quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Beijinho no ombro


pra Lu Ubaldo,
como quem sai pra comprar pão

Nunca acompanhei a carreira da Valesca Popozuda, mas devo confessar que ela me é uma figura simpática. Não por sua atividade artística, que mal conheço, menos ainda por sua bunda, que dispensa comentários, mas por uma imagem – talvez falsa – de mulher liberada. Infelizmente, mulher falando abertamente de sexo é tabu, continua sendo, e por isso ela acaba por desempenhar uma função necessária. Além disso, quando vez ou outra defende posições favoráveis ao casamento gay, acentua sua veia liberal quanto aos costumes, o que é importante, sobretudo com o crescimento do fanatismo religioso no Brasil. Por outro lado, entretanto, sinto-me capaz de apontar elementos na sua imagem que não me agradam muito, mas isso seria irrelevante frente ao que sua nova canção me despertou.

Cá entre nós, li algumas vezes a letra de “Beijinho no ombro”, vi o vídeo na internet, e não consegui concatenar perfeitamente todos os versos. É certo que me falta o conhecimento contextual (por exemplo, de sua história como artista, do funk) para uma compreensão adequada, pois não posso supor que um clipe que, quando o procurei, havia sido visto por 8.989.335 pessoas possa ser tão enigmático como me pareceu. Felizmente, não pretendo fazer uma exegese da canção, não usarei meu tempo para tanto. Escrevo, porém, porque alguns versos me levaram a visualizar com clareza algo que há muito me incomoda e, dado que só sei pensar escrevendo, tive de vir ao papel.

Basicamente, o que me salta aos olhos na música é a oposição entre o sucesso e a inveja, ou melhor, é o fato de o eu lírico (posso usar esse termo?) se colocar na posição do êxito absoluto, ancorado na fé em Deus, e acreditar que as invejosas (perdedoras, como dizem os norte-americanos?) estão a todo tempo a observar seus passos. É como se, assim me parece, o eu lírico estivesse no centro do mundo, concentrasse todas as atenções e, mais do que isso, almejasse essa notoriedade, já que admite o desejo de que todas as inimigas tenham vida longa “pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória” (em meio à egolatria da letra, esse “nossa” é curioso. Nós quem? Ela e Deus?).

Acho muito interessante esse desejo de notoriedade, em especial quando acompanhado da crença de que as outras pessoas nos invejam. Pergunto: o que nossas vidas têm de invejável? Considero a minha tão comum, tão besta, tão arroz com feijão que não consigo conceber que ninguém queira estar em meu lugar, exceto talvez quem passe fome ou esteja desempregado. Pelas conquistas que julgo ter tido, umas poucas, duas ou três, se tanto, não nutro louvor e sinceramente acredito que são equivalentes às realizações de alguns amigos, as quais acompanhei com alegria. Não me coloco acima, também não me coloco abaixo. No fundo, acho nossas vidas muito semelhantes, vejo a miséria humana repartida em todas elas.

Ademais, ser invejado deve ser terrível, suponho eu, e não vejo mérito algum nisso. Se a franqueza me é permitida, acho extremamente tacanho alguém dizer que os outros lhe têm inveja. Isso implica se colocar acima, se julgar importante – e quem de fato o é? Todo esse papo de inveja, no entanto, revela o quanto, para muitos de nós, a vida anônima, simples, soa sem graça. Parece que é problema ser comum. Não é à toa que no clipe a Valesca Popozuda seja uma rainha e tenha uma águia no espaldar de seu trono e um tigre a seus pés. Um plebeu passeando com seu cachorro não chamaria atenção alguma. É preciso ser especial, superior, de preferência único! Ser comum é ser ninguém. Dá-lhe presunção! Como antídoto, será que vale lembrar Montaigne? “Por mais alto que seja o trono que ocupemos, sempre estaremos sentados sobre nosso cu.”

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Alteris Litteris

pra Xica

“Encontrei um emprego e perdi a mim mesmo”. Num primeiro momento, não me dei conta do que havia escrito. Só no dia seguinte, pensando na conversa que tive com um amigo que não via há tempos, espantei-me com a síntese que fiz dos últimos anos da minha vida. Como são perigosas essas conversas nas quais, em poucas palavras, tentamos resumir o fundamental do que se passou conosco! De repente, sem perceber, levantamos a espada e cortamos a própria cabeça.

Certa vez, um primo me disse: cheguei aos quarenta e nada se resolveu. Achei fascinante (óbvio, mas fascinante) e passei a gostar mais dele por causa disso. Eu me identifiquei: metade da vida se foi, as irresoluções permanecem e nós ainda a insistir no desejo de vê-las extintas. Não finco o pé no que vou dizer, mas creio que só nos tornamos adultos quando aceitamos que os problemas, ao menos os verdadeiros, são todos insolúveis e que é vão desesperar-se.

Contudo, confesso que frequentemente me pego fantasiando o sentimento de voltar ao passado e encontrar o ponto onde me perdi, onde os problemas começaram a brotar. Sei que não foi o emprego. Sei que não foi a formatura. Sei que não foi o casamento desfeito. No fundo, não há um ponto onde nos perdemos, ao qual poderíamos voltar para retificar o rumo, como se a certa altura da vida tivéssemos tomado o caminho errado. A fantasia é justamente supor que a vida teria um caminho certo e que, retrocedendo, teríamos a chance de nos reaprumar.

O fato é que estamos irremediavelmente perdidos, emaranhados em nossos problemas, irresoluções. A alternativa que nossa fantasia oferece é, num certo sentido, recobrar a infância. Impossível, evidentemente. É mais honesto rezar, parece-me, porque esperar uma solução milagrosa é um modo de admitirmos nossa fraqueza. A bem da verdade, porém, conceber a vida como um caminho talvez seja o nosso único e grande erro: a gente acaba encasquetando com a imagem do caminho certo e depois – o caso das mães é exemplar – nós já estamos a nos martirizar perguntando onde erramos, em que ponto nos perdemos. Ao invés de buscar nos encontrar, resolver de vez nossos problemas, talvez o que a gente precise mesmo é de novas metáforas para a vida.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Prazer

pra Cia Luna Lunera, na medida do possível
para nós, encharcados

Já cheguei a pensar que a solução para meus problemas era me casar. Constituir família, educar os filhos, ajudar na manutenção da casa, trabalhar para comprar um apartamento – todas essas responsabilidades me tomariam tempo, eu supunha, e acabariam por me desviar de minhas angústias, mergulhando-me numa vida sem maiores inquietações. Entretanto, logo vi que isso era bobagem. (E, se não me casei, foi por outras razões.) Não acredito mais que seja possível viver sem angústias. Melhor: já não acredito que seja possível viver bem sem angústias e, mais do que me livrar delas, sei hoje que o desafio é lidar com elas. Num certo sentido, como tantas vezes se ouve por aí, o negócio é “viver, apesar dos pesares”, “viver, apesar de”.

Esse me parece ser o mote da peça “Prazer” da Companhia Luna Lunera cuja estréia no CCBB-BH se deu há duas ou três semanas. Os quatro personagens, amigos de anos, encontram-se num apartamento para relembrar e reviver suas histórias, compartilhar intimidades. À medida que os diálogos se desenrolam, borrando as fronteiras do tempo e do espaço, os personagens começam a revelar suas inseguranças, desencontros, irrealizações, medos. A um olhar menos condescendente, tudo talvez pareça angústia-classe-média, de quem tem emprego e bom salário (um dos personagens é médico) e, não obstante, vê-se insatisfeito com a vida. Será? Não, claro que não. Sofrimento, mesmo imaginário, é sofrimento (ou é só soco no estômago que dói?). De mais a mais, a maior angústia dos personagens – e de tantos de nós – é o hiato que sentimos haver entre a vida que levamos e a que gostaríamos de levar.

No amor, no sexo, no trabalho, na família, talvez até na amizade, quantos de nós não percebem um descompasso entre o que somos e o que poderíamos ser? E quem, percebendo esse descompasso, não sente um desejo sôfrego pela vida? Um ímpeto de correr como um cavalo? De pular no abismo? De se jogar no mar, até de beber da sua água, como se assim incorporássemos o infinito que almejamos? Um impulso para ser o que não somos e que, ao mesmo tempo, sentimos como sendo nosso eu mais verdadeiro?

A angústia dos personagens que, como nós, buscam uns viajar pelo mundo, outros ater-se ao trabalho, uns prender-se às miudezas do cotidiano, outros à espera da amada, é a uma angústia trágica porque decorre de uma cisão: nunca chegaremos a ser aquilo que não somos e que gostaríamos de ser. O nosso eu verdadeiro, a felicidade, a vida realizada não passam de ilusão. Sofremos, portanto, em primeiro lugar e acima de tudo, por causa da imaginação, por propormos a nós mesmos ideais inalcançáveis, frente aos quais nossas vidas se revelam mesquinhas; nossas vivências, menores.

Somos todos homens e mulheres partidos, partidos por nossas próprias mãos e tanto mais quanto somos assombrados pela morte, pela consciência do tempo que nos falta e faltará. Desejamos ardentemente a vida e, assim, somos consumidos pela angústia e pela culpa por não sermos o que cremos ser. Alguns de nós chegam ao desespero e tal é a sede pela vida, pela vida em máximo grau, que o suicídio torna-se tentador (Cioran: é preciso estar ávido pelo absoluto para considerar o suicídio). Como o 0 e o 360, o impulso pela vida encontra-se com o desejo pela morte.

Na nova peça da Cia Luna Lunera, nenhum dos personagens se mata, mas todos bem poderiam ter se matado ou flertado mais claramente com a morte, como o médico. A angústia, a dilaceração pela distância entre a vida vivida e a vida almejada, entre o que eu sou e o que eu supostamente poderia ser, dá o tom da montagem e leva à pergunta: há saída?

Nos minutos finais do espetáculo, cuja duração total é cerca de uma hora e quarenta, os personagens parecem encontrar uma alternativa. No ápice da angústia, quando nada mais parece fazer sentido, ocorre uma guinada afirmativa – um Sim à vida – capitaneado pelo médico, o personagem mais assombrado pela morte (Hölderlin: onde mora o perigo, cresce também a salvação). O final da peça é uma epifania, quase uma redenção, mas que está longe de se reduzir a uma apologia do prazer. “Prazer”, o nome que foi dado ao espetáculo, pode levar a engano quem não percebe que querer uma vida sem dor é querer o impossível e querer o impossível é negar a vida.

Não, não nos livraremos da angústia se nos casarmos ou, pior, se nos esbaldarmos nos prazeres. Nada disso adianta. Se há alternativa que não seja a morte, é aceitar a vida como um todo e saber dançar conforme a música, se entregar à chuva – do céu ou de mangueira – quando molhar-se é inevitável.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Marcha das Vadias


com muito atraso, mas ainda pro Fefi e Júlio

Pela primeira vez, estive na Marcha das Vadias. Acho que todo mundo sabe desse movimento que começou no Canadá quando, depois de uma série de estupros num campus universitário, um policial disse que a responsabilidade pela violência também cabia às mulheres que se vestiam como sluts (putas, vagabundas ou, na tradução que vingou, vadias). Como se vê, não é só nas bandas de cá, onde a educação é tratada como mulher de malandro, que se pensam – e falam – essas bobagens. Ultimamente, aliás, talvez como uma reação ao que se rotulou de “politicamente correto”, há pessoas que se dão o direito de falar impropérios, como se a liberdade de expressão nos eximisse da responsabilidade de expressão.
Fato é que a Marcha das Vadias se espalhou pelo mundo e, aqui na minha cidade, congregou muitas pessoas, sobretudo jovens e não necessariamente mulheres. Havia muitos homens, vários dos quais levantando a bandeira arco-íris. Crianças também se viam e até um pequeno gato, que uma bela senhora não quis deixar em casa sem o calor do seu colo. O trajeto, percorrido a pé e carnavalescamente, deu-se nas ruas do centro e reavivou, naquele sábado com sol de outono, as praças que nos dias ditos úteis são apenas lugar de passagem (e que, nos dias inúteis, ficam completamente vazias).
Confesso que gostei do que vi e que me identifico com a crítica ao machismo, em especial quando ele se manifesta no moralismo com relação ao sexo, isto é, no preconceito e na hipocrisia acerca da liberdade sexual. Virgindade, heteronormatividade, prostituição, para citar apenas três, foram temas explorados na Marcha, temas que requerem uma exposição e debate que, entretanto, os corpos pintados e os seios expostos não são capazes de suscitar plenamente, já que é enorme nossa resistência em tratar do machismo, tal como é enorme nossa dificuldade em falar em sexo e em formas de gozo. O que dizer, por exemplo, de uma mulher que deseja ser subjugada na cama? Ela é, em algum sentido, machista ou vítima do machismo? Até que ponto podemos politizar o gozo?
De tudo que vi, marcou-me um refrão, ouvido já no final da caminhada: chupo piroca / chupo buceta / e eu não quero / uma etiqueta! Cito-o porque parece resumir, ao menos aos meus olhos, o principal argumento das pessoas com quem caminhei: meu corpo pertence exclusivamente a mim e, por isso, posso fazer dele o que eu quiser. Não pretendo entrar no mérito desse argumento libertário, de cujas consequências normalmente não estamos conscientes, mas ressalto o seguinte aspecto: sim, sabemos que podemos tudo no campo da sexualidade, chupar piroca e buceta, piroca ou buceta, pirocas e/ou bucetas e, inclusive, não chupar, se essa for a nossa vontade, mas e aí?
E aí, sinceramente, que a porca torce o rabo. É imprescindível a defesa pública da liberdade sexual ou, noutras palavras, da esfera privada – isso não cabe discutir. Contudo, quando pensamos os indivíduos, quando olhamos para nós mesmos, o mais difícil não é constatar que podemos fazer o que quisermos, mas descobrir o que realmente queremos, assumir e suportar aquilo que somos. Acho estranho o tom eminentemente festivo da Marcha. Só se gritava a liberdade, ninguém falou do trágico: o desejo é um déspota. Ser vadio é ser escravo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Princípios


Eu queria que estivesse aqui,
mas sei que nunca estará.
Por isso eu guardo minhas coisas inúteis
– ouvidos, pele, uma foto da infância –
e encubro confissões engolindo o jantar não partilhado.
Às vezes escrevo, às vezes leio,
até filmes tento assistir,
busco afazeres no tempo que eu desejava perder.
Já que não vem e jamais virá,
tenho de me recompor,
ater-me ao essencial:
desejar algo que não seja seu corpo.
Tenho de deixar de ensaiar gestos,
de reservar no armário a segunda toalha,
de planejar o café para a manhã seguinte.
Preciso voltar a fazer sentido,
recuperar o olhar para o desimportante:
pensar nos trabalhos e contas,
combinar calça e meias,
indignar-me com as injustiças do mundo.
Preciso encontrar um novo começo,
restaurar a ilusão de que a vida é possível.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Praças e Praças


Minha mãe contava que, no tempo dela (nem tão longe assim), havia um rito para o flerte: ir à praça e caminhar em círculos, as mulheres num sentido e os homens no outro, todos atentos aos sinais que podiam ser emitidos, normalmente bem discretos: um sorriso, uma piscadela. Confesso que, num primeiro momento, não acreditei no relato: aos meus olhos, pareceu pré-histórico. No entanto, compreendi depois, era a época das escolas separadas entre meninos e meninas, dos assentos na igreja reservados aos senhores e senhoras, práticas que existiram, por mais inimagináveis que soem.

Conta minha mãe que, à noite, os jovens freqüentavam bailes (não baladas), trocavam olhares, bebiam um pouco e dançavam. Havia a expressão “par constante” para aqueles que sempre dançavam juntos e não namoravam. Isso de ficar, como todos sabemos, estava fora de cogitação. O ficar é uma invenção genial, mas bastante recente. Apenas de uns tempos para cá é que os contatos da noite, em especial com o sexo oposto, não se fazem mais a duras penas, asfixiados por interditos. Hoje o desejo pode se manifestar de modo muito menos enviesado. As aproximações são mais fáceis e é até possível uma amizade franca entre homem e mulher.

Ao contrário de muitos que o recriminam ou lamentam, arrisco-me a dizer que não se namora menos por causa do ficar. Quando existe a vontade de permanecer junto, tudo se passa como antigamente. Não faz sentido denegrir o ficar afirmando que é menos durável. Seu valor reside na efemeridade e nas descobertas de si e dos outros que dele provêm. Seguramente, o namoro é algo que não interessa a todas as pessoas que estão na balada, mas o fato é que estamos diante de dois comportamentos (namorar e ficar) que operam em registros diferentes. Cabe a nós aprender a caminhar nas praças que freqüentamos.