O Pequeno Príncipe não é só um livro de misse. É cartão-postal, ímã de geladeira, estampa de camisa e, agora também, DVD. Foi o que descobri outro dia, sentando-me junto a duas crianças na casa de uma amiga. Eram seus filhos, de três e seis anos, que estavam quietos no quarto de brinquedos, onde se isolavam do convívio dos adultos reunidos para um jantar. O filme a que assistiam, uma adaptação livre de Saint-Exupéry, era feito de animações e parecia bem legal, a julgar pelos olhos vidrados.Mais tarde, soube que os meninos já o haviam assistido várias vezes. É curioso como as crianças não se entediam, mesmo fazendo reiteradamente a mesma coisa. Terminado o filme, a dupla resolveu brincar: um seria o pequeno príncipe; o outro, a raposa; e o colchão em que um casal de visitas dormiria ficou como cenário, enriquecido que foi com bonecos e caixas.É claro que toda a ornamentação era muito precária, mas os objetos eram apenas ensejo para a imaginação, balizas para definir o campo das aventuras a vivenciar. O fundamental os meninos traziam em si: a capacidade de inventar, de se entregar ao jogo e, terminada a brincadeira, de dele sair. Qualquer criança sabe separar muito bem os dois mundos, a despeito do mergulho profundo no da imaginação.Já nós, adultos, estamos sempre a misturar as estações. Durante a maior parte do tempo, assumimos personagens mais ou menos fictícios e, levando-nos demasiadamente a sério, esquecemos que “coerência”, “prioridades”, “reconhecimento” (e outras tantas fantasias capciosas) são nada mais que peças da brincadeira chamada maturidade. Que desatino! Precisamos urgentemente readquirir o espírito da infância e a argúcia para reencontrarmo-nos a nós mesmos, pois talvez ainda nos seja possível rever as coisas sem o manto com que as cobrimos, nos desvencilhar de nossas projeções e voltar ao mundo real, o B-612.
quarta-feira, 30 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Com choro e com vela
Lembro-me como se fosse hoje do dia em que uma amiga me falou das carpideiras. Nunca ouvira falar na palavra e sequer imaginava que pudesse haver pessoas que fossem pagas para chorar por outras. Enterro, velório, mas também casamento e despedida, qualquer ocasião é ocasião para elas, desde que lágrimas sejam precisas. Interessante que o substantivo só exista no feminino: carpideiras são mulheres, mulheres que choram.
Num primeiro momento, fiquei muito surpreso e achei um absurdo. “Pagar alguém para chorar no seu lugar? Ou para impressionar terceiros?” Cheguei a supor que era invencionice contemporânea, mas a prática é antiga. Hoje, lendo uma biografia de Marco Polo, me dei conta de que existia numa cidade portuária do golfo pérsico no século XIII, quando se deram as andanças do veneziano: viúvas muçulmanas, que tinham de chorar a morte do falecido durante quatro anos consecutivos, todos os dias do ano, podiam, quando cansadas, recorrer a esse auxílio profissional.
Confesso que gostaria de entender a profissão, conversar com uma dessas senhoras, saber das histórias de lágrimas de crocodilo. Que significado dão à sua tarefa? Quem as contrata? Quanto custa a hora de choro? E, além disso, quando surgiu a prática de carpir? Onde? Como? Por que? Convenhamos: as carpideiras são intrigantes e uma alternativa curiosa para quem se cansou de chorar, já que não dá para delegar a tristeza, felizmente.
Num primeiro momento, fiquei muito surpreso e achei um absurdo. “Pagar alguém para chorar no seu lugar? Ou para impressionar terceiros?” Cheguei a supor que era invencionice contemporânea, mas a prática é antiga. Hoje, lendo uma biografia de Marco Polo, me dei conta de que existia numa cidade portuária do golfo pérsico no século XIII, quando se deram as andanças do veneziano: viúvas muçulmanas, que tinham de chorar a morte do falecido durante quatro anos consecutivos, todos os dias do ano, podiam, quando cansadas, recorrer a esse auxílio profissional.
Confesso que gostaria de entender a profissão, conversar com uma dessas senhoras, saber das histórias de lágrimas de crocodilo. Que significado dão à sua tarefa? Quem as contrata? Quanto custa a hora de choro? E, além disso, quando surgiu a prática de carpir? Onde? Como? Por que? Convenhamos: as carpideiras são intrigantes e uma alternativa curiosa para quem se cansou de chorar, já que não dá para delegar a tristeza, felizmente.
domingo, 13 de março de 2011
Francotônica I: E somos todos tibetanos
Nas andanças da vida, por um golpe de sorte acabei fazendo duas novas amizades. Estava numa conferência, sentado ao fundo de uma velha capela do século XVII, quando um chinês e uma senhora francesa sentaram-se ao meu lado. Por terem chegado um pouco atrasados, acabaram por me consultar acerca do que se passava e essa pequena consulta deu ensejo, na recepção que se seguiu à palestra, a uma conversa calorosa e gentil. Como resultado, fui convidado para um jantar na casa da Madame Villard algumas semanas depois, para o qual Qinghua e eu fomos juntos, já que tomaríamos o mesmo metrô.
A noite foi muito agradável e a conversa, como sempre nos jantares franceses, foi tão longa e variada como a refeição. Um casal de vizinhos da Mme Villard também estava presente e levou consigo seus dois filhos, um ainda adolescente. Marcou-me o quanto todos foram simpáticos e, mais do isso, a gratuidade da gentileza. Que bom que eu, num primeiro momento hesitante, finalmente aceitei o convite.
Daquela noite, porém, destaco um registro especial. É que em determinado momento a conversa passou a tratar da China, migrou para Macau e depois chegou ao Tibet. Qinghua nos contou, da perspectiva que lhe é própria, que os tibetanos aceitam a presença chinesa, pois é ela que assegura o desenvolvimento e “as pessoas querem ter coisas, querem o progresso”. A seus olhos, tudo se passa como se a resistência do Dalai Lama fosse uma exceção, já que o povo habituou-se ao domínio chinês (truculento que seja, acrescento eu) e está mais interessado no avanço material do que na liberdade.
Não emiti comentário algum quando estávamos à mesa, mas confesso que fiquei um tanto triste. Não me refiro à opressão política e ao dirigismo estatal, que me interessam menos do que a uniformização do sentido que damos às nossas vidas: também os tibetanos desejam o progresso, o conforto material... Considero que, mais que a tirania, mais que a violência ou a imposição do silêncio, o pior massacre que vemos na contemporaneidade (e que assola todos os povos) é o massacre do desejo, tolhido pela ilusão do consumo e planificado basicamente nos mesmos objetos. Acho impossível que sejamos felizes centrando-nos apenas nisso e, dada a perda de nossas identidades e diferenças, lamento que caminhemos para um nivelamento amorfo e global, lamento que caminhemos para nos tornar todos tibetanos, isto é, franceses, isto é, turcos, isto é, bolivianos, isto é, senegaleses, isto é, sauditas, isto é, filipinos, isto é, estadunidenses, isto é, zés-ninguéns.
A noite foi muito agradável e a conversa, como sempre nos jantares franceses, foi tão longa e variada como a refeição. Um casal de vizinhos da Mme Villard também estava presente e levou consigo seus dois filhos, um ainda adolescente. Marcou-me o quanto todos foram simpáticos e, mais do isso, a gratuidade da gentileza. Que bom que eu, num primeiro momento hesitante, finalmente aceitei o convite.
Daquela noite, porém, destaco um registro especial. É que em determinado momento a conversa passou a tratar da China, migrou para Macau e depois chegou ao Tibet. Qinghua nos contou, da perspectiva que lhe é própria, que os tibetanos aceitam a presença chinesa, pois é ela que assegura o desenvolvimento e “as pessoas querem ter coisas, querem o progresso”. A seus olhos, tudo se passa como se a resistência do Dalai Lama fosse uma exceção, já que o povo habituou-se ao domínio chinês (truculento que seja, acrescento eu) e está mais interessado no avanço material do que na liberdade.
Não emiti comentário algum quando estávamos à mesa, mas confesso que fiquei um tanto triste. Não me refiro à opressão política e ao dirigismo estatal, que me interessam menos do que a uniformização do sentido que damos às nossas vidas: também os tibetanos desejam o progresso, o conforto material... Considero que, mais que a tirania, mais que a violência ou a imposição do silêncio, o pior massacre que vemos na contemporaneidade (e que assola todos os povos) é o massacre do desejo, tolhido pela ilusão do consumo e planificado basicamente nos mesmos objetos. Acho impossível que sejamos felizes centrando-nos apenas nisso e, dada a perda de nossas identidades e diferenças, lamento que caminhemos para um nivelamento amorfo e global, lamento que caminhemos para nos tornar todos tibetanos, isto é, franceses, isto é, turcos, isto é, bolivianos, isto é, senegaleses, isto é, sauditas, isto é, filipinos, isto é, estadunidenses, isto é, zés-ninguéns.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
- Nota -
Caros amigos e amigas que acompanham o Armadura de Vento,
escrevo para lhes dizer que devo passar um período sem fazer postagens. Não pretendo abandonar o blog, apenas fazer uma pausa, constrangido que estou por um momento de trabalho intenso, que se estenderá até meados de março. Mais do que nos últimos meses, sinto-me inapto para desatrelar-me da opressão dos afazeres e, assim, não consigo obter o ar necessário para alentar o espírito e a escrita.
Sei que alguns de vocês, pessoas conhecidas e desconhecidas, sentirão falta de vir até aqui para ler as postagens e, vez ou outra, comentá-las. No entanto, saibam que falta maior sentirei eu, donde meu sincero desejo de poder voltar à palavra assim que possível.
Com um forte e já saudoso abraço,
M.C.
escrevo para lhes dizer que devo passar um período sem fazer postagens. Não pretendo abandonar o blog, apenas fazer uma pausa, constrangido que estou por um momento de trabalho intenso, que se estenderá até meados de março. Mais do que nos últimos meses, sinto-me inapto para desatrelar-me da opressão dos afazeres e, assim, não consigo obter o ar necessário para alentar o espírito e a escrita.
Sei que alguns de vocês, pessoas conhecidas e desconhecidas, sentirão falta de vir até aqui para ler as postagens e, vez ou outra, comentá-las. No entanto, saibam que falta maior sentirei eu, donde meu sincero desejo de poder voltar à palavra assim que possível.
Com um forte e já saudoso abraço,
M.C.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Pedido de Natal
Senhor,escrevo para fazer um pedido, mas, antes de tudo, sinto que devo me desculpar. Como as pessoas estão especialmente voltadas para o Papai Noel, imagino que esta noite te seja tranqüila e que um pedido de última hora só pode perturbar. Sei que causo incômodo por não me comportar como os outros, por não substituir tua imagem pela do velho barbudo de vermelho e renas, por não comprar nenhum presente, por não admirar as árvores com bolinhas. Peço desculpas, pois, por tantos nãos e pela minha estranheza.Acredito que saiba que nunca fui de religião, embora busque encontrar na escuridão do dia-a-dia um sentido que aplaque o sentimento de absurdo que, com tanta freqüência, o senhor deixa espocar no meu peito. Confesso que, vez ou outra, penso-te como deus absconditus na tentativa de te salvar da descrença, mas a verdade é que minha busca por ti tem vacilado. Tua face ainda me é desconhecida e tua presença só se manifesta como falta e ferida.As orações tradicionais, já não consigo rezá-las. Compreendo as palavras, mas elas me dizem pouco, não tocam minha alma, são só palavras. Por causa disso, senhor, rogo a ti um pedido, eu que, como tantos outros, ando tão enfeitiçado pelas urgências do cotidiano, tão acomodado com uma vida morna; eu que, como tantos outros, mal alço os olhos para ver o horizonte. Por favor, tenho pouco a dizer, mas acata-o, reconhece o grito neste sussurro:Senhor, se tu és o sentido da dor, a chave do mistério que nos assola, dá-me a fome, Senhor, dá-me a sede e o ardor, mergulha-me no gelo e no fogo, traze a faca e o espinho, abrasa meu corpo, mas abre meus olhos para beleza.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Zoológico XXI
Quando ainda adolescente, fiz uma viagem para o norte de Minas. Visitei uma pequena comunidade chamada Tanque, que mal totalizava duas dezenas de famílias. Era, se me lembro bem, um distrito de Porteirinha e, na ausência de hotel ou pousada, um casal com três filhos hospedou-me em sua casa.
Dentre muitas coisas que me marcaram, cito um episódio. O caçula da família que me recebeu, chamado Lázaro, ficava sempre a meu lado, como que tomando conta de mim, a ponto tal que resolvi lhe pedir um favor: indicar-me tudo que achava que eu não conhecia, sobretudo plantas, frutas e animais. Tive, como conseqüência, dias maravilhosos incrustados com pequenas descobertas. Numa determinada tarde, ele me pediu silêncio e indicou uma trilha. Segui-o calado até que apontou: um gato! Caí na gargalhada: “Uai, ocê tá achando qu’eu não conheço gato?! Gat’eu conheço! Eu sou da cidade, mas alguns bichos eu já vi.”
Pois outro dia soube de uma notícia ótima. Um zoológico da Alemanha resolveu colocar vaca em exposição. Tomei um grande susto, mas depois me recompus, tendo recordado minha viagem a Tanque. Não há que surpreender a decisão dos administradores daquele zôo. Cada vez mais distanciados de experiências diretas com a natureza, estamos perdendo o contato mesmo com animais relativamente comuns, para não falar em outras perdas, talvez mais relevantes, causadas pela nossa vida urbana, demasiado urbana.
Comentando a notícia entre colegas, escutei histórias de amigos professores e descobri que há crianças que nunca viram galinha, que pensam que frango nasce no freezer, que não imaginam como é um porco e que sentem nojo de leite ao saber que saiu de uma teta. Todas crianças brasileiras, para as quais documentários à la Discovery ou viagens a praias bem administradas esgota o contato com o mundo, por assim dizer, selvagem. Crianças brasileiras, como alemãs, inglesas, francesas – como qualquer criança citadina?
A continuar assim, os netos do Lázaro terão muito mais trabalho do que aquele que lhe dei, se é que nós ainda cogitaremos nadar em rios (e não em piscinas cloradas), sujar os pés com terra (e não o sapato com pó asfáltico), colher frutas no pé (e não em prateleiras), olhar montanhas (e não fachadas de prédio), sentir o vento (e não o ar-condicionado), se é que nós, afinal de contas, ainda seremos humanos (e não apenas bichos urbanos).
Dentre muitas coisas que me marcaram, cito um episódio. O caçula da família que me recebeu, chamado Lázaro, ficava sempre a meu lado, como que tomando conta de mim, a ponto tal que resolvi lhe pedir um favor: indicar-me tudo que achava que eu não conhecia, sobretudo plantas, frutas e animais. Tive, como conseqüência, dias maravilhosos incrustados com pequenas descobertas. Numa determinada tarde, ele me pediu silêncio e indicou uma trilha. Segui-o calado até que apontou: um gato! Caí na gargalhada: “Uai, ocê tá achando qu’eu não conheço gato?! Gat’eu conheço! Eu sou da cidade, mas alguns bichos eu já vi.”
Pois outro dia soube de uma notícia ótima. Um zoológico da Alemanha resolveu colocar vaca em exposição. Tomei um grande susto, mas depois me recompus, tendo recordado minha viagem a Tanque. Não há que surpreender a decisão dos administradores daquele zôo. Cada vez mais distanciados de experiências diretas com a natureza, estamos perdendo o contato mesmo com animais relativamente comuns, para não falar em outras perdas, talvez mais relevantes, causadas pela nossa vida urbana, demasiado urbana.
Comentando a notícia entre colegas, escutei histórias de amigos professores e descobri que há crianças que nunca viram galinha, que pensam que frango nasce no freezer, que não imaginam como é um porco e que sentem nojo de leite ao saber que saiu de uma teta. Todas crianças brasileiras, para as quais documentários à la Discovery ou viagens a praias bem administradas esgota o contato com o mundo, por assim dizer, selvagem. Crianças brasileiras, como alemãs, inglesas, francesas – como qualquer criança citadina?
A continuar assim, os netos do Lázaro terão muito mais trabalho do que aquele que lhe dei, se é que nós ainda cogitaremos nadar em rios (e não em piscinas cloradas), sujar os pés com terra (e não o sapato com pó asfáltico), colher frutas no pé (e não em prateleiras), olhar montanhas (e não fachadas de prédio), sentir o vento (e não o ar-condicionado), se é que nós, afinal de contas, ainda seremos humanos (e não apenas bichos urbanos).
sábado, 4 de dezembro de 2010
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Em busca do grito
Recentemente, duas notícias me incomodaram profundamente. Refiro-me à agressão sofrida por uma mãe-de-santo no sul da Bahia, humilhada por policiais fardados (ela foi esbofeteada, algemada e obrigada a sentar-se num formigueiro) e ao ataque de jovens de classe média a transeuntes na avenida paulista, subjugados a socos e cacetadas por supostamente serem homossexuais.
São dois crimes de ódio, não resta dúvida, ou crimes de bestialidade, como talvez devêssemos chamá-los, se por meio dessa palavra exprime-se com mais clareza o horror de sua brutalidade. Trata-se de algo abjeto e inaceitável, injustificável sob qualquer perspectiva. Contudo, surpreende a pouca repercussão que obtiveram: será que nos tem escapado a magnitude dos crimes dessa natureza – de ira gratuita e covarde – cada vez mais recorrentes?
Não penso aqui nos parentes dos criminosos ou seus correligionários, que tentam mitigar esse tipo de violência, caçando atenuações onde atenuações não existem. Penso nos outros, nos muitos mais, que ouvem e se calam: calar-se frente ao absurdo não é uma forma de aceitá-lo? A indignação, emudecida no peito, é ainda indignação?
Façamos, pois, um ligeiro exame de consciência: fosse dada a nós a tarefa de ir à rua sempre que algo nos revoltasse, quantas manifestações faríamos? Em outras palavras: quantas idéias, atos, sentimentos nos geram repulsa e verdadeira objeção? Se a cólera e a covardia não nos movem, o que mais nos moveria?
Arrisco um palpite na tentativa de entender a apatia: não é que não compreendamos o mal ou tenhamos perdido o poder de reconhecê-lo. Ao contrário do que muitas vezes escuto, discordo da tese que a violência, de tão banal e corriqueira, tenha se integrado à vida como algo normal. Nós ainda (ao menos ainda) a identificamos e repelimos. O problema me parece ser outro: termos perdido a capacidade de ser afetados pela violência, isto é, de nos emocionar e demover, já que, cada vez mais individualistas e imediatistas, só cuidamos do que nos atinge diretamente.
Se andamos emudecidos (e, portanto, coniventes) com o ódio e a covardia, se nos falta o impulso para o grito, se não nos interessa reivindicar o bem alheio quando o nosso não está diretamente em jogo, é porque nos embrutecemos e isolamos. Tornamo-nos incapazes de nos compadecer e, sem compaixão, despreocupamo-nos dos outros a ponto de não sentirmos a crueldade de nossa indiferença.
São dois crimes de ódio, não resta dúvida, ou crimes de bestialidade, como talvez devêssemos chamá-los, se por meio dessa palavra exprime-se com mais clareza o horror de sua brutalidade. Trata-se de algo abjeto e inaceitável, injustificável sob qualquer perspectiva. Contudo, surpreende a pouca repercussão que obtiveram: será que nos tem escapado a magnitude dos crimes dessa natureza – de ira gratuita e covarde – cada vez mais recorrentes?
Não penso aqui nos parentes dos criminosos ou seus correligionários, que tentam mitigar esse tipo de violência, caçando atenuações onde atenuações não existem. Penso nos outros, nos muitos mais, que ouvem e se calam: calar-se frente ao absurdo não é uma forma de aceitá-lo? A indignação, emudecida no peito, é ainda indignação?
Façamos, pois, um ligeiro exame de consciência: fosse dada a nós a tarefa de ir à rua sempre que algo nos revoltasse, quantas manifestações faríamos? Em outras palavras: quantas idéias, atos, sentimentos nos geram repulsa e verdadeira objeção? Se a cólera e a covardia não nos movem, o que mais nos moveria?
Arrisco um palpite na tentativa de entender a apatia: não é que não compreendamos o mal ou tenhamos perdido o poder de reconhecê-lo. Ao contrário do que muitas vezes escuto, discordo da tese que a violência, de tão banal e corriqueira, tenha se integrado à vida como algo normal. Nós ainda (ao menos ainda) a identificamos e repelimos. O problema me parece ser outro: termos perdido a capacidade de ser afetados pela violência, isto é, de nos emocionar e demover, já que, cada vez mais individualistas e imediatistas, só cuidamos do que nos atinge diretamente.
Se andamos emudecidos (e, portanto, coniventes) com o ódio e a covardia, se nos falta o impulso para o grito, se não nos interessa reivindicar o bem alheio quando o nosso não está diretamente em jogo, é porque nos embrutecemos e isolamos. Tornamo-nos incapazes de nos compadecer e, sem compaixão, despreocupamo-nos dos outros a ponto de não sentirmos a crueldade de nossa indiferença.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Pathos
pra Lídia,
pela oportunidade
pela oportunidade
Recentemente, recebi um convite muito honroso para participar de uma disciplina sobre diáspora africana e pós-colonialismo. Como não tinha nada a palestrar a esse respeito, propus-me a falar sobre etnocentrismo, tomando como ponto de partida o célebre Dos Canibais de Montaigne. Essa tarefa, para a qual não tinha nada pronto, levou-me a fazer uma série de leituras e percorrer campos que, até então, somente namorava. Foi ótimo visitar expoentes do evolucionismo cultural e topar com A Conquista da América do T. Todorov.
Passo a passo, à medida que progredia na preparação e nas descobertas, a urdidura de argumentos e idéias foi se fazendo. Quando me dei conta, já tinha em mãos alguns problemas bem costurados e uma formulação aceitável dos desafios a que conduziam. Obviamente, não erigi nenhum grande constructo, mas, em filosofia, penso que é interessante darmo-nos o direito de buscar não apenas a sustentação de teses, mas a explicitação de irresoluções. Por instinto e princípio, aliás, desacredito em sistemas e, entre uma demonstração e um desafio, pendo inelutavelmente para esse último, ainda mais quando é o caso de conciliar diferença e hierarquização, identidade e igualdade.
Acontece, contudo, que o velho Drummond bateu à porta... Desta vez, menos para perturbar e mais para esclarecer. Lendo e pensando sobre a questão da alteridade, veio-me à memória o Destruição (do Lição das Coisas), que começa assim: “Os amantes se amam cruelmente / e com se amarem tanto não se vêem. / Um se beija no outro, refletido. / Dois amantes que são? Dois inimigos.” Em quatro versos, o paradoxo: a máxima proximidade é também o maior ocultamento.
– Como, então, conhecer o outro?
(Silêncio)
No encontro com os alunos, partilhei o poema e o espanto, mas não falei do trágico.
Passo a passo, à medida que progredia na preparação e nas descobertas, a urdidura de argumentos e idéias foi se fazendo. Quando me dei conta, já tinha em mãos alguns problemas bem costurados e uma formulação aceitável dos desafios a que conduziam. Obviamente, não erigi nenhum grande constructo, mas, em filosofia, penso que é interessante darmo-nos o direito de buscar não apenas a sustentação de teses, mas a explicitação de irresoluções. Por instinto e princípio, aliás, desacredito em sistemas e, entre uma demonstração e um desafio, pendo inelutavelmente para esse último, ainda mais quando é o caso de conciliar diferença e hierarquização, identidade e igualdade.
Acontece, contudo, que o velho Drummond bateu à porta... Desta vez, menos para perturbar e mais para esclarecer. Lendo e pensando sobre a questão da alteridade, veio-me à memória o Destruição (do Lição das Coisas), que começa assim: “Os amantes se amam cruelmente / e com se amarem tanto não se vêem. / Um se beija no outro, refletido. / Dois amantes que são? Dois inimigos.” Em quatro versos, o paradoxo: a máxima proximidade é também o maior ocultamento.
– Como, então, conhecer o outro?
(Silêncio)
No encontro com os alunos, partilhei o poema e o espanto, mas não falei do trágico.
domingo, 24 de outubro de 2010
Atentada Tradução VIII: Cioran
Précis de Décomposition
Théorie de la Bonté
Théorie de la Bonté
« Puisque pour vous il n’y a point d’ultime critère ni d’irrévocable principe, et aucun dieu, qu’est-ce qui vous empêche de perpétuer tous les forfaits ? »
« Je découvre en moi autant de mal que chez quiconque, mais, exécrant l’action, – mère de tous les vices – je ne suis cause de souffrance pour personne. Inoffensif, sans avidité, et sans assez d’énergie ni d’indécence pour affronter les autres, je laisse le monde tel que je l’ai trouvé. Se venger présuppose une vigilance de chaque instant et un esprit de système, une continuité coûteuse, alors que l’indifférence du pardon et du mépris rend les heures agréablement vides. Toutes les morales représentent un danger pour la bonté ; seule l’incurie la sauve. Ayant choisi le flegme de l’imbécile et l’apathie de l’ange, je me suis exclu des actes et, comme la bonté est incompatible avec la vie, je me suis décomposé pour être bon. »
« Je découvre en moi autant de mal que chez quiconque, mais, exécrant l’action, – mère de tous les vices – je ne suis cause de souffrance pour personne. Inoffensif, sans avidité, et sans assez d’énergie ni d’indécence pour affronter les autres, je laisse le monde tel que je l’ai trouvé. Se venger présuppose une vigilance de chaque instant et un esprit de système, une continuité coûteuse, alors que l’indifférence du pardon et du mépris rend les heures agréablement vides. Toutes les morales représentent un danger pour la bonté ; seule l’incurie la sauve. Ayant choisi le flegme de l’imbécile et l’apathie de l’ange, je me suis exclu des actes et, comme la bonté est incompatible avec la vie, je me suis décomposé pour être bon. »
Breviário da Decomposição
Teoria da Bondade
Teoria da Bondade
“Dado que para você não há critério último nem princípio irrevogável, e nenhum deus, o que te impede de perpetrar todos os crimes?”
“Descubro em mim tanto mal quanto em qualquer outro, mas, execrando a ação – mãe de todos os vícios – não sou causa de sofrimento para ninguém. Inofensivo, sem avidez, e sem energia suficiente nem indecência para afrontar os outros, deixo o mundo tal qual o encontrei. Vingar-se pressupõe uma vigilância de todos os instantes e um espírito de sistema, uma continuidade custosa, ao passo que a indiferença do perdão e do desprezo torna as horas agradavelmente vazias. Todas as morais representam um perigo para a bondade; somente a incúria a salva. Tendo escolhido o fleuma do imbecil e a apatia do anjo, privei-me das ações e, como a bondade é incompatível com a vida, eu me decompus para ser bom.”
“Descubro em mim tanto mal quanto em qualquer outro, mas, execrando a ação – mãe de todos os vícios – não sou causa de sofrimento para ninguém. Inofensivo, sem avidez, e sem energia suficiente nem indecência para afrontar os outros, deixo o mundo tal qual o encontrei. Vingar-se pressupõe uma vigilância de todos os instantes e um espírito de sistema, uma continuidade custosa, ao passo que a indiferença do perdão e do desprezo torna as horas agradavelmente vazias. Todas as morais representam um perigo para a bondade; somente a incúria a salva. Tendo escolhido o fleuma do imbecil e a apatia do anjo, privei-me das ações e, como a bondade é incompatível com a vida, eu me decompus para ser bom.”
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Uma nota eleitoral
É com imensa tristeza que acompanho os rumos da política no Brasil. Ainda criança, lembro-me de assistir à posse de Collor ao lado de meu pai, que, sempre impaciente, foi incapaz de me explicar a importância daquele evento. Àquela altura, não sabia dimensionar o que acontecia, mas, desde então, a política passou a me interessar, em especial pelo fato de residir ao lado de uma grande favela. O incômodo pela pobreza, pela desigualdade e violência, é uma marca indelével que carrego comigo, donde meu anseio em conhecer um mundo justo.
Admito com franqueza, portanto, uma especial atenção para o problema da distribuição de renda. Considero inadmissível que tenhamos um único cidadão na miséria e não consigo conceber como aceitamos que milhões (ou mais de um bilhão, se pensarmos no globo) sobrevivam abaixo do limiar da dignidade. Dessa perspectiva, parece-me relevante, em cada processo eleitoral, rastrear onde se encontram as forças sociais que pendem para a concentração de riqueza, poder e influência.
Além disso, sinto-me seguro em dizer que a separação entre estado e religião é salutar, que se trata de uma verdadeira conquista da modernidade, embora nunca tenha sido levada a cabo plenamente. Julgo-a salutar, dentre outras razões, porque a religião – se observarmos a história – sempre esteve à mercê de líderes radicais ou de convicções que conduzem à intolerância e à guerra. Lembremos apenas as disputas entre católicos e protestantes e quanto sangue ela fez correr, quanto sangue inútil derramou. Se desejamos estar protegidos dos excessos que os fanáticos não cansam de reavivar, é preciso que o poder político se mantenha isento quanto às questões de fé.
Isso significa que o estado de direito não pode legitimamente penetrar o reduto sagrado das crenças íntimas: é tirania coagir cidadãos a crer ou descrer de seu Deus e seus dogmas. Todavia, o estado também não pode voltar suas costas para a realidade e omitir-se perante o que de fato acontece. Quando se fala em aborto, em direitos civis, em pesquisas com células-tronco, fala-se em questões que afligem a sociedade e que devem ser solucionadas política e não religiosamente. Ninguém pretende tornar o aborto obrigatório, exigir que todos se casem com pessoas do mesmo sexo ou deixar que os cientistas usem células-tronco para se divertir em laboratórios. Muito pelo contrário. A verdadeira questão, agora mais do que nunca, é a liberdade e a responsabilidade.
Sendo assim, penso que o debate político e a discussão de programas de governo, sobretudo no tocante à desigualdade econômico-social, não devem ser obscurecidos por meio de referências sensacionalistas a artigos de fé. É preciso que as análises se façam com a racionalidade possível e com o mínimo apelo às paixões. É do diálogo aberto que precisamos, não de subterfúgios retóricos e estratagemas eleitoreiros. No entanto, se cumpre fazer apelo à religião, penso que devemos recordar a profecia de Isaías: não haverá paz enquanto não houver justiça (Is. 32:17), profecia que manteve e manterá sempre acesa a chama da esperança e da luta daqueles que almejam um Brasil para todos.
Admito com franqueza, portanto, uma especial atenção para o problema da distribuição de renda. Considero inadmissível que tenhamos um único cidadão na miséria e não consigo conceber como aceitamos que milhões (ou mais de um bilhão, se pensarmos no globo) sobrevivam abaixo do limiar da dignidade. Dessa perspectiva, parece-me relevante, em cada processo eleitoral, rastrear onde se encontram as forças sociais que pendem para a concentração de riqueza, poder e influência.
Além disso, sinto-me seguro em dizer que a separação entre estado e religião é salutar, que se trata de uma verdadeira conquista da modernidade, embora nunca tenha sido levada a cabo plenamente. Julgo-a salutar, dentre outras razões, porque a religião – se observarmos a história – sempre esteve à mercê de líderes radicais ou de convicções que conduzem à intolerância e à guerra. Lembremos apenas as disputas entre católicos e protestantes e quanto sangue ela fez correr, quanto sangue inútil derramou. Se desejamos estar protegidos dos excessos que os fanáticos não cansam de reavivar, é preciso que o poder político se mantenha isento quanto às questões de fé.
Isso significa que o estado de direito não pode legitimamente penetrar o reduto sagrado das crenças íntimas: é tirania coagir cidadãos a crer ou descrer de seu Deus e seus dogmas. Todavia, o estado também não pode voltar suas costas para a realidade e omitir-se perante o que de fato acontece. Quando se fala em aborto, em direitos civis, em pesquisas com células-tronco, fala-se em questões que afligem a sociedade e que devem ser solucionadas política e não religiosamente. Ninguém pretende tornar o aborto obrigatório, exigir que todos se casem com pessoas do mesmo sexo ou deixar que os cientistas usem células-tronco para se divertir em laboratórios. Muito pelo contrário. A verdadeira questão, agora mais do que nunca, é a liberdade e a responsabilidade.
Sendo assim, penso que o debate político e a discussão de programas de governo, sobretudo no tocante à desigualdade econômico-social, não devem ser obscurecidos por meio de referências sensacionalistas a artigos de fé. É preciso que as análises se façam com a racionalidade possível e com o mínimo apelo às paixões. É do diálogo aberto que precisamos, não de subterfúgios retóricos e estratagemas eleitoreiros. No entanto, se cumpre fazer apelo à religião, penso que devemos recordar a profecia de Isaías: não haverá paz enquanto não houver justiça (Is. 32:17), profecia que manteve e manterá sempre acesa a chama da esperança e da luta daqueles que almejam um Brasil para todos.
sábado, 9 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Útil - Uma Palavra
Por uma série de razões, ando pensando sobre a noção de utilidade. Ela é uma velha conhecida da filosofia, que sempre teve de se posicionar frente à acusação de inutilidade. Há mais de dois milênios, não falta quem diga que só importa o que podemos empregar na vida cotidiana, instrumentalizar de modo a conseguir alguma coisa de prático e vantajoso. Filosofia não mata a fome, não erige casas, não conserta a torneira, não extrai edemas, não aquece o corpo... A filosofia – não!
Acontece, contudo, que temos fome para além da comida, buscamos proteção para além das paredes, sentimos dores que não são do corpo, tememos um desamparo que penetra o lar. Basta nos permitirmos uma pausa e rapidamente nos apercebemos que a vida ultrapassa em muito as necessidades imediatas. Para viver bem, é insuficiente ater-se à satisfação dos anseios diretos e urgentes. Que o digam os abonados, senhores do tédio e fastio!
Se o pão, se o tijolo, se o martelo e mesmo o ouro têm valor, seu valor é o de instrumento. Eles nos permitem tocar os dias: são muitos úteis, portanto, mas apenas para pôr ordem na coxia do cotidiano e dar ensejo ao que se passa no palco. O fundamental não são as ferramentas, nem a preparação que antecede a abertura das cortinas. É a peça: a peça sem roteiro, sem marcas e sem direção em que dia a dia se desvela a história de nossos cacos.
Acontece, contudo, que temos fome para além da comida, buscamos proteção para além das paredes, sentimos dores que não são do corpo, tememos um desamparo que penetra o lar. Basta nos permitirmos uma pausa e rapidamente nos apercebemos que a vida ultrapassa em muito as necessidades imediatas. Para viver bem, é insuficiente ater-se à satisfação dos anseios diretos e urgentes. Que o digam os abonados, senhores do tédio e fastio!
Se o pão, se o tijolo, se o martelo e mesmo o ouro têm valor, seu valor é o de instrumento. Eles nos permitem tocar os dias: são muitos úteis, portanto, mas apenas para pôr ordem na coxia do cotidiano e dar ensejo ao que se passa no palco. O fundamental não são as ferramentas, nem a preparação que antecede a abertura das cortinas. É a peça: a peça sem roteiro, sem marcas e sem direção em que dia a dia se desvela a história de nossos cacos.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Citação VI: Manuel Bandeira
Preparação para a Morte
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
domingo, 12 de setembro de 2010
Pensativamente
Acalento há muito tempo uma idéia que acho curiosa: pensar com o pé. É que pensamos muito, calculamos demais as coisas, especulamos em demasia as possibilidades, mas só com a cabeça. E o mundo parece não estar progredindo a contento... Será que não é chegado o momento de encetarmos novas formas de refletir?
Pensar com o pé, por exemplo, pode ser muito produtivo, a começar pelo fato de que levaríamos em conta o chão que pisamos, a cidade que habitamos, as pessoas com quem convivemos, coisas que muitas vezes deixamos de lado. Pensando com a cabeça, viajamos, vamos longe, como se diz, e esquecemos do que está próximo. Alcançamos o universal e tropeçamos no particular, que é nossa inevitável morada.
Quando comentei essa história com um colega, nos idos da universidade, ele ironizou. “Além da cabeça, só penso com a barriga. E ela ainda fala: ronc!, quando está com fome!” Dessa mesma época, lembro-me de um livro sobre Rodin que continha um elogio às mãos. Fiquei tocado: era outra forma de pensar, pensar com as mãos. Atualmente, tenho tentado enriquecer minha idéia original, acompanhando notícias da nossa sociedade. Todavia, tenho dúvidas se pensar com os músculos, à moda dos pit-boys, ou com a bunda, como as dançarinas & cia cada vez menos limitada, é mesmo pensar...
Certo é que jamais deixaremos de pensar. Mas também é certo que precisamos fazê-lo diferente. Está posta minha sugestão: pensar com o pé. Sei que soa estranho, mas acredito que merece consideração. Minha aposta é de que assim pensaremos melhor do que só com a cabeça e ainda teremos um antídoto a outro problema talvez ainda mais comum: pensar com o umbigo.
Pensar com o pé, por exemplo, pode ser muito produtivo, a começar pelo fato de que levaríamos em conta o chão que pisamos, a cidade que habitamos, as pessoas com quem convivemos, coisas que muitas vezes deixamos de lado. Pensando com a cabeça, viajamos, vamos longe, como se diz, e esquecemos do que está próximo. Alcançamos o universal e tropeçamos no particular, que é nossa inevitável morada.
Quando comentei essa história com um colega, nos idos da universidade, ele ironizou. “Além da cabeça, só penso com a barriga. E ela ainda fala: ronc!, quando está com fome!” Dessa mesma época, lembro-me de um livro sobre Rodin que continha um elogio às mãos. Fiquei tocado: era outra forma de pensar, pensar com as mãos. Atualmente, tenho tentado enriquecer minha idéia original, acompanhando notícias da nossa sociedade. Todavia, tenho dúvidas se pensar com os músculos, à moda dos pit-boys, ou com a bunda, como as dançarinas & cia cada vez menos limitada, é mesmo pensar...
Certo é que jamais deixaremos de pensar. Mas também é certo que precisamos fazê-lo diferente. Está posta minha sugestão: pensar com o pé. Sei que soa estranho, mas acredito que merece consideração. Minha aposta é de que assim pensaremos melhor do que só com a cabeça e ainda teremos um antídoto a outro problema talvez ainda mais comum: pensar com o umbigo.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Jornalístico II
“A tabela periódica deve ficar maior: três laboratórios independentes criaram átomos com 114 prótons em seu núcleo. Em 1999, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Nuclear em Dubna, Rússia, afirmaram ter criado átomos do elemento 114. Mas não havia confirmação independente. Agora, dois outros laboratórios também conseguiram fabricar o elemento. (...) As propriedades químicas do elemento 114 ainda são uma incógnita. O elemento pode ser tanto um gás nobre quanto um metal dependendo de seu comportamento.” (New Scientist/ Folha online 24/06/2010 às 18h)
É engenhosa a inteligência humana. Ela inventa coisas: a música, a roda, a guerra, a verdade, a panela, o chinelo... E agora resolveu criar também mais um elemento químico. Será que não bastavam aqueles outrora descobertos e os poucos já sintetizados? Velhos tempos os dos alquimistas, que buscavam o auto-conhecimento na simbólica transformação do ouro em chumbo!
– Mendeleiev, adicionai mais um!, devem comemorar, com um brinde de vodka, os cientistas que primeiro fundiram o cálcio (Z 20) ao plutônio (Z 94).
– Que conquista!, dirão os leitores dos jornais, desorientados como bêbados, mas estupefatos com mais um prodígio feito em laboratório.
Surpresa maior, porém, é não saber o que é esse elemento. Um gás nobre? Um metal? Como assim? Como poderia ser ele duas coisas tão opostas? Não existe uma contradição? E, ademais, se podemos criá-lo, como não saber o que é? Fabricamos um micro Frankenstein? Há que esperar seu comportamento, respondem laconicamente os químicos, que também ainda não sabem que nome lhe dar.
Curioso esse elemento 114. Conhecemos seu núcleo, realizamos sua síntese, dominamos a essência de sua estrutura; contudo, não sabemos o que vem a ser. Imprevisível, ele é um paradoxo. Que tal chamá-lo... humano?
É engenhosa a inteligência humana. Ela inventa coisas: a música, a roda, a guerra, a verdade, a panela, o chinelo... E agora resolveu criar também mais um elemento químico. Será que não bastavam aqueles outrora descobertos e os poucos já sintetizados? Velhos tempos os dos alquimistas, que buscavam o auto-conhecimento na simbólica transformação do ouro em chumbo!
– Mendeleiev, adicionai mais um!, devem comemorar, com um brinde de vodka, os cientistas que primeiro fundiram o cálcio (Z 20) ao plutônio (Z 94).
– Que conquista!, dirão os leitores dos jornais, desorientados como bêbados, mas estupefatos com mais um prodígio feito em laboratório.
Surpresa maior, porém, é não saber o que é esse elemento. Um gás nobre? Um metal? Como assim? Como poderia ser ele duas coisas tão opostas? Não existe uma contradição? E, ademais, se podemos criá-lo, como não saber o que é? Fabricamos um micro Frankenstein? Há que esperar seu comportamento, respondem laconicamente os químicos, que também ainda não sabem que nome lhe dar.
Curioso esse elemento 114. Conhecemos seu núcleo, realizamos sua síntese, dominamos a essência de sua estrutura; contudo, não sabemos o que vem a ser. Imprevisível, ele é um paradoxo. Que tal chamá-lo... humano?
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Incerta Madrugada
É tarde para um homem de labor.
Sou eu, porém, quem resiste ao sono.
Só com o vinho,
que nunca me traiu,
divago
entregue à escuridão.
Estrelas tênues, meus olhos cintilam,
mas nada vêem nem iluminam
– luz de cinzas.
(O presente é eterno e oco.)
A noite adentra o silêncio
e as cigarras zunem, solitárias.
Musas telúricas,
seu canto é mudo, não me revela sinais.
Sou eu, porém, quem resiste ao sono.
Só com o vinho,
que nunca me traiu,
divago
entregue à escuridão.
Estrelas tênues, meus olhos cintilam,
mas nada vêem nem iluminam
– luz de cinzas.
(O presente é eterno e oco.)
A noite adentra o silêncio
e as cigarras zunem, solitárias.
Musas telúricas,
seu canto é mudo, não me revela sinais.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
sábado, 31 de julho de 2010
Atentada Tradução VII: Laura Riding
To One About To Become My Friend
Stand off!I am stone.
You must tear your flesh to excavate my heart.
I am storm.
None can rest with me.
I am mountain.
Toil to the top, be there a solitary.
I am ice.
You must be frozen that I be melted.
I am sea.
I would not give you up again.
If this frightens you,
Stand off! Stand off!
Yet, would you be my friend,
I should be none of these to you.
Para Alguém Prestes a Tornar-se Meu Amigo
Para trás!Sou pedra.
Tu tens de rasgar tua carne para escavar meu peito.
Sou tempestade.
Ninguém descansa comigo.
Sou montanha.
Vence o topo e torna-te um solitário.
Sou gelo.
Tu tens de congelar para que eu derreta.
Sou mar.
Não te daria a superfície.
Se isso te amedronta,
Para trás! Para trás!
Contudo, se fores meu amigo,
Nada disso te serei.
domingo, 18 de julho de 2010
Infância
Penso que não é causar escândalo dizer que a infância não existe. Reconheço, claro, a distensão temporal que compreende os primeiros anos de nossas vidas, mas não é a ela que me refiro. Refiro-me à forma como, já adultos, normalmente voltamos os olhos para nossos anos de meninice, na forma como tendemos a pintá-los com cores fortes e imaginárias, transformando a infância em algo bem diferente daquilo que foi.
Uma criança não sabe o que é a infância. Ela não se pergunta sobre a fase que atravessa, não se preocupa em atribuir-lhe sentido. A criança apenas vive. É o adulto que a elabora e, marcado pelas experiências que o tempo lhe legou, constrói-a em contraste com a madureza e as dores inerentes à maioridade. Trata-se de um movimento análogo ao da religião: inventamos um paraíso do qual decaímos e que jamais existiu.
A infância é criação de adulto, cunhada quando se percebe que os desejos mais profundos não se concretizaram nem se concretizarão, que os sonhos foram frustrados, que o decorrer do tempo ceifou as esperanças. Consciente da rudez do real e premido pela nostalgia, o adulto refaz o passado a fim de justificar a própria existência, como quem quer provar que ao menos algo valeu a pena. Adultos que somos, lançamos sobre a infância os faróis da memória e da fantasia para transfigurá-la numa história fantástica, como se, alçando-a à categoria do idílico, pudéssemos redimir tudo que a vida nos tolheu, como se, com uma pequena luz, pudéssemos iluminar o breu. PS: E quantas infâncias não temos...
Uma criança não sabe o que é a infância. Ela não se pergunta sobre a fase que atravessa, não se preocupa em atribuir-lhe sentido. A criança apenas vive. É o adulto que a elabora e, marcado pelas experiências que o tempo lhe legou, constrói-a em contraste com a madureza e as dores inerentes à maioridade. Trata-se de um movimento análogo ao da religião: inventamos um paraíso do qual decaímos e que jamais existiu.
A infância é criação de adulto, cunhada quando se percebe que os desejos mais profundos não se concretizaram nem se concretizarão, que os sonhos foram frustrados, que o decorrer do tempo ceifou as esperanças. Consciente da rudez do real e premido pela nostalgia, o adulto refaz o passado a fim de justificar a própria existência, como quem quer provar que ao menos algo valeu a pena. Adultos que somos, lançamos sobre a infância os faróis da memória e da fantasia para transfigurá-la numa história fantástica, como se, alçando-a à categoria do idílico, pudéssemos redimir tudo que a vida nos tolheu, como se, com uma pequena luz, pudéssemos iluminar o breu. PS: E quantas infâncias não temos...
domingo, 4 de julho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Citação V: Mario Quintana
Conta-se que em fins do século passado, num remoto país do Oriente, a viagem da capital à fronteira levava nada menos que trinta dias, e ainda por cima a lombo de camelo. E sucedeu que um engenheiro britânico ali residente, em nome do progresso, resolveu remediar a coisa.
– Enfim – conclui ele, após uma audiência com o respectivo xá, ou coisa que o valha –, construindo-se a estrada de ferro de que o país tanto necessita, a viagem até a fronteira poderá ser feita em um só dia!
– Mas – objetou o velho monarca, que o ouvira com uma paciência verdadeiramente oriental – o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?!
– Enfim – conclui ele, após uma audiência com o respectivo xá, ou coisa que o valha –, construindo-se a estrada de ferro de que o país tanto necessita, a viagem até a fronteira poderá ser feita em um só dia!
– Mas – objetou o velho monarca, que o ouvira com uma paciência verdadeiramente oriental – o que é que a gente vai fazer dos vinte e nove dias que sobram?!
terça-feira, 15 de junho de 2010
Jornalístico
graças a Moacyr Scliar
para os amigos professores
“A Polícia Militar do Pará vai abrir procedimento administrativo para identificar os policiais envolvidos em um vídeo postado no último sábado no You Tube. Nas imagens, os policiais fazem adolescentes apreendidos dançarem o hit baiano “Rebolation”. Para a PM, as imagens constrangem toda a tropa e a ação será punida. No vídeo, três adolescentes aparecem com as mãos para cima, encostados numa parede. Um dos policiais diz que vai gravar os três dançando o Rebolation e prepara o celular para a gravação. Os próprios PMs cantam a música e mandam que os adolescentes dancem. Durante a gravação, mandam os meninos sorrirem.” (CBN, O Globo, 01/06/2010 às 8:16)
Espancamentos e humilhações eles nunca aceitaram. Contudo, nunca se iludiram: eram minoria. E minoria mesmo. Tanto na corporação quanto na sociedade. O usual é bater, maltratar, deixar bem claro para o bandido (mesmo quando é só suspeito) quem manda e quem deve obedecer. Ainda mais em casos nos quais se lida com jovens, que, como todo mundo sabe, estão super-protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O certo – quem há de negar? – é logo dar uma sova para o garoto ficar esperto e tomar vergonha na cara.
Acontece que aquele pequeno grupo, que se recusava a espancar e humilhar, não partilhava desse ponto de vista. A truculência é nociva: deseduca e revolta. Se vivemos numa sociedade excludente, que produz e alimenta brutalidades, o que se precisa é do contrário. Como água sobre o fogo, deve-se combater a grosseria com a delicadeza. Era este seu princípio: nunca alimentar as chamas, mas extingui-las com seu exato oposto, mesmo que isso exigisse pulso firme.
Foi assim até o dia em que tiveram sua ação flagrada, ou melhor, gravada e lançada na internet. Naquela ocasião, tendo em mãos três jovens, eles fizeram o seguinte, como revelou o vídeo: na delegacia, puseram-nos sentados numa mesa bem arrumada, deram-lhes lanche e os obrigaram a ouvir Beatriz à exaustão, sempre na voz de Milton Nascimento. Depois, levaram-nos para fora, junto a um jardim de azaléias, e exigiram que cantassem a música. Os dois que erraram a letra tiveram de abrir ao léu o Viagem da Cecília Meireles e decorar o primeiro poema da página. Aquele pequeno grupo de policiais fazia tudo com rigor para não perder a autoridade, mas com cuidado e finura, embora se ouvisse uma ou outra invectiva.
Um verdadeiro crime, como disse o presidente da ordem dos advogados numa entrevista na TV, já que o episódio causou espécie. “Donde já se viu submeter jovens a isso? Subjugar, torturar psicologicamente? É preciso que se abra um processo administrativo, que se faça valer a constituição!” Não demorou para que os policiais, reconhecidos, fossem afastados de suas funções. Afinal de contas, não se pode coagir ninguém a nada, nem à beleza. Legal é só a detenção, o julgamento, a prisão.
Espancamentos e humilhações eles nunca aceitaram. Contudo, nunca se iludiram: eram minoria. E minoria mesmo. Tanto na corporação quanto na sociedade. O usual é bater, maltratar, deixar bem claro para o bandido (mesmo quando é só suspeito) quem manda e quem deve obedecer. Ainda mais em casos nos quais se lida com jovens, que, como todo mundo sabe, estão super-protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O certo – quem há de negar? – é logo dar uma sova para o garoto ficar esperto e tomar vergonha na cara.
Acontece que aquele pequeno grupo, que se recusava a espancar e humilhar, não partilhava desse ponto de vista. A truculência é nociva: deseduca e revolta. Se vivemos numa sociedade excludente, que produz e alimenta brutalidades, o que se precisa é do contrário. Como água sobre o fogo, deve-se combater a grosseria com a delicadeza. Era este seu princípio: nunca alimentar as chamas, mas extingui-las com seu exato oposto, mesmo que isso exigisse pulso firme.
Foi assim até o dia em que tiveram sua ação flagrada, ou melhor, gravada e lançada na internet. Naquela ocasião, tendo em mãos três jovens, eles fizeram o seguinte, como revelou o vídeo: na delegacia, puseram-nos sentados numa mesa bem arrumada, deram-lhes lanche e os obrigaram a ouvir Beatriz à exaustão, sempre na voz de Milton Nascimento. Depois, levaram-nos para fora, junto a um jardim de azaléias, e exigiram que cantassem a música. Os dois que erraram a letra tiveram de abrir ao léu o Viagem da Cecília Meireles e decorar o primeiro poema da página. Aquele pequeno grupo de policiais fazia tudo com rigor para não perder a autoridade, mas com cuidado e finura, embora se ouvisse uma ou outra invectiva.
Um verdadeiro crime, como disse o presidente da ordem dos advogados numa entrevista na TV, já que o episódio causou espécie. “Donde já se viu submeter jovens a isso? Subjugar, torturar psicologicamente? É preciso que se abra um processo administrativo, que se faça valer a constituição!” Não demorou para que os policiais, reconhecidos, fossem afastados de suas funções. Afinal de contas, não se pode coagir ninguém a nada, nem à beleza. Legal é só a detenção, o julgamento, a prisão.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Onírico II
Era setembro. Não te conhecia, embora soubesse de sua chegada. Você vinha de longe, como eu, arriscar a vida no desconhecido. Nunca nos havíamos visto, mas um anseio, uma profissão, um desejo incerto – alguns laços já nos uniam. Era o mistério. Sua mudança efetivou-se. Conhecemo-nos na casa de amigas e o trabalho cuidou de nos aproximar. Também a distância de tudo e todos. Era outubro. Houve um show à margem do rio. Bebemos, rimos, dançamos. Beijamo-nos. Compartilhamos a noite. Era o começo. Dormi nos seus braços e acordei para sempre.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Resposta
Surpreende-me a demanda que freqüentemente chega até mim por parte de meus alunos. “Mas qual é a resposta, professor?” “Não gosto de assuntos que não têm uma resposta exata.” Em classe, contenho-me, mas, entre amigos, confesso sem pestanejar: escuto com tristeza esse tipo de comentário. E a razão é simples: soa-me uma exigência absurda, uma demanda indigna – o que, na vida, possui uma resposta definitiva? Enfrentando a morte, procurando o sentido para a existência, perguntando-se o que é o amor, quem jamais encontrou a resposta final?
Reconheço que um anseio dessa natureza, o anseio pela resolução, seja recorrente, mas não consigo julgá-lo doutro modo exceto como tolo. Mais do que isso, julgo-o reflexo de uma incompreensão da vida. Quem, com sinceridade, poderia dizer que, ao observar o mundo, alcançou algo seguro, exato, permanente? É preciso lembrar que tudo está em movimento, que a mudança é a única realidade? E, se assim é, donde esse ímpeto pela fixidez?
Como professor, nada me resta senão acolher os estudantes e buscar introduzi-los, tanto quanto possível, no universo da incerteza, nossa única morada. Filósofo, repilo a brutal ignorância que é relutar contra a dúvida fundamental de todas as coisas, que é querer uma solução para as grandes questões da vida. Temos de aprender a navegar sobre as águas da perplexidade e do paradoxo, pois o essencial permanece sempre irrespondido. Para as grandes perguntas, a única resposta honesta é que resposta não há.
Reconheço que um anseio dessa natureza, o anseio pela resolução, seja recorrente, mas não consigo julgá-lo doutro modo exceto como tolo. Mais do que isso, julgo-o reflexo de uma incompreensão da vida. Quem, com sinceridade, poderia dizer que, ao observar o mundo, alcançou algo seguro, exato, permanente? É preciso lembrar que tudo está em movimento, que a mudança é a única realidade? E, se assim é, donde esse ímpeto pela fixidez?
Como professor, nada me resta senão acolher os estudantes e buscar introduzi-los, tanto quanto possível, no universo da incerteza, nossa única morada. Filósofo, repilo a brutal ignorância que é relutar contra a dúvida fundamental de todas as coisas, que é querer uma solução para as grandes questões da vida. Temos de aprender a navegar sobre as águas da perplexidade e do paradoxo, pois o essencial permanece sempre irrespondido. Para as grandes perguntas, a única resposta honesta é que resposta não há.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Onírico
Quando o sol está para nascer
e o orvalho ainda cobre a grama,
a criança desfruta do sonho
de que não se lembrará.
Ela brinca de bola
com amigos desconhecidos
num campo amplo, aberto como a infância.
Seus risos e gritos somam-se aos de seus companheiros
na dança incessante dos corpos de éter.
Nela, como nos outros,
o suor banha o rosto,
o movimento é ágil e leve,
fruto espontâneo dos passos sem cálculo.
Todos os meninos estão absortos
– ninguém olha o longe,
ninguém pensa em ser feliz –
e os pés não cansam de buscar o drible
no jogo – perfeito – em que é desnecessário vencer.
Neste instante, no qual toda a sede
é sede de brincar,
a criança nem desconfia
do que a vigília lhe ensinará:
o sonho é expressão da vida
e sua mais nítida contradição.
e o orvalho ainda cobre a grama,
a criança desfruta do sonho
de que não se lembrará.
Ela brinca de bola
com amigos desconhecidos
num campo amplo, aberto como a infância.
Seus risos e gritos somam-se aos de seus companheiros
na dança incessante dos corpos de éter.
Nela, como nos outros,
o suor banha o rosto,
o movimento é ágil e leve,
fruto espontâneo dos passos sem cálculo.
Todos os meninos estão absortos
– ninguém olha o longe,
ninguém pensa em ser feliz –
e os pés não cansam de buscar o drible
no jogo – perfeito – em que é desnecessário vencer.
Neste instante, no qual toda a sede
é sede de brincar,
a criança nem desconfia
do que a vigília lhe ensinará:
o sonho é expressão da vida
e sua mais nítida contradição.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Clausura
…e somos de repente uns falsos acordados.
Cecília Meireles
Cecília Meireles
Platão e Aristóteles diziam que a filosofia se inicia com o espanto, que o pensamento se instaura a partir de uma admiração ou surpresa que desarranja nossa visão de mundo e nos impele a reelaborá-la. Posto em xeque o universo dentro do qual sempre vivemos, somos conduzidos, segundo eles, ao caminho da reflexão, como quem busca reavaliar os marcos que balizam as fronteiras do próprio espírito.
É uma empreitada árdua, ninguém há de negar. Muito mais fácil é lançar sob o tapete, tentando abafar com o esquecimento, uma experiência que aponta para o novo, para algo que nunca antes havíamos considerado, para a necessidade de abandonar a zona de conforto que tradicionalmente nos protegeu e, exatamente por isso, nos impediu de crescer. Muito mais fácil é não correr riscos, abrigar-se no discurso do medo e do cuidado, quando precisa-se de coragem para a ruptura.
A verdade é que estamos conformados e, pior, perdemos a abertura para buscar novas formas. Andamos muito comodistas, satisfeitos com as vidinhas que temos e com as fabulações que tomamos por idéias. Se o espanto é realmente a origem da filosofia, como dizem os antigos, não é à toa que vivemos numa época em que se pensa tão pouco. Nada nos comove. Nada nos espanta mais. É de estarrecer.
É uma empreitada árdua, ninguém há de negar. Muito mais fácil é lançar sob o tapete, tentando abafar com o esquecimento, uma experiência que aponta para o novo, para algo que nunca antes havíamos considerado, para a necessidade de abandonar a zona de conforto que tradicionalmente nos protegeu e, exatamente por isso, nos impediu de crescer. Muito mais fácil é não correr riscos, abrigar-se no discurso do medo e do cuidado, quando precisa-se de coragem para a ruptura.
A verdade é que estamos conformados e, pior, perdemos a abertura para buscar novas formas. Andamos muito comodistas, satisfeitos com as vidinhas que temos e com as fabulações que tomamos por idéias. Se o espanto é realmente a origem da filosofia, como dizem os antigos, não é à toa que vivemos numa época em que se pensa tão pouco. Nada nos comove. Nada nos espanta mais. É de estarrecer.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Atentada Tradução VI: Baudelaire
Petits Poèmes en Prose
XXXIII – Enivrez-vous
XXXIII – Enivrez-vous
Il faut être toujours ivre. Tout est là : c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi ? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront : « Il est l’heure de s’enivrer ! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. »
Mais de quoi ? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront : « Il est l’heure de s’enivrer ! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. »
Pequenos Poemas em Prosa
XXXIII – Inebriai-vos
XXXIII – Inebriai-vos
É preciso estar sempre ébrio. Tudo se resume a isso: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que abate vossos ombros e vos verga em direção à terra, é preciso inebriar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas inebriai-vos.
E se às vezes, sobre os caminhos do palácio, sobre a erva verde de um canal, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a ebriedade já diminuída ou extinta, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que gemi, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de se inebriar! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, inebriai-vos; inebriai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas inebriai-vos.
E se às vezes, sobre os caminhos do palácio, sobre a erva verde de um canal, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a ebriedade já diminuída ou extinta, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que gemi, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de se inebriar! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, inebriai-vos; inebriai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”
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