as necessidades imediatas. Para viver bem, é insuficiente ater-se à satisfação dos anseios diretos e urgentes. Que o digam os abonados, senhores do tédio e fastio!
Se o pão, se o tijolo, se o martelo e mesmo o ouro têm valor, seu valor é o de instrumento. Eles nos permitem tocar os dias: são muitos úteis, portanto, mas apenas para pôr ordem na coxia do cotidiano e dar ensejo ao que se passa no palco. O fundamental não são as ferramentas, nem a preparação que antecede a abertura das cortinas. É a peça: a peça sem roteiro, sem marcas e sem direção em que dia a dia se desvela a história de nossos cacos.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Citação VI: Manuel Bandeira
Preparação para a Morte
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
domingo, 12 de setembro de 2010
Pensativamente
Acalento há muito tempo uma idéia que acho curiosa: pensar com o pé. É que pensamos muito, calculamos demais as coisas, especulamos em demasia as possibilidades, mas só com a cabeça. E o mundo parece não estar progredindo a contento... Será que não é chegado o momento de encetarmos novas formas de refletir?
Pensar com o pé, por exemplo, pode ser muito produtivo, a começar pelo fato de que levaríamos em conta o chão que pisamos, a cidade que habitamos, as pessoas com quem convivemos, coisas que muitas vezes deixamos de lado. Pensando com a cabeça, viajamos, vamos longe, como se diz, e esquecemos do que está próximo. Alcançamos o universal e tropeçamos no particular, que é nossa inevitável morada.
Quando comentei essa história com um colega, nos idos da universidade, ele ironizou. “Além da cabeça, só penso com a barriga. E ela ainda fala: ronc!, quando está com fome!” Dessa mesma época, lembro-me de um livro sobre Rodin que continha um elogio às mãos. Fiquei tocado: era outra forma de pensar, pensar com as mãos. Atualmente, tenho tentado enriquecer minha idéia original, acompanhando notícias da nossa sociedade. Todavia, tenho dúvidas se pensar com os músculos, à moda dos pit-boys, ou com a bunda, como as dançarinas & cia cada vez menos limitada, é mesmo pensar...
Certo é que jamais deixaremos de pensar. Mas também é certo que precisamos fazê-lo diferente. Está posta minha sugestão: pensar com o pé. Sei que soa estranho, mas acredito que merece consideração. Minha aposta é de que assim pensaremos melhor do que só com a cabeça e ainda teremos um antídoto a outro problema talvez ainda mais comum: pensar com o umbigo.
Pensar com o pé, por exemplo, pode ser muito produtivo, a começar pelo fato de que levaríamos em conta o chão que pisamos, a cidade que habitamos, as pessoas com quem convivemos, coisas que muitas vezes deixamos de lado. Pensando com a cabeça, viajamos, vamos longe, como se diz, e esquecemos do que está próximo. Alcançamos o universal e tropeçamos no particular, que é nossa inevitável morada.
Quando comentei essa história com um colega, nos idos da universidade, ele ironizou. “Além da cabeça, só penso com a barriga. E ela ainda fala: ronc!, quando está com fome!” Dessa mesma época, lembro-me de um livro sobre Rodin que continha um elogio às mãos. Fiquei tocado: era outra forma de pensar, pensar com as mãos. Atualmente, tenho tentado enriquecer minha idéia original, acompanhando notícias da nossa sociedade. Todavia, tenho dúvidas se pensar com os músculos, à moda dos pit-boys, ou com a bunda, como as dançarinas & cia cada vez menos limitada, é mesmo pensar...
Certo é que jamais deixaremos de pensar. Mas também é certo que precisamos fazê-lo diferente. Está posta minha sugestão: pensar com o pé. Sei que soa estranho, mas acredito que merece consideração. Minha aposta é de que assim pensaremos melhor do que só com a cabeça e ainda teremos um antídoto a outro problema talvez ainda mais comum: pensar com o umbigo.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Jornalístico II
“A tabela periódica deve ficar maior: três laboratórios independentes criaram átomos com 114 prótons em seu núcleo. Em 1999, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Nuclear em Dubna, Rússia, afirmaram ter criado átomos do elemento 114. Mas não havia confirmação independente. Agora, dois outros laboratórios também conseguiram fabricar o elemento. (...) As propriedades químicas do elemento 114 ainda são uma incógnita. O elemento pode ser tanto um gás nobre quanto um metal dependendo de seu comportamento.” (New Scientist/ Folha online 24/06/2010 às 18h)
É engenhosa a inteligência humana. Ela inventa coisas: a música, a roda, a guerra, a verdade, a panela, o chinelo... E agora resolveu criar também mais um elemento químico. Será que não bastavam aqueles outrora descobertos e os poucos já sintetizados? Velhos tempos os dos alquimistas, que buscavam o auto-conhecimento na simbólica transformação do ouro em chumbo!
– Mendeleiev, adicionai mais um!, devem comemorar, com um brinde de vodka, os cientistas que primeiro fundiram o cálcio (Z 20) ao plutônio (Z 94).
– Que conquista!, dirão os leitores dos jornais, desorientados como bêbados, mas estupefatos com mais um prodígio feito em laboratório.
Surpresa maior, porém, é não saber o que é esse elemento. Um gás nobre? Um metal? Como assim? Como poderia ser ele duas coisas tão opostas? Não existe uma contradição? E, ademais, se podemos criá-lo, como não saber o que é? Fabricamos um micro Frankenstein? Há que esperar seu comportamento, respondem laconicamente os químicos, que também ainda não sabem que nome lhe dar.
Curioso esse elemento 114. Conhecemos seu núcleo, realizamos sua síntese, dominamos a essência de sua estrutura; contudo, não sabemos o que vem a ser. Imprevisível, ele é um paradoxo. Que tal chamá-lo... humano?
É engenhosa a inteligência humana. Ela inventa coisas: a música, a roda, a guerra, a verdade, a panela, o chinelo... E agora resolveu criar também mais um elemento químico. Será que não bastavam aqueles outrora descobertos e os poucos já sintetizados? Velhos tempos os dos alquimistas, que buscavam o auto-conhecimento na simbólica transformação do ouro em chumbo!
– Mendeleiev, adicionai mais um!, devem comemorar, com um brinde de vodka, os cientistas que primeiro fundiram o cálcio (Z 20) ao plutônio (Z 94).
– Que conquista!, dirão os leitores dos jornais, desorientados como bêbados, mas estupefatos com mais um prodígio feito em laboratório.
Surpresa maior, porém, é não saber o que é esse elemento. Um gás nobre? Um metal? Como assim? Como poderia ser ele duas coisas tão opostas? Não existe uma contradição? E, ademais, se podemos criá-lo, como não saber o que é? Fabricamos um micro Frankenstein? Há que esperar seu comportamento, respondem laconicamente os químicos, que também ainda não sabem que nome lhe dar.
Curioso esse elemento 114. Conhecemos seu núcleo, realizamos sua síntese, dominamos a essência de sua estrutura; contudo, não sabemos o que vem a ser. Imprevisível, ele é um paradoxo. Que tal chamá-lo... humano?
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Incerta Madrugada
É tarde para um homem de labor.
Sou eu, porém, quem resiste ao sono.
Só com o vinho,
que nunca me traiu,
divago
entregue à escuridão.
Estrelas tênues, meus olhos cintilam,
mas nada vêem nem iluminam
– luz de cinzas.
(O presente é eterno e oco.)
A noite adentra o silêncio
e as cigarras zunem, solitárias.
Musas telúricas,
seu canto é mudo, não me revela sinais.
Sou eu, porém, quem resiste ao sono.
Só com o vinho,
que nunca me traiu,
divago
entregue à escuridão.
Estrelas tênues, meus olhos cintilam,
mas nada vêem nem iluminam
– luz de cinzas.
(O presente é eterno e oco.)
A noite adentra o silêncio
e as cigarras zunem, solitárias.
Musas telúricas,
seu canto é mudo, não me revela sinais.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
Atentada Tradução VII: Laura Riding
To One About To Become My Friend
Stand off!I am stone.
You must tear your flesh to excavate my heart.
I am storm.
None can rest with me.
I am mountain.
Toil to the top, be there a solitary.
I am ice.
You must be frozen that I be melted.
I am sea.
I would not give you up again.
If this frightens you,
Stand off! Stand off!
Yet, would you be my friend,
I should be none of these to you.
Para Alguém Prestes a Tornar-se Meu Amigo
Para trás!Sou pedra.
Tu tens de rasgar tua carne para escavar meu peito.
Sou tempestade.
Ninguém descansa comigo.
Sou montanha.
Vence o topo e torna-te um solitário.
Sou gelo.
Tu tens de congelar para que eu derreta.
Sou mar.
Não te daria a superfície.
Se isso te amedronta,
Para trás! Para trás!
Contudo, se fores meu amigo,
Nada disso te serei.
domingo, 18 de julho de 2010
Infância
Penso que não é causar escândalo dizer que a infância não existe. Reconheço, claro, a distensão temporal que compreende os primeiros anos de nossas vidas, mas não é a ela que me refiro. Refiro-me à forma como, já adultos, normalmente voltamos os olhos para nossos anos de meninice, na forma como tendemos a pintá-los com cores fortes e imaginárias, transformando a infância em algo bem diferente daquilo que foi.
Uma criança não sabe o que é a infância. Ela não se pergunta sobre a fase que atravessa, não se preocupa em atribuir-lhe sentido. A criança apenas vive. É o adulto que a elabora e, marcado pelas experiências que o tempo lhe legou, constrói-a em contraste com a madureza e as dores inerentes à maioridade. Trata-se de um movimento análogo ao da religião: inventamos um paraíso do qual decaímos e que jamais existiu.
A infância é criação de adulto, cunhada quando se percebe que os desejos mais profundos não se concretizaram nem se concretizarão, que os sonhos foram frustrados, que o decorrer do tempo ceifou as esperanças. Consciente da rudez do real e premido pela nostalgia, o adulto refaz o passado a fim de justificar a própria existência, como quem quer provar que ao menos algo valeu a pena. Adultos que somos, lançamos sobre a infância os faróis da memória e da fantasia para transfigurá-la numa história fantástica, como se, alçando-a à categoria do idílico, pudéssemos redimir tudo que a vida nos tolheu, como se, com uma pequena luz, pudéssemos iluminar o breu. PS: E quantas infâncias não temos...
Uma criança não sabe o que é a infância. Ela não se pergunta sobre a fase que atravessa, não se preocupa em atribuir-lhe sentido. A criança apenas vive. É o adulto que a elabora e, marcado pelas experiências que o tempo lhe legou, constrói-a em contraste com a madureza e as dores inerentes à maioridade. Trata-se de um movimento análogo ao da religião: inventamos um paraíso do qual decaímos e que jamais existiu.
A infância é criação de adulto, cunhada quando se percebe que os desejos mais profundos não se concretizaram nem se concretizarão, que os sonhos foram frustrados, que o decorrer do tempo ceifou as esperanças. Consciente da rudez do real e premido pela nostalgia, o adulto refaz o passado a fim de justificar a própria existência, como quem quer provar que ao menos algo valeu a pena. Adultos que somos, lançamos sobre a infância os faróis da memória e da fantasia para transfigurá-la numa história fantástica, como se, alçando-a à categoria do idílico, pudéssemos redimir tudo que a vida nos tolheu, como se, com uma pequena luz, pudéssemos iluminar o breu. PS: E quantas infâncias não temos...
Assinar:
Postagens (Atom)


_1996_AcrilicoSobreTela_120-30cm_ColecaoParticular.jpg)